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Renan Santos pede a apoiadores em SC que virem votos

Eleição 2026: a fragmentação da direita em Santa Catarina, evidenciada pela campanha de Renan Santos, expõe o cálculo de Flávio Bolsonaro para o primeiro turno.

Por Beatriz Andrade Lima · · 6 min de leitura

Renan Santos pede a apoiadores em SC que virem votos
Renan Santos pede a apoiadores em SC que virem votos

A menos de duas semanas do primeiro turno, o candidato à Presidência Renan Santos (Missão) convocou apoiadores em Balneário Camboriú a uma operação de guerra eleitoral: cada simpatizante deveria arregimentar 30 multiplicadores de votos. Com 3% das intenções de voto na última pesquisa Datafolha, divulgada na quinta-feira passada, dia 17, Santos tenta uma sobrevida na disputa — e o faz justamente em Santa Catarina, estado onde a estratégia do principal rival da direita, Flávio Bolsonaro (PL), é puxar votos de concorrentes para tentar vencer já no primeiro turno.

A cena importa menos pelo tamanho eleitoral do candidato do Missão e mais pelo que ela revela sobre a aritmética da direita em 2026 e sobre o tipo de campanha que candidatos marginais são obrigados a fazer quando não têm tempo de TV nem máquina partidária.

O contexto institucional: por que Santa Catarina é peça-chave

Santa Catarina é o terceiro colégio eleitoral do país, atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais. É também um dos estados com maior densidade conservadora desde 2018 — o que explica por que tanto Flávio Bolsonaro quanto Renan Santos direcionam energia para lá. A bancada catarinense no Congresso, fortemente ocupada pelo PL, é citada pelo próprio candidato do Missão como evidência de que o eleitorado do estado tem mais alinhamento afetivo com a família Bolsonaro do que retorno concreto em políticas públicas: "sem reforma, sem estrada, sem infraestrutura", nas palavras dele, em referência ao período Bolsonaro-Lula.

Esse ponto é institucionalmente relevante porque toca em um tema persistente da política brasileira: o peso do voto regional versus a entrega efetiva de políticas federais. Para esta análise, a fala de Santos evidencia um problema estrutural — o do eleitor que premia lealdade partidária em detrimento de resultados mensuráveis, como infraestrutura, reforma tributária e segurança pública, pautas nas quais o campo liberal-conservador costuma apresentar agenda mais robusta.

O que "multiplicar votos" significa na prática

A estratégia de Renan Santos é a mais antiga da política de rua em campanhas com pouco dinheiro e nenhuma inserção significativa em rádio e TV: arregimentar uma rede de cabos eleitorais voluntários que, pessoalmente, convencem outros 30 cidadãos cada um. Em teoria, multiplicadores disciplinados podem alavancar a base visível de um candidato em poucas semanas.

Na prática, o método tem limitações conhecidas:

  • Depende inteiramente de motivação — multiplicadores que desistem reduzem a conta final.
  • Atende melhor quem já está próximo do candidato do que quem está indeciso.
  • Tem rendimento decrescente em municípios grandes e dispersos.
  • Substitui tempo de TV, mas não totalmente — a propaganda audiovisual ainda puxa mais voto em janela curta.

A operação é parte legítima do jogo democrático, mas é a estratégia de quem não tem como competir em pé de igualdade no tabuleiro nacional. Para esta análise, é também um indicador de que o financiamento público de campanhas e o horário gratuito seguem concentrando a disputa — distorção que uma reforma política liberal deveria atacar.

A equação da direita: Flávio e o risco do primeiro turno

O ponto mais relevante da notícia não é Renan Santos, mas a estratégia explicitada do adversário: Flávio Bolsonaro (PL) busca nos próximos 15 dias absorver votos de Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, com a esperança de resolver a disputa em primeiro turno. O cálculo é simples: se a direita apresentar um candidato único e majoritário, vence sem precisar do segundo turno.

Ocorre que a direita brasileira chega fragmentada em pelo menos quatro nomes relevantes mais o candidato do Missão. Em matemática eleitoral, fragmentação pode custar caro: se o campo de esquerda obtém, hipoteticamente, 35% e Flávio 32%, mas Renan, Caiado e Zema juntos somam 20% pulverizados, o campo conservador perde mesmo sendo maioria do eleitorado.

Esse é o dilema estrutural que Renan Santos coloca em evidência ao insistir em permanecer na disputa. Sob a ótica liberal-conservadora desta análise, há dois caminhos:

  1. Unificação pragmática da direita em torno do candidato mais viável — decisão impopular, mas matematicamente superior.
  2. Manutenção de candidaturas testimonais em nome da "pureza" — que pode custar a Presidência ao campo, com implicações em composição do STF, Congresso e política econômica por quatro anos.

O discurso "qualitativamente bandido": força e fragilidade

Santos igualou, no discurso, os dois candidatos líderes nas pesquisas ao chamá-los de "qualitativamente bandidos". É o argumento mais forte do outsider: o de que tanto a continuidade do PT quanto uma eventual gestão Flávio Bolsonaro representam a mesma classe política predatória, trocada apenas de figurino. O candidato citou nominalmente o nome de Daniel Vorcaro para sugerir promiscuidade entre os principais postulantes.

O argumento tem força emocional — a indignação moral é um ativo real em qualquer campanha — mas tem fragilidade analítica. Da perspectiva liberal-conservadora, a crítica moral indiscriminada se autodestroi: se todos são igualmente bandidos, não há critério racional para escolher, e o voto se torna mero gesto afetivo, não decisão política. Foi exatamente esse tipo de discurso, no campo oposto, que pavimentou vitórias recentes no Brasil e na América Latina — e costuma terminar mal para quem o pratica quando precisa governar.

Adicionalmente, Santos direciona parte de seu ataque a Jair Renan Bolsonaro e a Carlos Bolsonaro, candidatos do PL a cargos em Santa Catarina. Carlos, especificamente, é descrito como alguém "sem nenhum vínculo, sem nenhuma história com a região" — crítica legítima do ponto de vista da accountability democrática: por que o eleitor deveria sufragar nomes sem base regional?

Por que isso importa

Três consequências práticas emergem da leitura acima:

  • Para o centro-direita: a fragmentação da direita é o maior risco de perder o ciclo. Se Renan, Caiado e Zema insistirem em candidaturas isoladas, o custo é pago pelo campo inteiro no próximo quadriênio, com implicações em composição do STF, reforma tributária, marco regulatório e segurança pública.
  • Para o eleitor catarinense: o estado está submetido a uma disputa real entre projetos, e não a um mero carrossel de visitas. O voto em SC pesa mais que a soma de seus três estados vizinhos do Sul.
  • Para o processo eleitoral: a operação de Renan Santos lembra que a disputa não acontece só no horário gratuito — acontece nas ruas, nas igrejas, nos comércios. O nível de profissionalização de campanhas pequenas neste ciclo é um indicador da vitalidade democrática, ainda que limitado pelo orçamento.

Perguntas frequentes

Quem é Renan Santos?
Segundo a reportagem do portal InfoMoney, é o candidato à Presidência pelo partido Missão, com 3% das intenções de voto na última pesquisa Datafolha, divulgada na quinta-feira passada, dia 17.

Por que Santa Catarina virou alvo das duas campanhas?
Porque é o terceiro maior colégio eleitoral do país e tem forte tradição conservadora desde 2018, sendo estratégico tanto para Flávio Bolsonaro quanto para quem tenta apresentar alternativa à direita.

O que Flávio Bolsonaro ganha com a dispersão de votos entre Renan, Caiado e Zema?
Em tese, nada — ele perde votos que poderiam ser seus. A estratégia do PL é justamente reverter essa dispersão nos últimos 15 dias, conquistando apoio declarado de governadores e movimentos pró-governo Bolsonaro.

A estratégia de "multiplicar votos" realmente funciona?
Funciona parcialmente. É eficiente em capilaridade e em bairros onde a campanha tem base, mas tem rendimento muito menor que inserções em TV e não substitui estrutura partidária consolidada.

Renan Santos tem chance real de chegar ao segundo turno?
A reportagem não apresenta nenhum dado que sustente essa hipótese. Com 3% das intenções, a distância matemática é expressiva, e a janela de 15 dias é curta mesmo considerando mudanças bruscas no eleitorado.

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