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AfD lidera na Alemanha e quer revisar a memória do nazismo

Avanço da AfD na Saxônia-Anhalt expõe o custo político de memórias oficiais. Debate sobre o nazismo revela tensões também relevantes para o caso brasileiro.

Por Beatriz Andrade Lima · · 6 min de leitura

AfD lidera na Alemanha e quer revisar a memória do nazismo
AfD lidera na Alemanha e quer revisar a memória do nazismo

A Alternativa para a Alemanha (AfD) lidera com folga as pesquisas para as eleições estaduais de 6 de setembro na Saxônia-Anhalt, segundo reportagem do portal BBC News. Não se trata de mais uma escalada eleitoral da extrema-direita europeia: a pauta central do partido nesta disputa é o que os alemães chamam de Erinnerungskultur — a "cultura da memória" construída desde 1945 em torno do reconhecimento dos crimes nazistas. Reduzir o ensino sobre Hitler nas escolas, cortar financiamento de arte considerada "anti-alemã" e qualificar esse edifício moral como um "complexo de culpa" são as bandeiras que podem levar a legenda ao governo de um Estado federado pela primeira vez.

O consenso moral que está sendo disputado

Desde o fim da Segunda Guerra, a República Federal da Alemanha construiu uma identidade institucional em torno da chamada Vergangenheitsbewältigung — o confronto permanente com o passado nazista. Não é apenas um discurso: o compromisso se materializou em lei (criminalização do negacionismo em 1994 e dos símbolos nazistas), em currículos escolares obrigatórios, em museus memorial financiados pelo erário, em programas de intercâmbio com Israel e em políticas culturais que bancam explicitamente obras de arte que dialogam com a memória do Holocausto.

O resultado é um país onde a expressão pública de orgulho nacional desmedido é vista com desconfiança — e onde bandeiras alemãs em contexto civil são exceção, não regra. Para o establishment político alemão — CDU/CSU, SPD, Verdes, FDP e Die Linke —, essa arquitetura não é acessória: é o "alicerce moral da nação", como registra a BBC.

A AfD quer desconstruir parte desse alicerce. No manifesto eleitoral citado pela reportagem, o partido classifica a política de memória alemã de "complexo de culpa" e propõe que o ensino sobre Hitler seja reduzido e que verbas públicas deixem de financiar o que classifica como arte "anti-alemã".

Por que exatamente Saxônia-Anhalt

O mapa eleitoral alemão não é indiferente a esse debate. A Saxônia-Anhalt integra o bloco dos cinco Länder reconstituídos na antiga Alemanha Oriental após a reunificação de 1990. Passados mais de trinta anos, persistem ali indicadores socioeconômicos mais frágeis, menor densidade industrial e uma memória própria da RDA — para muitos eleitores, o "sistema" de Berlim Ocidental nunca substituiu de fato o anterior.

É nesse terreno que a AfD encontrou seu nicho eleitoral: crítica à imigração, defesa de políticas sociais voltadas ao "alemão de verdade" e, agora, contestação da narrativa oficial sobre o nazismo. A presença do partido no Bundestag é a mais alta desde sua fundação em 2013, e uma vitória em um Estado federado consolidaria a legenda como ator permanente da política alemã — e não como protesto passageiro.

O que há de legítimo — e o que não há

Uma análise honesta precisa separar duas questões que a AfD embaralhou em sua campanha.

A primeira diz respeito ao tamanho do Estado na cultura e na educação. É razoável, de uma perspectiva liberal-conservadora, perguntar se currículos devem ser definidos de forma tão centralizada e se o financiamento público de arte deve obedecer a critérios ideológicos explícitos. No Brasil, o debate é cotidiano: da Base Nacional Comum Curricular às verbas da Lei Rouanet, passando pelos Fundos Nacional e Estaduais de Cultura. A crítica da AfD ao financiamento de arte "anti-alemã" encontra eco, em outra chave, em eleitorados que se ressentem de ver o contribuinte pagando manifestações que consideram hostis à própria identidade.

A segunda é o conteúdo histórico. Caracterizar a cultura da memória alemã como "complexo de culpa" e propor menos ensino sobre Hitler não é uma reforma pedagógica: é uma reorientação moral do Estado. O Holocausto não é um detalhe curricular disputável entre historiadores; é o evento em torno do qual a Alemanha reconstruiu sua relação com a lei, com a democracia e com a Europa. Diminuir seu ensino não corrige um exagero — substitui uma memória por outra.

É essa a linha que separa democratas liberais de revisionistas. Confundi-las é o principal desserviço intelectual que se pode prestar ao debate.

Por que isso importa para o leitor brasileiro

O caso alemão interessa ao leitor brasileiro por três razões concretas.

1. Memória como política de Estado. Quando a narrativa histórica deixa de ser matéria do debate acadêmico e vira política pública — currículos obrigatórios, museus financiados, datas oficiais —, ela produz dois efeitos simultâneos: dá estabilidade ao consenso e cria o combustível para o backlash. A trajetória alemã das últimas duas décadas funciona como caso de laboratório. Mostra que mesmo uma democracia consolidada, com instituições robustas e economia forte, não está imune a uma crise de identidade quando a memória oficial passa a ser lida como instrumento de poder cultural das elites.

2. Economia política da cultura. A proposta da AfD de cortar financiamento estatal de arte "anti-alemã" dialoga, com as devidas proporções, com debates brasileiros sobre o destino de recursos da Lei Rouanet, do Fundo Nacional de Cultura e dos mecanismos estaduais de incentivo. Do ponto de vista liberal-conservador, a pergunta relevante não é se o Estado deve ou não financiar cultura — é se o faz para ampliar a oferta de bens culturais ou para direcionar o conteúdo simbólico da nação. Esta segunda finalidade, sempre que existe, tende a produzir distorções de mercado e resistência eleitoral.

3. O custo de ignorar a base conservadora. O avanço da AfD não ocorreu apesar do consenso memory-centric — ocorreu em parte por causa dele. Quando o establishment político trata a identidade nacional como tema moral fechado à revisão, abre espaço para que partidos de fora do sistema captem o eleitorado descontente. A lição, lida de Brasília, é direta: pautas identitárias e de segurança que parecem resolvidas no debate público continuam cobrando seu custo nas urnas.

Perguntas frequentes

O que é a AfD?
Fundada em 2013 como partido eurocético, a Alternativa para a Alemanha migrou para uma pauta identitária, anti-imigração e crítica ao consenso de memória pós-1945. É hoje a principal força de oposição ao establishment partidário alemão.

O que é a "cultura da memória" alemã?
Conjunto de políticas públicas, práticas educacionais e marcos legais que mantêm viva a lembrança dos crimes nazistas e do Holocausto. Inclui currículos escolares, museus, monumentos, programas de intercâmbio e legislação penal contra o negacionismo.

A Saxônia-Anhalt é representativa do resto da Alemanha?
Não. É um Estado da antiga Alemanha Oriental, com perfil socioeconômico e eleitoral distinto. Mas resultados ali costumam funcionar como termômetro da força da AfD nos demais Länder orientais — Saxônia, Brandemburgo e Turíngia.

O que muda se a AfD conquistar o governo do Estado?
A política de educação, cultura e memória daquele Land pode ser redirecionada. Mas o peso federal da Alemanha sobre o tema — lei penal, relações exteriores, financiamento de museus federais — limita o alcance prático de uma mudança local.

Há paralelo direto com a política brasileira?
O paralelo é estrutural, não temático. Em ambos os casos, observa-se a tensão entre memória oficial conduzida pelo Estado, identidade nacional e resistência eleitoral das bases conservadoras. Já o conteúdo histórico é distinto: confundir o debate brasileiro sobre o período 1964-1985 com a revisão do Holocausto é erro analítico grave.

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