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Ajuste fiscal decide 2026, dizem CEOs do mercado financeiro

CEOs do mercado financeiro projetam 2026 e alertam: sem âncora fiscal crível, Selic seguirá comprimindo a economia e ameaçando o investimento privado.

Por Beatriz Andrade Lima · · 7 min de leitura

Ajuste fiscal decide 2026, dizem CEOs do mercado financeiro
Ajuste fiscal decide 2026, dizem CEOs do mercado financeiro

CEOs do mercado financeiro projetam 2026 sob o espectro do ajuste fiscal — e avisam que o relógio não pode esperar

O Estadão abre, nesta semana, uma rodada de conversas com presidentes de bancos de investimento, gestoras e fundos de previdência sobre as eleições de 2026. Não se trata de exercício de futurologia partidária: são vozes que enxergam a economia por dentro, lendo temperatura de balanço de empresas, fluxo de captações e, principalmente, apetite de crédito. Quando todas convergem para um mesmo ponto — o esgotamento do espaço fiscal antes mesmo da campanha começar —, a análise política precisa parar e ouvir. Segundo o portal Terra.com.br, o recado é uníssono: o próximo presidente vai herdar uma Selic comprimindo a atividade, e sem âncora fiscal a alta de juros não tem para onde cair.

O que está em jogo antes mesmo da disputa começar

O ponto de partida é institucional, não eleitoral. O Brasil atravessa um ciclo em que a taxa básica de juros opera em patamar elevado e, mais relevante, com componente "real" — descontada a inflação esperada — entre os mais altos do mundo. Isso significa que o Banco Central, para ancorar expectativas, paga caro pela contenção monetária, e esse custo recai sobre empresas e tomadores de crédito. Os CEOs ouvidos pelo Estadão não estão reclamando do BC; estão descrevendo um mecanismo: juros altos demais, por tempo demais, travam investimento, derrubam produção e empurram empregos para o fim da fila.

Daniel Wainstein, co-CEO do Seneca Evercore, que acaba de estruturar o Banco Seneca, resumiu: "A economia não aguenta mais um ano com os juros reais nesse nível. O empresário não aguenta e, no momento em que chegar ao inevitável desemprego, a situação será insustentável." A fala não é ideológica — é de quem olha pipeline de operações, não planilha de partido.

O efeito cascata que sai dos balanços e chega à linha de produção

Há um dado operacional que a discussão pública costuma esquecer: quem trabalha com reestruturação de dívidas, M&A e captação vê, primeiro, a dor das empresas maiores. Em seguida, a das médias. Por fim, a das pequenas fornecedoras, que dependem das anteriores. Os pedidos de recuperação extrajudicial e judicial em grandes companhias já estão produzindo uma reação em cadeia — algumas dessas empresas chegaram a reduzir produção por falta de caixa para manutenção de máquinas e equipamentos, um sinal raro na história industrial recente do país.

Para o leitor desatento, isso pode soar como dado macroeconômico abstrato. Não é. Máquina parada é turno cancelado, é pedido de fornecedor que não entra, é município que perde arrecadação de ISS. É a engrenagem real da economia perdendo rpm — e, como lembra Ricardo Lacerda, CEO do BR Partners, "se a gente não tiver uma forma de reduzir os juros no Brasil, vamos caminhar para um abismo". Lacerda acrescenta o alerta mais duro da série: "Vamos começar a ter discussões sobre calote na dívida pública, inflação e coisas que a gente achou que eram fantasmas de um passado muito longínquo."

Dominância fiscal: o conceito que decide o futuro da Selic

Vale parar aqui para o leitor não iniciado. "Dominância fiscal" é o estado em que a política monetária perde eficácia: o Banco Central sobe juros, mas a dívida pública cresce mais rápido, as expectativas de inflação se desancoram e a taxa precisa subir ainda mais, sem conseguir cumprir seu papel. É, em termos simples, o ponto em que o mercado deixa de acreditar que o governo conseguirá pagar a conta. Os CEOs ouvidos divergem sobre se já estamos nesse ponto — e essa divergência, em si, é informação. Parte dos executivos acredita que ainda há tempo; outra parte considera o risco concreto. Todos, porém, concordam no diagnóstico central: sem ajuste, a Selic não cai de forma sustentável.

Do ponto de vista desta análise, esse é o ponto nevrálgico. A política de juros é reativa; a política fiscal é estrutural. Sem corte de despesa, reforma administrativa, fim de renúncias sem retorno mensurável e revisão de programas mal calibrados, o BC fica refém do mercado de títulos públicos, e a sociedade paga duas vezes: uma via imposto inflaciónario e outra via estagnação.

O que muda em 2026 com esse diagnóstico na mesa

Três efeitos práticos já podem ser projetados a partir do que se ouviu nessa primeira rodada:

  • A corrida presidencial começa, na prática, em torno do fiscal. Candidatos que não trouxerem um plano de ajuste crível, com metas e prazos, perderão a confiança do mercado — e, com ela, a capacidade de governar mesmo antes da posse.
  • O Congresso entra como protagonista, não coadjuvante. Qualquer ajuste relevante depende de articulação política no Legislativo. PECs de contenção, reformas administrativas e revisão de vinculações orçamentárias são o verdadeiro campo de batalha do próximo ciclo.
  • O eleitor começa a precificar o custo da inação. Desemprego, recuperação judicial em série e máquinas paradas tendem a entrar na conversa de família antes do que entraram em ciclos anteriores — e isso muda o cálculo eleitoral.

Por que isso importa

O que essa série de entrevistas mostra não é uma previsão eleitoral — é um mapa de risco. Quando o mercado financeiro, em sua camada mais sofisticada, fala em "abismo" e em "fantasmas do passado", não é para dramatizar: é porque esses agentes vivem do spread entre o risco percebido e o preço dos ativos. Quando eles dizem "o ajuste virá, independentemente de quem ganhe", estão fazendo um alerta institucional ao sistema político: a fatura chega, queira Brasília ou não.

Para o contribuinte e o empresário, a leitura prática é direta. Se o próximo governo não entregar um programa de estabilização fiscal crível, o custo recairá sobre quem produz, emprega e paga imposto — não sobre quem decide em gabinete. A história econômica brasileira recente mostra que esse caminho termina em recessão, inflação alta e, nos casos piores, em ruptura institucional. Não é exagero: é a memória que os CEOs invocam ao falar de "fantasmas".

A avaliação desta análise é que 2026 será, antes de qualquer disputa ideológica, uma eleição sobre responsabilidade fiscal. O mercado já escolheu seu lado — o da prudência. Resta saber se a política brasileira será capaz de oferecer, até a campanha, uma alternativa crível à inércia. Caso contrário, como lembrou um dos executivos, "a situação será insustentável".

Perguntas frequentes

O que é dominância fiscal e por que ela importa para o cidadão comum?

É a situação em que o governo perde credibilidade para honrar sua dívida, e o Banco Central perde controle sobre a inflação mesmo subindo juros. Para o cidadão, significa inflação mais persistente, crédito mais caro e risco de recessão prolongada.

Por que CEOs de bancos privados se manifestam sobre eleições?

Porque políticas fiscais e monetárias definem diretamente o custo do crédito, o valor dos ativos e a viabilidade de operações de fusão, aquisição e captação. Eles são termômetros de sentimento econômico e interlocutores frequentes de investidores institucionais.

Existe risco real de calote na dívida pública brasileira?

Os executivos ouvidos divergem, mas alguns consideram o cenário plausível se o ajuste fiscal não vier. Não há, até o momento, indicação concreta de ruptura iminente, mas o nível de alerta subiu em comparação a ciclos anteriores.

O ajuste fiscal é inevitável, como sugerem os CEOs?

Para a maioria dos executivos ouvidos, algum nível de ajuste é inevitável independentemente de quem seja eleito. A questão é o tamanho, a velocidade e a credibilidade do programa — e esses fatores dependem de articulação política no Congresso.

O que o investidor e o empresário devem monitorar a partir de agora?

Três frentes: a execução do arcabouço fiscal vigente, o desenho de reformas estruturais no Congresso e a comunicação do Banco Central sobre trajetória da Selic. O comportamento dos pedidos de recuperação judicial nos próximos trimestres será termômetro adicional da dor que já está chegando à ponta.

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