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Alesp 2026: 1.431 candidatos disputam 94 vagas em São Paulo

São Paulo registra 1.431 candidatos para 94 vagas na Alesp em 2026 — maior relação candidatos-por-cadeira do país e sintoma de um sistema que infla a oferta.

Por Beatriz Andrade Lima · · 6 min de leitura

Alesp 2026: 1.431 candidatos disputam 94 vagas em São Paulo
Alesp 2026: 1.431 candidatos disputam 94 vagas em São Paulo

São Paulo elege 94, mas oferece 1.431 nomes: o que esse número diz sobre o sistema

São Paulo chega às eleições de 2026 com 1.431 candidatos registrados para as 94 cadeiras da Assembleia Legislativa, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) compilados pelo portal Globo. São mais de 15 postulantes por vaga em disputa, na maior relação candidatos-por-cadeira entre os estados brasileiros. Antes de ser dado estatístico, esse número é sintoma de um sistema que incentiva a fragmentação, infla artificialmente a oferta nominal de candidaturas e, não raro, abre flanco para uso irregular do processo eleitoral.

O peso da escolha para o eleitor

São Paulo tem 34,1 milhões de eleitores aptos a votar — o maior colégio do país. Na prática, cada cadeira em disputa na Alesp representa cerca de 363 mil cidadãos. Quando o eleitor entra na cabina e se depara com uma lista com mais de mil nomes, o exercício de escolha informada se torna quase impossível. Pesquisas recorrentes sobre comportamento eleitoral indicam que a maior parte dos votos para deputado vem de três fontes, nesta ordem: o partido, o horário gratuito de rádio e TV e o boca a boca. Em outras palavras, a urna reproduz quem tem mais recurso e mais recall, não necessariamente quem tem o melhor projeto.

Por que há tantos candidatos?

A resposta curta é o desenho institucional. O Brasil adota o sistema proporcional de lista aberta para as casas legislativas estaduais e federal, com cláusula de barreira progressiva desde a reforma de 2017. Nesse modelo, quanto mais candidatos o partido lança, maior o quociente eleitoral potencial e mais sobras partidárias ele pode capturar. Para a legenda, cada candidato a mais é um voto útil distribuído em mais cabeças. Para o postulante individual, candidatar-se virou negócio de baixíssimo custo de entrada — basta filiar-se e registrar a chapa dentro do prazo.

Isso gera duas distorções conhecidas. A primeira é a proliferação de candidaturas de vitrine: pessoas que sabem que não serão eleitas, mas usam a visibilidade da campanha para abrir portas, vender imagem ou pavimentar uma disputa futura. A segunda, mais grave, é o uso de candidaturas laranja — partidos que lançam nomes fictícios ou sem real intenção de campanha para captar recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e do fundo partidário. O TSE e o Ministério Público Eleitoral têm histórico de apurações nessa direção, com condenações em São Paulo e em outros estados.

O argumento contrário — de que a multiplicidade de nomes amplia a pluralidade e a representação — tem a sua versão mais forte: quanto maior a oferta, maior a chance de o eleitor encontrar alguém afinado com pautas específicas. É uma tese legítima, mas que perde força quando o sistema entrega 1.431 candidatos numa única urna sem exigir nenhum filtro mínimo de viabilidade. A abundância aqui não é variedade — é ruído.

O custo público de 1.431 campanhas

Cada campanha registrada mobiliza recursos do fundo público, acesso ao horário gratuito, estrutura de fiscalização e despesas administrativas. O fundo eleitoral de 2026 ainda está em definição no Congresso — a Câmara avançou em 2023 na redução gradual desse financiamento público, mas o calendário de 2026 vai operar sob regras transitórias. Ainda assim, mesmo que parte relevante das campanhas seja autofinanciada, a multiplicação de candidatos eleva o custo regulatório da Justiça Eleitoral e dilui a capacidade de fiscalização do voto.

Para o contribuinte, há um ponto raramente discutido: cada candidato registrado é mais um CNPJ de campanha, mais uma prestação de contas a ser auditada, mais um conjunto de despesas a serem conferidas. O processo eleitoral brasileiro já é reconhecidamente caro em comparação com padrões internacionais; inflar artificialmente o número de postulantes não amplia representação — encarece a operação e abre flanco para fraude.

O que está em jogo na Alesp

A Assembleia Legislativa de São Paulo não é um Legislativo qualquer. É a casa que define o orçamento do maior estado da federação, com poder direto sobre segurança pública, educação, saúde, infraestrutura e, sobretudo, a política tributária do ICMS. Os 94 deputados eleitos em outubro decidem onde e como o dinheiro do maior contribuinte líquido do país é gasto. A qualidade dessa escolha afeta diretamente a carga tributária que o cidadão paga, a segurança que recebe do Estado e a eficiência do gasto público estadual.

Num estado onde o crime organizado avança sobre o interior e a capital, onde a escola pública insiste em resultados medíocres e onde a dívida pública pressiona o orçamento, a composição da próxima Alesp não é detalhe — é variável determinante da próxima década.

Por que isso importa

Para o eleitor, o recado prático é direto: nas próximas semanas, valerá mais pesquisar três ou quatro candidatos com ficha limpa, votação anterior relevante e posicionamento claro em pautas como segurança, carga tributária e responsabilidade fiscal do que confiar no número que aparece na urna por força do horário gratuito. O sistema empurra o eleitor para a inércia; a única defesa é informação prévia.

Para o analista, o número de 1.431 candidatos em São Paulo deve ser lido como evidência de que a reforma política prometida e nunca entregue segue fazendo falta. Enquanto a cláusula de barreira for progressivamente mais fraca e o financiamento público seguir bancando o balcão de candidaturas, a relação entre oferta nominal de candidatos e qualidade da representação continuará na direção errada.

Para quem defende um Estado menor, mais eficiente e menos capturado por interesses corporativos, o tamanho da lista é mais um argumento a favor de transparência total sobre quem são os candidatos — não apenas nomes em ordem alfabética, mas patrimônio declarado, fonte de recurso de campanha, histórico de votações anteriores e afiliações partidárias pretéritas. O eleitor que compara, escolhe melhor; e o sistema que resiste à comparação merece ser cobrado.

Perguntas frequentes

Quantos candidatos a deputado estadual concorrem em São Paulo em 2026?
São 1.431 candidatos registrados, segundo dados do TSE compilados pelo portal Globo. O número pode variar até a votação, com indeferimentos e eventuais substituições.

Quantas vagas estão em disputa na Alesp?
94 vagas na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, para um eleitorado apto de aproximadamente 34,1 milhões de pessoas.

Quando acontece o primeiro turno?
No dia 4 de outubro de 2026, das 8h às 17h no horário de Brasília.

Como o eleitor vota para deputado estadual?
O voto é nominal — o eleitor digita o número do candidato na urna ou digita o nome completo. Cada voto nominal alimenta o cálculo proporcional do partido e, em seguida, o cálculo individual dentro da legenda.

Por que há tantos candidatos para tão poucas vagas?
O sistema proporcional de lista aberta incentiva os partidos a lançarem o maior número possível de candidatos para aumentar suas chances de atingir o quociente eleitoral e capturar sobras. Isso infla a lista nominal e abre espaço para candidaturas de baixa densidade, incluindo casos de uso irregular de candidaturas para captação de recursos públicos.

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