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Augusto Cury supera Lula e Flávio Bolsonaro no Instagram

Cury somou 2,4 milhões de seguidores em sete dias, mais que Lula e Flávio juntos. O fenômeno expõe a fadiga do eleitorado com a polarização na corrida de 2026.

Por Beatriz Andrade Lima · · 7 min de leitura

Augusto Cury supera Lula e Flávio Bolsonaro no Instagram
Augusto Cury supera Lula e Flávio Bolsonaro no Instagram

O salto do escritor e psiquiatra Augusto Cury no Instagram — 2.433.368 novos seguidores em sete dias — colocou em segundo plano, no terreno das redes, dois nomes que deveriam protagonizar a corrida presidencial de 2026: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. O feito, segundo dados da Social Blade reproduzidos pelo portal Abril.com.br, levou o candidato do Avante ao topo global do ranking de criadores que mais cresceram na semana, à frente de nomes como Lito Sousa e a cantora Dolly Parton. O movimento, porém, não consagra nenhuma candidatura: reabre uma pergunta antiga sobre o que audiência digital efetivamente vale numa campanha eleitoral brasileira.

Quem é Cury no tabuleiro

Augusto Cury é um dos autores mais vendidos do Brasil, com obras de psicologia e desenvolvimento pessoal que circulam há décadas. Até a última semana, era uma figura do mercado editorial, não do mercado eleitoral. Entrou na disputa pelo Avante — partido pequeno, sem bancada robusta no Congresso e sem tradição de presidenciáveis competitivos — após articulação da direção partidária. Em termos institucionais, trata-se de uma candidatura que disputa visibilidade, não palácio.

A arrancada começou depois do debate promovido pela Band no domingo, 23, quando Cury apareceu no mesmo palco dos principais nomes da corrida, frente a um público que normalmente não o via como ator político. O pico diário de crescimento veio na quinta-feira, 27, com 1.209.891 novos seguidores. A trajetória posterior, contudo, já mostra reversão: no domingo, 30 — um dia após a sabatina no Jornal Nacional, da TV Globo —, o candidato perdeu 19.128 seguidores; na segunda, 31, outros 19.451.

O contraste com Lula e Flávio Bolsonaro

A comparação que a própria reportagem da Abril estabelece é a mais sintomática. No mesmo período em que Cury ganhou mais de 2,4 milhões de seguidores no Instagram, Lula passou de 14.976.725 para 14.992.986 — alta de 16.261 seguidores, equivalente a 0,11%. O presidente chegou a perder 7.469 seguidores entre segunda e quarta-feira, logo após sua ausência no debate da Band. O maior salto diário de Lula no período foi de 13.663 novos seguidores na sexta-feira, 28, um dia após a sabatina na Globo.

Flávio Bolsonaro saiu ainda pior na conta. O senador do PL cresceu menos que Lula, e os números consolidados mostram que Cury ganhou mais de 26 vezes o volume de seguidores conquistados pelo filho do ex-presidente e quase 150 vezes o crescimento do atual presidente.

Não se trata de variações marginais. Os números descrevem dois movimentos opostos no eleitorado digital: de um lado, descoberta e curiosidade em torno de um nome novo; do outro, estagnação — e em alguns dias, rejeição declarada — em torno de nomes que polarizam a disputa.

Seguidor não é voto — mas diz alguma coisa

É preciso separar entusiasmo de calendário. Um "follow" no Instagram é gesto de baixo custo, basta um toque na tela. Um voto exige deslocamento, convicção e, em geral, conversa com a família. A história recente brasileira está cheia de candidatos que dominaram timelines e não chegaram ao segundo turno, e de candidatos que pareciam invisíveis nas redes e terminaram eleitos.

Mas descartar o indicador por completo seria igualmente impreciso. Os dados da Social Blade mostram algo mais sutil do que transferência direta de popularidade para intenção de voto:

  • Curiosidade real com alternativas fora do eixo Lula-versus-Bolsonaro;
  • Fadiga do eleitorado com nomes já testados em 2022 — fadiga agravada pela rejeição consolidada em torno do presidente e da família Bolsonaro;
  • Capacidades desiguais dentro do campo da direita de mobilizar novas audiências digitais.

Para esta análise, o dado mais relevante não é o tamanho da audiência de Cury, mas o contraste com Flávio Bolsonaro. O senador aparece como herdeiro declarado do maior movimento político da direita brasileira e, mesmo assim, foi incapaz de converter o período em crescimento exponencial. Ainda que se considere a base menor do parlamentar, a desproporção é grande demais para ser ruído estatístico.

Os limites do efeito Cury

Há sinais precoces de que o pico já passou. A perda líquida de seguidores nos dois dias seguintes à sabatina na Globo indica que parte da audiência foi atraída pela novidade — pelo perfil de escritor famoso convertido em candidato — e não por adesão programática. Candidaturas que dependem de descoberta costumam enfrentar, logo depois, a fase de retenção, que é onde a viabilidade eleitoral de fato se constrói.

O Avante, além disso, não tem estrutura partidária para capitalizar a audiência em capilaridade territorial. Sem tempo de televisão relevante, sem alianças formalizadas com partidos maiores e sem histórico de articulação nacional, o partido depende essencialmente de performances individuais do candidato. O que torna a curva de crescimento nas redes especialmente frágil, e facilmente revertível pela concorrência de qualquer fato novo no noticiário.

Por que isso importa

O episódio não derruba nenhum favorito nem promove ninguém ao segundo turno. Mas expõe três tendências que tendem a se aprofundar até outubro de 2026.

  1. Fadiga com a polarização Lula-versus-Bolsonaro. O crescimento de Cury e a estagnação simultânea dos dois líderes indicam espaço real para um terceiro polo, ainda que nenhum dos nomes em disputa hoje pareça capaz de ocupá-lo com consistência programática.
  2. Custo da ausência de Lula no debate da Band. Perder seguidores nos dias seguintes a ter faltado ao único debate televisionado de alcance nacional é sinal raro de cobrança pública. A conta de uma ausência dessas raramente fica restrita aos números de uma rede social.
  3. A direita precisa de nomes que cresçam nas redes, não só nas ruas. Flávio Bolsonaro liderou mobilizações de grande porte nos últimos anos, mas não está conseguindo traduzir engajamento presencial em expansão digital na mesma proporção. É um gargalo estratégico que adversários internos e externos do campo bolsonarista já estão explorando.

Para o leitor que acompanha a corrida presidencial, o recado prático é simples: não tome o gráfico da Social Blade como pesquisa eleitoral, mas também não o descarte como barulho. Ele mede algo — e esse algo é o humor do eleitorado em relação ao elenco conhecido.

Perguntas frequentes

Augusto Cury tem chance real de chegar ao segundo turno? Não, segundo qualquer cenário conhecido até agora. O Avante não tem base eleitoral nem estrutura partidária para projetá-lo além de um papel de voz alternativa. A arrancada nas redes mostra curiosidade, não viabilidade institucional.

O que explica a perda de seguidores de Cury após a sabatina no Jornal Nacional? A queda coincide com a transição do ciclo de descoberta para o ciclo de retenção. Perfis ganhos por novidade tendem a se desfazer quando o objeto da curiosidade se torna cotidiano. É efeito conhecido em qualquer produto de mídia, não é exclusivo da política.

O desempenho modesto de Flávio Bolsonaro no Instagram indica fraqueza no campo da direita? Indica um gargalo específico — converter mobilização presencial em expansão digital —, mas não é, por si só, sinal de perda de hegemonia da direita. A liderança nas ruas e nas pesquisas continua concentrada em torno do bolsonarismo; a disputa interna pelo protagonismo, porém, fica mais aberta.

A ausência de Lula no debate da Band custou politically? Custou algo mensurável em imagem: perda de seguidores e cobertura negativa consistente. O efeito na intenção de voto depende de como o presidente administrar as próximas sabatinas e aparições públicas. Custos de ausência se diluem quando há reposição rápida — e Lula ainda terá muitas oportunidades até a campanha efetiva.

Seguidores no Instagram são indicador confiável de intenção de voto? Não. São indicador útil de atenção, curiosidade e humor momentâneo do público em relação a um nome. A intenção de voto exige pesquisas registradas, amostras probabilísticas e instrumentos qualitativos. Tratar audiência digital como substituto de pesquisa é erro frequente em coberturas apressadas.

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