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Encontro Berlim-Moscou na ONU põe agro brasileiro em alerta

Alemanha e Rússia dialogam na ONU após três anos de silêncio; encontro expõe limites do isolamento europeu e a ineficácia da neutralidade ativa brasileira.

Por Beatriz Andrade Lima · · 6 min de leitura

Encontro Berlim-Moscou na ONU põe agro brasileiro em alerta
Encontro Berlim-Moscou na ONU põe agro brasileiro em alerta

A primeira conversa direta entre os chanceleres da Alemanha e da Rússia em mais de três anos aconteceu no último sábado (26/09), à margem da Assembleia Geral da ONU em Nova York. Segundo o portal Terra.com.br, o alemão Johann Wadephul e o russo Sergei Lavrov estiveram frente a frente por cerca de vinte minutos, a portas fechadas, e só se cumprimentaram diante da imprensa ao final. A parte russa explicitou que o encontro foi solicitado por Berlim e que a Alemanha impôs restrições à presença da mídia: sem perguntas, sem gravação do início, sem fotos da abertura. O formato é tão revelador quanto o conteúdo.

Trata-se do primeiro contato entre os chefes da diplomacia dos dois países desde fevereiro de 2022, quando a Rússia lançou a invasão em larga escala da Ucrânia. O simples fato de ter ocorrido, nesse formato e nesse palco, merece ser decodificado — e afeta diretamente os interesses brasileiros.

Por que três anos de silêncio diplomático?

O congelamento dos contatos entre Berlim e Moscou não foi capricho. Foi a resposta europeia coordenada à invasão, dentro do arcabouço dos pacotes de sanções e do processo de desconexão da Alemanha do gás e do petróleo russos — um movimento que custou caro à maior economia do continente, sobretudo à sua indústria de base.

A Alemanha foi, até 2022, o parceiro europeu mais dependente da energia russa. O preço político e econômico da ruptura foi, e continua sendo, elevado: reconversão energética, perda de competitividade em setores eletrointensivos, pressão fiscal por subsídios. Esse é o pano de fundo doméstico que explica por que o encontro, mesmo simbólico, foi politicamente custoso para o governo de Friedich Merz autorizar.

Wadephul é filiado à CDU (União Democrata-Cristã), corrente historicamente mais atlantista e menos conciliadora com Moscou do que o SPD, que comandou a política externa alemã em boa parte do pós-Guerra Fria. A decisão de abrir o canal indica, no mínimo, que Berlim reconhece os limites da estratégia de isolamento absoluto e quer preservar uma linha de contato caso negociações se tornem inevitáveis.

O que a Alemanha busca na conversa

A versão oficial — "relações bilaterais e a guerra na Ucrânia" — é genérica, mas a pauta concreta é conhecida. O ponto principal é o corredor de exportação de grãos pelo Mar Negro. Conforme o portal Terra.com.br, Wadephul pediu que a Rússia faça "tudo o que for possível para chegar a um acordo" sobre o tema.

Não se trata de pedido humanitário exclusivo da Alemanha. A interrupção das exportações ucranianas de grãos, causada pelo bloqueio russo e, depois, pela retirada de Moscou do acordo mediado por Turquia e ONU em 2022, tem efeitos diretos sobre os preços globais de alimentos — e, portanto, sobre economias importadoras da África, do Oriente Médio e de parte da Ásia.

Para a Europa, o tema também toca a política interna: custo de vida e inflação de alimentos seguem sensíveis, e a direita radical tem ganho espaço com pautas que misturam desconforto econômico e euroceticismo. Uma conversa que ajude a conter preços de comida é, nesse contexto, também seguro eleitoral.

O ângulo brasileiro: o agro e a "neutralidade ativa"

É aqui que a notícia deixa de ser apenas europeia e passa a afetar interesses brasileiros diretos. O Brasil é um dos maiores exportadores agrícolas do mundo e foi, na prática, um dos beneficiários indiretos da interrupção dos fluxos ucranianos: com menos competição no mercado internacional e real desvalorizado, o agro brasileiro expandiu sua fatia no comércio global de grãos entre 2022 e 2024.

Qualquer reabertura do corredor do Mar Negro — ou, mais amplamente, qualquer cenário de estabilização do conflito — reduz essa vantagem competitiva artificial. Não a elimina, mas a atenua. Para o produtor brasileiro, a perspectiva de negociação entre Moscou e Washington é, no curto prazo, desconfortável — ainda que, no longo prazo, contribua para estabilidade e previsibilidade globais.

No campo diplomático, a postura do governo Lula merece ser relida à luz dessa notícia. Brasília adotou desde o início da guerra uma linha de "neutralidade ativa": recusou-se a aderir ao regime de sanções contra a Rússia, absteve-se em votações relevantes na ONU e buscou projetar-se como possível mediador, agenda conduzida pelo assessor especial Celso Amorim.

Essa postura tem custos. Rendou críticas de parceiros da União Europeia e dos Estados Unidos, sem produzir resultados concretos em termos de mediação. Para esta análise, o saldo é claro: muito mais retórica do que entrega efetiva. Enquanto isso, conversas reais sobre a guerra continuam acontecendo entre as partes diretas e seus aliados tradicionais — não entre quem proclama neutralidade da borda do campo.

Leitura: diálogo como contenção, não como abertura

Seria um erro interpretar o encontro Berlim-Moscou como o início de um degelo. O formato — vinte minutos, portas fechadas, imprensa restrita — sugere gestão tática, não reabertura estratégica. A Rússia, isolada e sob pressão econômica, tem interesse em sinalizar que não está totalmente fora do jogo. A Alemanha, por sua vez, precisa testar limites de disposição russa para concessões em dossiers específicos — grãos, eventualmente gás — sem pagar o preço político de uma normalização visível.

Para quem defende uma leitura realista das relações internacionais, o episódio traz uma lição clara: rigidez ideológica raramente sobrevive ao contato com a realidade econômica. Berlim sustentou por três anos a linha de isolamento; agora, quando o custo doméstico se torna insustentável, reabre o canal. É o tipo de pragmatismo que também deveria informar a política externa brasileira — menos protagonismo retórico, mais negociação concreta.

O risco é o oposto: que a porta aberta por Berlim seja utilizada por Moscou como imagem de legitimidade, sem substância correspondente. As próximas semanas dirão se há conteúdo ou apenas fotografia.

Por que isso importa

  • Para o agro brasileiro: a reabertura do corredor de grãos do Mar Negro reduz a vantagem competitiva obtida nos últimos anos, mas contribui para a estabilidade global de preços.
  • Para a diplomacia de Brasília: a "neutralidade ativa" do governo Lula segue rendendo mais discurso do que resultado efetivo, enquanto as negociações concretas ocorrem em outras mesas.
  • Para o multilateralismo: a Assembleia Geral da ONU continua sendo o palco de gestos simbólicos, mas as conversas substantivas acontecem em salas fechadas.
  • Para a segurança europeia: o encontro sinaliza que a estratégia de isolamento total da Rússia tem limites — o que tem implicações sobre a política de sanções e sobre qualquer futura negociação de paz.

Perguntas frequentes

O que foi discutido no encontro?
Segundo o Ministério das Relações Exteriores russo e fontes alemãs, a conversa tratou de relações bilaterais e da guerra na Ucrânia, com ênfase na retomada do acordo de exportação de grãos pelo Mar Negro.

Por que o encontro aconteceu agora?
A Assembleia Geral da ONU reúne em Nova York os principais chanceleres do mundo. A solicitação alemã sugere que Berlim quer testar a disposição russa para concessões em dossiers específicos, especialmente grãos, em meio à pressão econômica doméstica.

Há um degelo diplomático entre Alemanha e Rússia?
Não necessariamente. O formato do encontro — vinte minutos, portas fechadas, imprensa restrita — indica gestão tática, não reabertura estratégica. Os próximos movimentos dirão se há substância ou apenas imagem.

O que isso significa para a Ucrânia?
Para Kiev, qualquer movimento bilateral entre Alemanha e Rússia sem sua participação é motivo de preocupação. A lição de 2014 (acordos de Minsk) mostra que negociações sobre a Ucrânia, sem a Ucrânia, tendem a produzir maus acordos.

Como isso afeta o Brasil?
No curto prazo, a perspectiva de estabilização do conflito tende a reduzir a vantagem competitiva que o agro brasileiro ganhou com a interrupção das exportações ucranianas. No campo diplomático, o episódio escancara os limites da estratégia de "neutralidade ativa" do governo Lula.

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