Com o primeiro turno no horizonte, os presidenciáveis brasileiros já despejaram R$ 154 milhões nas campanhas de 2026, e os escritórios de advocacia aparecem como a terceira maior categoria de despesa — atrás apenas das agências de publicidade e da produção de material. No agregado, todas as candidaturas do país já comprometeram R$ 3,5 bilhões, segundo levantamento do portal Globo a partir das prestações de contas à Justiça Eleitoral. Mais do que mera curiosidade financeira, os números expõem um sistema eleitoral profissionalizado em que marketing de alto custo, blindagem jurídica e relações com o poder se retroalimentam — com efeitos diretos sobre quem pode competir, quem produz a mensagem e quem, no fim, paga a conta.
O ranking dos gastos e o filtro de entrada
Três campanhas presidenciais estão nitidamente acima das demais em volume de caixa. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera com R$ 65,6 milhões, seguido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), com R$ 55,3 milhões, e pelo ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), com R$ 24,2 milhões. Em seguida vêm duas campanhas ao governo estadual: Tarcísio de Freitas (Republicanos), em São Paulo, com R$ 22,6 milhões, e Alexandre Kalil (PDT), em Minas Gerais, com R$ 12,9 milhões.
A diferença de escala é o primeiro sinal relevante. Quem pretende chegar ao Planalto precisa, hoje, de uma estrutura de captação e gasto que exclui de saída qualquer candidatura sem lastro partidário robusto ou financimento privado abundante. O custo de entrada na corrida presidencial brasileira funciona, na prática, como um filtro estrutural contra outsiders — independentemente do discurso anti-sistema que cada lado apregoa.
Por que a publicidade virou o centro de gravidade da campanha presidencial?
Ao contrário das demais candidaturas, que gastam prioritariamente com material impresso e mobilização de rua, os presidenciáveis concentram o orçamento em agências de propaganda. A diferença de modelo não é casual: em uma disputa nacional, televisão, rádio e mídia digital exigem contratos de grande porte com empresas que dominam a produção audiovisual política.
O caso mais emblemático é o contrato de R$ 31 milhões firmado pela campanha de Lula com a Delta3 Comunicação e Projetos Ltda. O valor, sozinho, representa quase metade de tudo o que o presidente já despendeu. Os donos da Delta3 são os publicitários baianos Chico Kértesz e Raul Rabelo, que são sócios, em outra empresa, do atual ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Sidônio Palmeira.
A proximidade mistura três pontos sensíveis. Primeiro, recursos privados de campanha remuneram profissionais com vínculos pessoais com membros do primeiro escalão. Segundo, há risco evidente de conflito de interesse: assessora-se, ao mesmo tempo, quem governa e quem disputa a reeleição. Terceiro, o mercado se concentra em poucas agências, perpetuando quem já está dentro e erguendo muralhas para novos entrantes.
Do outro lado, a engrenagem da comunicação bolsonarista
No campo oposto, a campanha de Flávio Bolsonaro é assessorada pelo marqueteiro Duda Lima, dono da F.A.R.O Propaganda e Publicidade Ltda, que recebeu R$ 13,1 milhões pelo serviço. O portal Globo destaca que o montante é mais de quatro vezes o que a mesma empresa recebeu em 2022 para a campanha do pai do senador, o ex-presidente Jair Bolsonaro (R$ 3,26 milhões), e mais que o dobro do que recebeu do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), em 2024 (R$ 5,8 milhões).
Neste ano, a F.A.R.O. também foi contratada pelo diretório paulista do PL por R$ 4,1 milhões para cuidar de mais de 160 candidatos no Estado. O arranjo evidencia outra face do mesmo problema: a verticalização da comunicação partidária em torno de um único marqueteiro, que escala contratos públicos e privados em ritmo acelerado. Para o contribuinte e para o eleitor, a profissionalização tem um custo invisível — candidaturas com menos recurso ficam dependentes do mesmo pool restrito de agências.
Vale registrar: o fenômeno não é monopólio de nenhum campo ideológico. É sintoma de um modelo de comunicação política que recompensa quem tem escala, financiamento e acesso — e não quem tem ideia.
O que explica R$ 217,5 milhões em honorários advocatícios?
O item mais revelador do levantamento é a terceira posição dos escritórios de advocacia entre as maiores despesas dos presidenciáveis. No total, as campanhas no país já gastaram R$ 217,5 milhões com advogados, dos quais R$ 8,9 milhões vieram das candidaturas ao Planalto. A presença do jurídico entre os três maiores dispêndios indica que o litígio — judicial e extrajudicial — virou parte indissociável da engrenagem de campanha.
Para o leitor, a leitura prática é direta: boa parte do dinheiro arrecadado para fazer política é redirecionada para uma indústria de contencioso que tem pouco a ver com propostas ao eleitor. Quando R$ 4 milhões dos cofres da campanha de Lula vão apenas para serviços jurídicos — o maior valor entre os presidenciáveis —, fica evidente que parte relevante da energia eleitoral se concentra em blindagem patrimonial, gestão de risco e litígio estratégico, e não no confronto de ideias com o eleitor.
Por que isso importa
O quadro desenhado pelos números aponta para três consequências práticas que vão além do calendário eleitoral.
- Barreira de entrada: o custo de uma campanha presidencial competitiva exclui, na prática, candidatos sem máquina partidária e financimento privado robusto. A democracia brasileira opera, na essência, com uma espécie de primary fechada entre nomes previamente viabilizados por grandes partidos.
- Captura e concentração: o mercado de comunicação política é pequeno, opaco e concentrado. As mesmas agências e os mesmos profissionais transitam entre campanhas, partidos e governo — o que amplia o risco de uso privado de recursos públicos e de troca de favores entre os dois lados do balcão.
- Judicialização como estratégia: o peso dos honorários jurídicos mostra que parte significativa da energia de campanha vai para defesa contra adversários reais ou imaginários, e não para a disputa de ideias com o eleitor.
Para esta análise, o caminho não passa por mais regulação do financiamento — instrumento historicamente esgotado no Brasil e com resultados discutíveis. O que está em jogo é a relação entre quem financia, quem produz a comunicação política e quem governa. O caso Lula-Sidônio-Delta3 merece acompanhamento rigoroso do Ministério Público e da Justiça Eleitoral, não como arma de um lado contra o outro, mas como teste de integridade do sistema. O mesmo critério se aplica, simetricamente, a qualquer contrato de campanha que envolva atuais ou futuros ocupantes de cargos com poder sobre os contratantes.
O princípio liberal aqui é simples: transparência, separation entre caixa público e caixa privado, e regras claras de incompatibilidade. Sem isso, cada ciclo eleitoral ampliará o fosso entre o discurso democrático e a prática oligopolizada da política brasileira — com o contribuinte arcando, no fim, com um custo que não cabe no boleto.
Perguntas frequentes
Por que advogados aparecem como terceira maior despesa dos presidenciáveis?
Campanhas modernas envolvem não só produção de conteúdo, mas também litígio eleitoral, blindagem patrimonial, compliance com a legislação de financiamento e defesa contra adversários. Boa parte do trabalho jurídico é preventivo e raramente chega ao conhecimento do eleitor.
O que o vínculo entre Sidônio Palmeira e os donos da Delta3 tem de problemático?
Os donos da Delta3 são sócios, em outra empresa, do atual ministro da Secom. Isso significa que a mesma rede profissional assessora a campanha do presidente e ocupa cargo-chave da comunicação oficial do governo — uma proximidade que abre espaço para conflitos de interesse e dificulta a separação entre caixa de campanha e caixa público.
Os números divulgados são definitivos?
Não. As prestações de contas são parciais e atualizadas conforme as campanhas registram receitas e despesas. Os valores finais costumam crescer ao longo do ciclo, com picos no segundo turno e nas últimas semanas antes da votação.
O sistema atual de financiamento incentiva esse padrão de gasto?
O modelo brasileiro combina fundo partidário, fundo eleitoral e doações privadas com limites variáveis. O resultado é uma engenharia complexa que incentiva campanhas de alto custo, contratação de agências profissionalizadas e dependência dos mesmos operadores — exatamente o que os números atuais confirmam.
Existe saída institucional para reduzir essa concentração?
Há propostas em discussão: tetos mais rígidos a contratos com empresas que tenham vínculos com ocupantes de cargo, maior transparência sobre os donos efetivos das agências contratadas e regras mais duras de incompatibilidade. Nenhuma substitui, porém, o principal antídoto: vigilância da Justiça Eleitoral, do Ministério Público e da imprensa.
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