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Catar e China mediam EUA e Irã; Brasil precisa definir rumo

Catar e China articulam a retomada das negociações entre EUA e Irã. Brasil precisa de política externa coerente frente aos novos arranjos multilaterais.

Por Beatriz Andrade Lima · · 7 min de leitura

Catar e China mediam EUA e Irã; Brasil precisa definir rumo
Catar e China mediam EUA e Irã; Brasil precisa definir rumo

O Catar anunciou nesta terça-feira que trabalha, em parceria com a China e outros interlocutores regionais, para retomar as negociações entre Estados Unidos e Irã. Segundo o portal Terra.com.br, o esforço é conduzido pessoalmente pelo primeiro-ministro e chanceler catariano, xeque Mohammed bin Abdulrahman Al-Thani, que está em Pequim liderando uma delegação.

Para o Brasil, o movimento importa por três vias que se cruzam: o preço do petróleo, a arquitetura de segurança internacional e o lugar do país em fóruns multilaterais como o BRICS, do qual o Irã passou a fazer parte em 2024.

O contexto: por que EUA e Irã voltaram (e pararam) de conversar

As relações entre Washington e Teerã vivem em hostilidade estrutural desde a Revolução Islâmica de 1979 e o rompimento dos acordos bilaterais que mantinham. O capítulo mais recente da crise nuclear começa em 2015, quando foi assinado o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA) entre o Irã, EUA, China, Rússia, Reino Unido, França e Alemanha. O acordo limitava o programa nuclear iraniano em troca de alívio de sanções.

Os EUA se retiraram unilateralmente do entendimento em 2018, durante o primeiro mandato de Donald Trump, e reimplantaram um regime pesado de sanções, reforçado nos anos seguintes. Desde então, Teerã avançou seu programa nuclear para além dos limites originais do acordo, enriquecendo urânio a patamares próximos do uso militar — a AIEA já verificou estoque enriquecido a 60%, pouco abaixo do limiar de 90% considerado apto para uma arma.

É nesse quadro que qualquer tentativa de retomada negocial enfrenta o dilema clássico: Teerã quer alívio sancionatório; Washington quer garantias verificáveis de não-proliferação. O histórico mostra que ambos aceitam conversar quando a alternativa — confronto aberto — se torna politicamente custosa demais.

Os atores e o que cada um calcula

Catar. Pequeno em território e população, Doha exerce há décadas um papel diplomático desproporcional à sua dimensão. Foi sede de conversas entre EUA e Talibã antes da retirada americana do Afeganistão, mediou crises entre sunitas e xiitas e abriga a base de Al Udeid, maior instalação militar americana no Golfo Pérsico. Ser mensageiro dá prestígio e proteção: nenhum ator regional quer ver Doha hostilizada. China. Pequim tem interesse estratégico em se firmar como mediador alternativo aos EUA em crises globais — papel que ajudou a consolidar quando intermediou, em março de 2023, o acordo de reaproximação entre Arábia Saudita e Irã. A China é, hoje, o maior comprador de petróleo iraniano, em operações que frequentemente contornam o regime de sanções ocidental. Mediar dá a Pequim alavancagem diplomática e abre espaço para negócios. Irã. Teerã busca legitimidade internacional, alívio de sanções e redução do isolamento. A entrada no BRICS+, em 2024, ajudou nesse movimento, mas não substitui o fim das sanções americanas, que continuam sendo o fator mais decisivo para a economia iraniana — especialmente o escoamento de petróleo. Estados Unidos. O objetivo estrutural de Washington é o de sempre: impedir que Teerã obtenha arma nuclear e reduzir a influência regional do regime, sem se deixar enredar em mais uma guerra no Oriente Médio — custo político elevado após duas décadas de presença no Iraque e no Afeganistão.

O que está concretamente em jogo

  • Programa nuclear iraniano. O ponto é se Teerã aceita algum tipo de rollback em troca de alívio sancionatório, e em que condições.
  • Estabilidade do Golfo e do Mar Vermelho. Movimentos iranianos — diretos ou via grupos como houthis e Hezbollah — afetam o tráfego marítimo, do qual depende parte relevante do comércio global, incluindo exportações brasileiras.
  • Mercado de petróleo. Qualquer sinal de distensão tende a reduzir o prêmio de risco no Brent; o oposto o amplia. O barril acima de US$ 80 pesa no Brasil na conta externa e na inflação de combustíveis.
  • Ordem internacional. Uma negociação bem-sucedida, ainda que parcial, consolidaria Pequim como ator com peso real no Oriente Médio, o que altera o equilíbrio da competição sino-americana e abre precedentes para novos arranjos multilaterais.

Por que isso importa para o Brasil

A conexão brasileira com a crise EUA-Irã é menos visível do que a de outros países, mas existe e se dá em três frentes.

Primeiro, energia. O Irã é membro da OPEP+ e qualquer choque no Golfo afeta diretamente o preço do Brent. Como exportador líquido de petróleo, o Brasil se beneficia de preços firmes, mas sofre com a inflação de derivados e a pressão sobre o câmbio em crises mais agudas.

Segundo, geopolítica do BRICS. O Irã é membro do bloco desde 2024, e o Brasil já oscilou, em diferentes governos, entre uma postura crítica ao regime iraniano — alinhada às democracias ocidentais — e o pragmatismo comercial de gestões anteriores, que chegaram a receber embarcações militares iranianas em portos nacionais. Para uma análise de centro-direita, o ponto de chegada deveria ser claro: comércio e diálogo pragmático são admissíveis, mas sem abdicar da cobrança sobre violações de direitos humanos e sobre o patrocínio a grupos armados.

Terceiro, precedente diplomático. Se Catar e China efetivamente abrirem caminho para um novo acordo, o Brasil se verá diante da pergunta prática de qual posição adotar: distância, observação ou engajamento. A resposta não é trivial, porque condiciona o lugar do país em uma ordem internacional que se reconfigura fora das instituições ocidentais tradicionais.

A leitura d'A Bússola

Três pontos se impõem, e o segundo exige que se apresente o argumento contrário em sua versão mais forte antes de respondê-lo.

Sanções funcionam quando são focalizadas e mantidas. O regime de pressão econômica e diplomática sobre Teerã reduziu a capacidade iraniana de financiar aliados e limitou — sem eliminar — o avanço nuclear. Afroxá-las sem concessões verificáveis seria erro estratégico. Esse é o argumento padrão em Washington e em boa parte das chancelarias ocidentais.

O argumento contrário, em sua versão mais forte: há quem defenda que o próprio regime de sanções é parte do problema. Ao sufocar a economia iraniana, empurra Teerã para o enriquecimento avançado — por necessidade financeira e como moeda de negociação — e dá pretexto ao regime para endurecer-se internamente. Para essa leitura, mais diplomacia e menos isolamento produziriam resultados melhores, inclusive em direitos humanos. Trata-se de uma posição séria, defendida por pesquisadores, ex-diplomatas e por alas realistas dentro do próprio establishment americano. A resposta, porém, é que nenhum "engajamento construtivo" até hoje produziu o rollback nuclear desejado, e que o alívio sancionatório costuma ser absorvido primeiro pelo regime, não pela população.

A ascensão da China como mediador é fato, e não teoria. Disputá-la apenas com retórica é desperdício de energia. O que se deve cobrar é transparência: a China quer resolver a crise ou administrá-la para manter o Irã como cliente-dependente? As duas coisas não se excluem — e essa ambiguidade é justamente o que torna Pequim um ator eficaz nas mediações.

O Brasil precisa de política externa coerente, não reativa. O país tem oscilado entre alinhamento automático aos EUA em alguns governos e flirt com Teerã em outros — sempre em função do cálculo eleitoral doméstico. A pergunta que deveria orientar a política externa brasileira é menos "quem está no Planalto em Washington" e mais "qual é o interesse nacional de longo prazo": segurança energética, mercados para o agronegócio e para a mineração, e estabilidade nas rotas pelas quais nossas exportações transitam.

Perguntas frequentes

O que é o JCPOA?
É o Plano de Ação Conjunto Global, assinado em 2015 entre Irã, EUA, China, Rússia, Reino Unido, França e Alemanha, que limitava o programa nuclear iraniano em troca de alívio de sanções. Os EUA se retiraram do acordo em 2018.

Por que o Catar e não outro país é o mediador?
Pequeno e rico em gás, o Catar mantém relações pragmáticas com Teerã e Washington, abriga a maior base americana no Golfo e tem histórico de facilitar conversas difíceis, inclusive entre EUA e Talibã antes da retirada de 2021.

O que a China ganha ao participar?
Posiciona-se como ator diplomático global — papel que reforça sua disputa estratégica com os EUA — e protege interesses comerciais, já que é o maior comprador de petróleo iraniano fora do regime ocidental de sanções.

Isso pode afetar o preço da gasolina no Brasil?
Pode. Choques no Golfo historicamente elevam o Brent, pressionam câmbio e derivados. Distensões tendem a reduzir o prêmio de risco; escaladas, a ampliá-lo.

Qual a chance real de acordo?
Impossível cravar a partir de uma nota diplomática. O histórico mostra que conversas EUA-Irã se arrastam por anos e geralmente fracassam em estágios avançados. Mas o simples fato de Catar e China voltarem à mesa já reduz a probabilidade de escalada imediata.

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