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Copom frustra mercado com Selic em 13,75% e cortes lentos

Ata do Copom mantém Selic em 13,75% e adia alívio esperado. Juro alto evidencia ônus fiscal, encolhe diferencial com EUA e trava crédito, câmbio e crescimento.

Por Marina Cordovil · · 7 min de leitura

Copom frustra mercado com Selic em 13,75% e cortes lentos
Copom frustra mercado com Selic em 13,75% e cortes lentos

O dia em que o mercado releu o Copom — e não gostou do que viu

Não foi uma terça-feira de terremoto nos mercados. Foi, talvez, pior: um dia em que os investidores reembaralharam as expectativas e concluíram que o Banco Central sinalizou menos cortes de juros do que muitos esperavam. O Ibovespa recuou 0,45% e voltou para a casa dos 185 mil pontos, enquanto o dólar voltou a se aproximar de R$ 5,13, segundo o portal Abril.com.br. Em outras palavras, o alívio da véspera durou pouco.

Em uma leitura superficial, trata-se apenas de oscilação técnica. Em uma leitura de fundo, o movimento expõe três tensões estruturais da economia brasileira em 2026: a transmissão lenta dos juros altos, o encolhimento do diferencial de juros com os Estados Unidos e a dependência do humor geopolítico para definir o preço da energia. Merece ser entendido item por item.

O que disse, de fato, a ata do Copom

A ata divulgada nesta terça confirmou, em linhas gerais, o que o comunicado da semana passada já insinuava: o Comitê de Política Monetária avalia que a atividade está desacelerando e que a transmissão da Selic de 13,75% ao ano — nível ainda escandalosamente alto em qualquer comparação internacional — está, finalmente, chegando à economia real. Há, portanto, espaço para novos cortes.

Mas o BC também fez questão de reforçar que as próximas decisões dependerão da evolução dos dados e serão conduzidas com "cautela". A palavra não é gratuita. Para o mercado, "cautela" no jargão do BC costuma significar: não contem com uma sequência longa nem com um ritmo agressivo de afrouxamento monetário. O consultor Fábio Murad, da Wiser Asset, sintetizou a leitura ao projetar uma Selic de 13,50% ao fim de 2026 — pouco menos de um quarto de ponto percentual abaixo do patamar atual, distribuídos em quase dois anos.

É pouco. É pouco para uma economia que precisa crescer, pouco para o empreendedor que financia capital de giro, pouco para o consumidor endividado e pouquíssimo para quem toma crédito de longo prazo — imobiliário, industrial, agrícola. Mas é o que o BC considera prudente enquanto não houver, nas palavras do próprio Comitê, sinais mais sólidos de ancoragem fiscal.

Juros altos não caem do céu: o ônus fiscal cobra a sua conta

Do ponto de vista liberal, a grande questão por trás da ata não é técnica — é fiscal. Juros básicos altos são, quase sempre, o retrato de um governo que gasta mais do que arrecada e de uma dívida pública que pressiona o custo do dinheiro. O Banco Central tem cumprido o seu papel ao controlar a inflação, mas a sociedade brasileira paga esse ajuste com menor crescimento, menor investimento e menor geração de emprego.

Quando o BC insiste em "cautela", está sinalizando algo que qualquer analista atento já sabe: enquanto o equilíbrio entre receita e despesa não for restaurado de forma crível, a Selic precisará se manter em território contracionista. A conta, em última instância, é do contribuinte — que financia os juros da dívida pública com impostos e deixa de receber serviços públicos de qualidade.

A leitura crítica, aqui, não é contra a instituição Banco Central, que tem agido dentro do seu mandato. É contra o ambiente político que torna a taxa básica brasileira uma das mais altas do mundo desenvolvido e emergente. Política monetária não é vara de condão: sozinha, ela não sustenta crescimento. Falta, do lado fiscal, o ajuste que a opinião liberal cobra há anos — e que governos recentes, de diferentes matizes, têm adiado.

O diferencial com os EUA e a corrida por capital

Outro ponto sensível da ata é a comparação implícita com o Federal Reserve. Na semana passada, o Fed elevou sua taxa para o intervalo entre 3,75% e 4% ao ano — patamar que ainda é baixo, mas que está em trajetória oposta à brasileira. Isso significa que o diferencial de juros entre Brasil e EUA, que já foi o grande atrativo de capital para a renda fixa brasileira, está encolhendo.

Para o investidor estrangeiro, a equação ficou menos favorável: menos prêmio pelo risco Brasil, mais incentivo para realocar recursos em Treasuries norte-americanos. É parte da explicação para o comportamento do dólar nesta terça — não uma fuga de capital, mas uma recalibração. A moeda americana avançou 0,49%, devolvendo parte da queda da véspera, enquanto o índice DXY permaneceu estável, sinalizando que a pressão é doméstica, não global.

Para o leitor comum, isso tem uma consequência direta: a proteção cambial que a Selic elevada historicamente oferecia está ficando mais cara de manter. Quem ganha com isso é o especulador; quem perde é o exportador, o importador de insumos e, no fim da cadeia, o consumidor.

Petróleo abaixo de US$ 100: alívio com asterisco

O outro fator da sessão veio do front externo. O barril do Brent era negociado a US$ 98,39, depois de recuar mais de 3% na véspera — movimento atribuído a sinais de avanço nas negociações diplomáticas em torno do conflito no Oriente Médio. Para o Brasil, petróleo mais barato costuma ser boa notícia: alivia a conta de importações de derivados, reduz pressão sobre a inflação de transportes e melhora a balança comercial.

A ressalva é importante: estamos falando de uma commodity volátil, com preço influenciado por eventos geopolíticos que nenhum analista de mercado consegue prever. Um acordo de paz consistente e duradouro sustentaria o petróleo abaixo de US$ 100 por mais tempo; uma ruptura nas negociações, por outro lado, recolocaria a commodity acima de US$ 110 com facilidade. O alívio, portanto, é real, mas contingente.

Para o setor produtivo, a queda do petróleo combinada à desaceleração da atividade brasileira pode, paradoxalmente, oferecer um colchão de manobra para que o BC siga cortando a Selic com mais confiança nos próximos trimestres — desde que a inflação corrente permita.

Por que isso importa

  • Para o cidadão comum: Selic mais alta por mais tempo significa crédito mais caro, financiamento imobiliário menos acessível e custo de oportunidade maior para quem tenta poupar. O ajuste, quando vier, demorará a chegar na ponta.
  • Para o empreendedor: o custo do capital continua sendo o principal entrave ao investimento produtivo. A "cautela" do BC funciona como trava adicional ao planejamento de expansão.
  • Para o mercado financeiro: o estreitamento do diferencial de juros com os EUA exige que o Brasil compense com outra fonte de atratividade — e essa fonte, na ausência de reforma fiscal estrutural, é cada vez mais escassa.
  • Para o governo: a ata é um lembrete diplomático de que o Copom não fará o trabalho do Ministério da Fazenda. O ajuste fiscal é prerrogativa do Executivo e do Congresso — e a sua ausência tem preço, em juros, em câmbio e em crescimento.

Perguntas frequentes

1. O que é a ata do Copom e por que ela move o mercado?

É o documento divulgado uma semana após cada reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central. Nele, o BC detalha o raciocínio por trás da decisão sobre a Selic e indica o grau de abertura (ou de cautela) para os próximos passos. O mercado usa a ata para calibrar suas apostas em cortes ou elevações futuras da taxa básica.

2. Por que a queda do petróleo afeta a economia brasileira?

O Brasil é grande importador líquida de derivados de petróleo. Quando o barril cai, alivia-se a conta externa e a inflação de transportes e combustíveis, abrindo espaço para política monetária mais flexível. Quando sobe, o efeito é o oposto.

3. O que é o "diferencial de juros" com os Estados Unidos?

É a diferença entre a taxa básica brasileira (Selic) e a taxa básica norte-americana (Fed Funds). Quanto maior o diferencial, mais atrativo é aplicar em renda fixa no Brasil para o investidor estrangeiro. À medida que o diferencial encolhe, essa atratividade diminui e a tendência é de saída de capital ou de menor entrada.

4. Selic em 13,75% é normal?

Não. É um patamar excepcionalmente alto mesmo em comparação com economias emergentes. Reflete um ajuste necessário contra a inflação, mas também evidencia o peso da dívida pública e a fragilidade da credibilidade fiscal brasileira.

5. O que falta para o BC cortar os juros mais rápido?

Do lado da instituição, é preciso ver ancoragem firme das expectativas de inflação e desaceleração consistente dos preços de serviços e núcleos. Do lado do governo, é preciso comprometimento crível com o equilíbrio fiscal — sem ele, qualquer corte mais rápido do BC se arrisca a ser revertido.

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