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Corte no Rock in Rio expõe opacidade editorial da Globo

Corte de 40s do Canal BIS no Rock in Rio 2026 expõe quem controla o megaphone: edição editorial de emissora privada, censura ou falta de transparência?

Por Beatriz Andrade Lima · · 7 min de leitura

Corte no Rock in Rio expõe opacidade editorial da Globo
Corte no Rock in Rio expõe opacidade editorial da Globo

O corte de 40 segundos que abriu um debate sobre quem controla o megaphone

Segundo o portal Rollingstone.com.br, durante o show da banda Supercombo no Rock in Rio 2026, no sábado, 5 de setembro, o Canal BIS — canal de música do Grupo Globo — interrompeu a transmissão ao vivo no momento exato em que o vocalista Leo Ramos pediu que a "extrema-direita" fosse "varrida do país nas próximas eleições". Uma apresentadora atribuiu o corte a "problemas técnicos". Menos de quarenta segundos depois, o sinal voltou ao palco, já com o discurso encerrado. A banda, por meio da Central Supercombo, repudiou o episódio como "censura". O caso é pequeno em duração, mas grande no que revela sobre o funcionamento da mídia comercial no Brasil.

O que aconteceu, em sequência

O show transcorria normalmente quando, durante a música "Amianto", Leo Ramos dirigiu-se ao público com um apelo de cunho eleitoral. No mesmo instante, áudio e vídeo sumiram da transmissão. Quem assistia ao vivo pela TV viu a imagem ser substituída por uma apresentadora que justificou a queda com "problemas técnicos". Quando o show reapareceu no sinal, a fala já tinha acabado.

No dia seguinte, a Central Supercombo publicou nota em rede social repudiando o corte e invocando o lema "censura nunca mais", com emoji de bandeira vermelha — referência direta ao período da ditadura militar (1964-1985). A postagem teve repercussão relevante e transformou o episódio em mais um capítulo da polarização política brasileira.

Censura ou edição? A distinção que importa

O ponto central do debate está numa palavra: censura. No sentido jurídico estrito, censura é ato do Estado que impede previamente a divulgação de um conteúdo — e não é o que houve aqui. O Canal BIS é uma emissora privada; a decisão sobre o que transmite ou deixa de transmitir cabe à sua direção editorial, dentro da legislação e do contrato que rege a cobertura do festival.

Reconhecer isso não esgota a questão. Uma coisa é afirmar o direito de uma emissora privada editar a sua transmissão; outra, distinta, é a forma como a decisão foi comunicada ao público. Dizer "problemas técnicos" para justificar o que tudo indica ter sido um corte editorial é falta de transparência. O espectador merecia saber que se tratava de uma escolha de conteúdo — não de uma falha de sinal.

Para esta análise, o problema mais grave não é a decisão em si, mas o modo: a opacidade. Quando uma grande emissora substitui uma decisão editorial por um álibi técnico, erode a confiança do público no jornalismo e abre espaço para a narrativa de censura — politicamente conveniente para quem estava no palco.

Quem controla o megafone — e por que essa pergunta não é legítima só pela direita

O Rock in Rio reúne centenas de milhares de pessoas e a transmissão por TV leva o evento a milhões de residências. Quando um único conglomerado de mídia detém os direitos de exibição, ele se torna, na prática, o editor do que aquela imensa audiência vê e ouve.

Da perspectiva liberal que orienta esta análise, poder concentrado merece escrutínio, venha de onde vier — do Estado, do mercado, ou da combinação entre ambos. O Grupo Globo é o maior conglomerado de mídia do país e tem histórico de edições de transmissão com impacto político em momentos sensíveis (eleições, manifestações, coberturas de segurança pública). Isso não significa que cada decisão específica seja ideológica, mas significa que o poder de editar existe e é exercido.

O argumento mais forte a favor da decisão do Canal BIS é simples e consistente: emissora privada tem direito editorial. Se o canal entende que um discurso de cunho eleitoral não cabe na sua cobertura de festival, pode cortá-lo. O argumento contrário, também forte: o público que assiste à transmissão tem direito a ver o que de fato acontece no palco, e não uma versão editada justificada por álibi técnico.

Há ainda um terceiro ângulo, pouco comentado: o episódio foi televisionado, mas também foi registrado por celulares, câmeras independentes e redes sociais. O corte de 40 segundos não impediu que o discurso circulasse — provavelmente deu a ele alcance maior do que teria se fosse ao ar normalmente. O "escândalo" virou parte do sucesso viral do momento.

O contexto eleitoral e o rótulo "extrema-direita"

Estamos em 2026, ano de eleição presidencial no Brasil. Apelos diretos a derrotar adversários nas urnas são parte do repertório eleitoral e foram feitos, em outros formatos, por candidatos de todos os campos nos últimos ciclos. Em si, o conteúdo do discurso — conclamar a vitória eleitoral sobre um campo político — é expressão legítima em democracia e está protegido pela Constituição.

O que merece atenção é o rótulo. "Extrema-direita" é categoria contestada: aplicada por alguns a todo o campo bolsonarista, por outros apenas a correntes específicas. A imprecisão raramente é acidental — rótulos amplos servem para demonizar adversários e reduzir debates a categorias morais. Uma análise responsável distingue entre o bolsonarismo histórico, o liberalismo conservador, a direita democrática e correntes radicais que de fato não cabem no quadro democrático. Tratar tudo como "extrema-direita" empobrece o debate e dificulta a leitura do eleitorado.

Não cabe a este texto dizer se Leo Ramos tinha razão ou não no mérito. Cabe registrar que o palco de um festival privado, bancado por patrocinadores, é um espaço cada vez mais capturado pela política — e que isso não é privilégio de um lado só.

Por que isso importa

Para o eleitor, o episódio funciona como lembrete prático: tudo o que chega pela TV passa por uma curadoria. Não existe "ao vivo puro" em transmissões comerciais, e tratar a tela como se fosse uma janela transparente é um erro de leitura.

Para o debate sobre liberdade de expressão, o caso ilustra que a defesa da liberdade é mais consistente quando se aplica a todos os atores — inclusive a quem edita transmissões e a quem faz apelos eleitorais em shows. Criticar o corte sem reconhecer o direito editorial da emissora é defender uma liberdade seletiva, que serve mais à conveniência do momento do que a um princípio.

Para o debate sobre concentração de mídia, fica um lembrete: enquanto a discussão sobre o marco regulatório das concessões permanecer congelada, decisões editoriais individuais seguirão tendo peso desproporcional sobre o debate público. Critérios de transparência sobre o que vai ao ar em transmissões ao vivo de grandes eventos são tema legítimo e ainda pouco regulado.

Para a banda, finalmente, há uma lição de gestão reputacional: grupos que levam mensagens políticas a palcos de grande audiência assumem, deliberadamente, o risco de ter o conteúdo editado, amplificado ou distorcido. O cálculo, neste caso, parece ter sido favorável ao objetivo declarado.

Perguntas frequentes

Foi censura?
No sentido jurídico, não. Censura é ato do Estado que impede previamente a divulgação de um conteúdo. O que houve foi decisão editorial de uma emissora privada durante a transmissão ao vivo de evento cujos direitos ela detém. A opacidade da justificativa ("problemas técnicos") é problema distinto, de transparência.

O Canal BIS tinha obrigação legal de transmitir o show inteiro?
Não há base legal que obrigue emissora privada a transmitir, sem edição, o conteúdo de eventos cujos direitos de exibição detém. O contrato com o festival é o que define as condições da cobertura, e a direção editorial tem discricionariedade sobre o que vai ao ar.

O discurso de Leo Ramos era ilegal?
Conclamar adversários políticos a serem derrotados nas urnas é expressão protegida pela Constituição. O conteúdo, em si, não configura crime nem ilícito eleitoral.

Por que a nota da banda comparou o episódio à ditadura?
A referência a "censura nunca mais" e à bandeira vermelha é recurso retórico que busca dar peso moral à reclamação. Comparar decisão editorial de emissora privada à censura estatal do regime militar (1964-1985) é, do ponto de vista analítico, desproporcional — mas é politicamente eficaz para mobilizar apoio nas redes.

Quem fiscaliza esse tipo de decisão?
Não há, no Brasil, órgão regulador independente com competência para determinar que emissora privada transmita conteúdo específico. O espaço de contestação é o mercado (audiência, anunciantes, concorrentes), o Poder Judiciário em casos específicos e a pressão pública — que, neste episódio, funcionou como amplificador involuntário do discurso cortado.

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