O crescimento chegou ao limite do modelo
A economia brasileira vive um paradoxo que combina expansão no presente com fragilidade estrutural. Entre 2021 e 2025, o PIB cresceu puxado majoritariamente pelo consumo das famílias — cerca de 70% da expansão — enquanto o investimento respondeu por apenas 10%, segundo dados comentados em análise publicada pelo portal Abril.com.br. É o retrato de um modelo que acelera pelo pedal do gasto, não pelo motor da produtividade. E, como aponta o texto de referência, esse motor está perto de fundir.
O diagnóstico não é novo, mas ganha gravidade à medida que os indicadores se acumulam. A pergunta que se coloca agora é menos sobre se o ciclo desacelera e mais sobre quem paga a conta quando a reversão chegar.
Três números que definem o crescimento recente
A decomposição do crescimento no período 2021–2025, conforme os números apresentados pela análise de referência, expõe uma estrutura frágil:
- Consumo das famílias: cerca de 70% da expansão do PIB.
- Consumo do governo: aproximadamente 20%.
- Investimento (Formação Bruta de Capital Fixo): os 10% restantes.
Economias que sustentam crescimento de longo prazo se apoiam em investimento e ganho de produtividade — não na repetição do circuito renda-gasto-renda. Quando o investimento responde por apenas um décimo da expansão, significa que o país está, na prática, consumindo hoje o que não está produzindo para o amanhã. É o oposto do que costuma ocorrer em ciclos virtuosos, como os vividos por Coreia do Sul ou, em menor escala, por economias europeias no pós-guerra.
Produtividade: o convidado que não compareceu
O primeiro vetor de preocupação levantado pela análise é estrutural: a expansão vem sendo obtida pelo uso cada vez mais intenso dos recursos disponíveis, sem elevação da produtividade por hora trabalhada.
O mercado de trabalho conta parte dessa história. Com o desemprego em patamares historicamente baixos e a mão de obra ociosa praticamente esgotada, não há mais reservas fáceis para incorporar. O crescimento adicional, daqui em diante, depende de cada trabalhador produzir mais por hora. É a produtividade — que deveria ser o eixo central de qualquer estratégia de desenvolvimento e que, no entanto, está ausente do festim há tempos.
A consequência prática é direta: continuar crescendo no mesmo ritmo exigirá mais inflação, mais endividamento ou ambos. Não sobra folga no sistema para acomodar expansão sem reformas microeconômicas em educação, infraestrutura, ambiente de negócios e abertura comercial.
O segundo vetor: o gasto público como combustível
Se a produtividade é o motor que falta, o gasto público foi o acelerador usado para manter o carro em movimento. E aqui entra o segundo vetor de preocupação: as forças que impulsionaram o consumo foram, primordialmente, decisões do Executivo federal.
Os números fiscais do período são eloquentes. Entre 2022 e os doze meses encerrados em junho de 2026, a arrecadação do Tesouro Nacional — líquida de transferências a estados e municípios — cresceu R$ 280 bilhões, em valores a preços de junho de 2026. No mesmo intervalo, porém, as despesas cresceram R$ 485 bilhões. A diferença entre receita adicional e despesa adicional, pouco mais de R$ 200 bilhões, deteriorou o resultado primário do governo federal.
Desses R$ 485 bilhões a mais em despesa, R$ 270 bilhões se referem a transferências diretas a famílias: previdência, Benefício de Prestação Continuada (BPC), Bolsa Família, abono salarial e seguro-desemprego. O restante se distribui por outras rubricas do Orçamento.
Nada disso significa deslegitimar, em abstrato, a função redistributiva do Estado. A versão mais forte do argumento favorável às transferências é legítima: programas como o Bolsa Família reduzem pobreza extrema, têm efeito mensurável sobre desnutrição infantil e sobre frequência escolar, e cumprem papel que o mercado, sozinho, não cumpre. O ponto analítico, contudo, é outro: quando a expansão do consumo privado depende de transferência crescente financiada por endividamento, o ciclo não é virtuoso — é movido a crédito. E crédito tem prazo de validade.
A conta que começa a chegar
O descompasso entre receita e despesa produziu dois efeitos imediatamente visíveis.
Primeiro: a dívida pública bruta saltou de 72% para 82% do PIB no intervalo analisado, um aumento de dez pontos percentuais em poucos anos. Trata-se de movimento relevante para uma economia que, até poucos anos atrás, lutava para manter a dívida abaixo de 60% do PIB.
Segundo: a elevação do endividamento pressionou as taxas de juros. Juros mais altos encarecem o crédito, reduzem o investimento produtivo e ameaçam justamente o componente mais frágil da composição do crescimento — os 10% de FBCF que ainda existem.
Há, ainda, um efeito de segunda ordem: parte da renda transferida às famílias retorna ao consumo financiada, em última instância, pela mesma dívida que o Tesouro emite para custear os programas. O circuito se fecha, mas com um custo fiscal crescente que se transmite, devagar, para a taxa Selic, para o spread bancário e para o custo do crédito imobiliário e empresarial.
Configuração insustentável em três frentes
O arranjo atual não é sustentável simultaneamente em três dimensões:
- Produtividade: sem ganho de produto por hora, qualquer expansão adicional pressiona inflação ou exige novas transferências para preservar o nível de consumo.
- Fiscal: com despesa crescendo mais rápido que receita, cada ponto de PIB é financiado por emissão de dívida — e o mercado cobra, em juros e em risco soberano.
- Crédito: famílias e empresas convivem com taxa de juros estruturalmente mais alta, o que sufoca o investimento justamente onde o país mais precisa.
O quadro é reconhecível na literatura econômica como crescimento puxado pela demanda de curto prazo, sem lastro na oferta futura. É o tipo de expansão que entrega números de PIB no presente e compromete o crescimento do PIB seguinte.
Por que isso importa agora
Para o Executivo: o espaço para novos pacotes de transferência sem reforma estrutural se reduz a cada demonstração fiscal. A próxima desaceleração — que historicamente chega, cedo ou tarde — chegará com menos munição contracíclica do que o governo gostaria de ter.
Para o Congresso: a votação de medidas que mexem na despesa obrigatória (reforma da previdência, regras do BPC, programas sociais) deixa de ser pauta apenas ideológica e passa a ser pauta de solvência. Parlamentares acostumados a entregar benefícios via orçamento precisam internalizar que cada novo programa permanente é uma despesa criada sem fonte permanente correspondente.
Para o contribuinte e o investidor: a mensagem é que o custo do modelo está migrando lentamente para o bolso — via inflação, via juros mais altos, via carga tributária crescente, ou via combinação dos três. A escolha de como pagar é menos política do que parece: é aritmética.
Para o debate público: a discussão precisa sair da polarização entre "gastar mais" e "gastar menos" e entrar no mérito de quais gastos produzem produtividade — educação básica, infraestrutura, pesquisa, segurança jurídica — e quais apenas mantêm o consumo no curto prazo.
Perguntas frequentes
O crescimento brasileiro está desacelerando agora? Os dados disponíveis não apontam desaceleração no curtíssimo prazo, mas a sustentabilidade do ritmo atual é o que está em xeque, segundo a análise da Abril. O motor do crescimento é o mesmo desde 2021 — e está perdendo folga gradualmente.
O investimento responde mesmo por apenas 10% do crescimento? Segundo o texto de referência, sim, na média do período 2021–2025. Em anos específicos a FBCF pode ter performado melhor ou pior, mas a ordem de grandeza agregada é essa.
Transferências sociais são ruins para a economia? Não necessariamente. Programas como o Bolsa Família têm impacto positivo sobre pobreza e indicadores sociais. O ponto em discussão é o financiamento: quando dependem de endividamento crescente, comprometem a capacidade do Estado de mantê-los no futuro e pressionam juros para toda a economia.
De quem é a responsabilidade pelo cenário fiscal descrito? A análise atribui a expansão do consumo a "iniciativas do governo" no período coberto. A responsabilidade, no arranjo institucional brasileiro, é compartilhada entre Executivo e Legislativo: o primeiro propõe e executa, o segundo aprova o Orçamento e os créditos extraordinários.
O que poderia reverter o quadro? Reformas microeconômicas que elevem produtividade — educação, infraestrutura, segurança jurídica, abertura comercial — combinadas com disciplina fiscal duradoura e regra de gasto crível. Não há atalho conhecido para crescimento sustentado que dispense esses ingredientes.
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