Curva longa e disputa eleitoral: o mercado precifica indefinição
As taxas dos DIs de longo prazo subiram na segunda-feira num cenário que combina três ingredientes que o mercado costuma tratar com desconfiança: indefinição eleitoral apertada, alta do petróleo e aversão a risco no exterior. Para uma economia que carrega uma das curvas de juros mais inclinadas do mundo emergente, esse arranjo não é neutro — ele se traduz em prêmio de risco maior para o setor produtivo, em custo de capital mais alto e em mais pressão sobre o orçamento público. Em outras palavras, o que está em jogo não é apenas o placar da próxima eleição: é o quanto o Brasil vai pagar — em juros, em câmbio e em crescimento — pela incerteza entre os dois cenários.
O que dizem os números
Segundo o portal Terra.com.br, no fim da tarde de segunda-feira a taxa do DI para janeiro de 2028 estava em 13,615% (queda de 1 ponto-base) e a do DI para janeiro de 2035 estava em 14,25% (alta de 7 pontos-base, saindo de 14,179%). A ponta longa da curva foi a que absorveu o ajuste — sinal clássico de mercado reprecificando risco de prazo mais longo, justamente o que depende mais das expectativas sobre o próximo governo do que sobre a conjuntura imediata.
As duas pesquisas
Dois levantamentos recentes, citados pela reportagem, mostram o segundo turno tecnicamente empatado:
- Datafolha (sexta-feira): Lula 46% x Flávio Bolsonaro 44%, com margem de erro de 2 pontos percentuais.
- BTG/Nexus (segunda-feira): Lula 47% x Flávio 46%, com a mesma margem. Neste caso, Lula recuperou a dianteira numérica que pertencia a Flávio no levantamento anterior.
A oscilação de um ponto percentual entre os dois levantamentos não altera o quadro geral: estamos num cenário de empate técnico, no qual a diferença entre os candidatos é menor do que a margem de erro. Para o mercado, isso significa que ambos os resultados seguem vivos — e ambos exigem precificação.
O que o mercado está, de fato, precificando
Risco eleitoral e risco fiscal andam juntos
É tentador atribuir toda a alta da ponta longa à geopolítica. Parte do movimento realmente vem de fora — a continuidade do conflito entre Estados Unidos e Irã pressionou o petróleo Brent para perto de US$ 110 o barril, e o cenário de risk-off global costuma gerar busca por títulos americanos e fuga de emergentes. Mas a forma específica do ajuste brasileiro conta outra história: foi a ponta longa que subiu, e foi justamente num dia em que entraram duas pesquisas com cenário de segundo turno apertado.
Não é coincidência. A curva de juros é, antes de tudo, uma curva de expectativas sobre o regime fiscal que vigorará nos próximos anos. Investidores que aplicam em janeiro de 2035 estão, na prática, apostando em qual será a política econômica do próximo mandato e do seguinte. A definição de quem governa e com qual base parlamentar é, portanto, informação de preço.
O que cada cenário carrega
Aqui, a separação entre fato e avaliação precisa ser explícita:
- Fato apurado: o atual governo federal aprovou e executou, nos últimos três anos, um quadro fiscal expansionista, com arcabouço que preserva gastos primários elevados, resultado nominal deteriorado e dívida pública bruta em patamar historicamente alto; o Congresso tem acomodado manobras para ampliar receitas e despesas.
- Avaliação editorial: para esta análise, esse histórico é o que justifica o prêmio de risco de prazo mais longo num cenário de continuidade administrativa. Não se trata de desqualificar o adversário, mas de reconhecer que mercados precificam trajetória, não promessas.
Já um governo identificado com o campo liberal-conservador tende, na leitura majoritária do mercado, a sinalizar continuidade do marco fiscal atual, com menos espaço para novas frentes de gasto e previsibilidade regulatória maior. Essa leitura não é unanimidade — há analistas que discordam —, mas é a que se observa nos preços ao longo do ciclo 2022-2025.
O argumento mais forte em contrário — e por que ele não convence
O contraponto precisa ser apresentado em sua versão mais forte antes de ser respondido. Os defensores do campo governista podem argumentar, com legitimidade, que:
- O cenário global — petróleo, juros longos americanos, tensão geopolítica — é o verdadeiro motor do ajuste, e atribuir a alta à pesquisa eleitoral é overinterpretar ruído de um dia.
- Políticas de transferência de renda e investimento público não são, por si, incompatíveis com disciplina fiscal — dependem de como são financiadas e do efeito multiplicador.
- Flávio Bolsonaro, como herdeiro político, não traz consigo garantias automáticas de agenda econômica, e a associação entre PL e ortodoxia fiscal é, por vezes, mais wishful thinking do que política concreta.
A resposta é direta: os três pontos podem ser verdadeiros e, ainda assim, não contradizer o diagnóstico de mercado. Primeiro, porque o componente eleitoral não precisa ser o único motor para ser relevante — basta ser parte do prêmio exigido. Segundo, porque o histórico recente permite, com folga, inferências sobre o próximo mandato. Terceiro, porque o PL carrega, mesmo com imperfeições, a herança política de uma gestão que entregou reformas estruturais (teto de gastos original, marco do saneamento, privatizações) e que nomeou, em dois mandatos, uma equipe econômica com credencial liberal — e mercados precificam instituições e repertório, não apenas promessas pessoais.
Por que isso importa
Para o leitor que não opera na mesa de juros, a tradução prática é direta:
- Crédito mais caro: taxas longas em alta significam financiamentos imobiliários, do agronegócio e de infraestrutura mais caros, com efeito direto sobre custo de produção e aluguel.
- Pressão sobre o orçamento público: cada ponto percentual a mais na curva é mais despesa com juros, menos espaço para investimento e mais tentação para soluções criativas — geralmente tributárias — no Congresso.
- Câmbio mais volátil: prêmio de risco maior tende a se refletir em dólar mais alto em momentos de estresse, com impacto direto sobre combustível, importados e inflação.
- Planejamento privado travado: empresas adiam projetos de investimento quando o custo de capital de longo prazo oscila em função de cenário eleitoral — efeito que costuma aparecer alguns meses depois no PIB.
A curva de juros não está precificando apenas quem ganha a eleição. Está precificando o que cada mandato fará com o tamanho do Estado e com o bolso do contribuinte. É legítimo que cada lado do debate tenha opinião sobre qual cenário é melhor. O que não é legítimo é fingir que essa conta não existe.
Perguntas frequentes
As taxas longas subiram por causa da pesquisa ou do petróleo?
Provavelmente por ambos. O petróleo explica parte da aversão global, e a pesquisa apertada explica a assimetria do ajuste — que ficou concentrado na ponta longa, justamente a mais sensível ao regime fiscal do próximo governo.
Empate técnico significa que não dá para saber quem ganha?
Significa exatamente isso dentro da margem de erro. A diferença numérica de um ou dois pontos não tem significância estatística, e por isso o mercado trata os dois cenários como plausíveis.
O que o mercado prefere entre Lula e Flávio?
De acordo com o comportamento recente da curva e do câmbio — e ressalvadas exceções pontuais —, a leitura majoritária é de menor prêmio de risco sob continuidade do campo liberal-conservador e maior prêmio sob retorno do campo identificado com expansão fiscal. Isso não é juízo moral, é preço de ativo.
A alta do petróleo ajuda ou atrapalha o Brasil?
Depende do horizonte. No curto prazo, pressiona inflação e câmbio. No médio, beneficia a Petrobras e a arrecadação, mas também eleva o custo de importação de fertilizantes e combustíveis finais.
Quanto da alta de hoje reflete genuinamente risco novo?
É cedo para cravar. Movimentos diários em curva longa embutem ruído, e a magnitude final só fica clara olhando a janela de duas a três semanas. O fato relevante é a direção, não o número isolado.
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