A pesquisa Datafolha sobre o segundo turno presidencial aponta uma vantagem de Flávio Bolsonaro entre eleitores que haviam escolhido candidatos derrotados, mas não transforma esse grupo em bloco político homogêneo nem antecipa o resultado das urnas. Segundo o portal InfoMoney, 46% desses eleitores dizem migrar para o senador do PL, ante 32% para Lula, do PT; no eleitorado geral, Flávio aparece com 49% das intenções de voto, contra 45% do presidente.
O dado importa porque revela como parte do eleitorado fora das duas candidaturas principais está se posicionando numa disputa apertada. Mas também exige cautela: a pesquisa registra intenções declaradas, não votos efetivamente depositados, e o texto de referência não informa margem de erro nem tamanho da amostra para avaliar a precisão dessas diferenças.
O que a pesquisa mediu — e o que não mediu
O levantamento perguntou a eleitores de Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) em quem pretendem votar no segundo turno. Entre eles, 46% indicaram Flávio Bolsonaro e 32%, Lula. Outros 15% disseram que votarão em branco ou anularão o voto; os demais não souberam responder ou não declararam preferência.
Essa transferência ajuda a dimensionar a disputa por votos que não foram originalmente destinados a nenhum dos dois finalistas. Não significa, porém, que os eleitores desses quatro candidatos compartilhem uma mesma identidade ou um programa político. Eles escolheram nomes diferentes, de partidos diferentes, e podem ter motivações distintas para decidir o voto ou se afastar da disputa.
Há também uma diferença importante entre esse recorte e o resultado geral da pesquisa. No conjunto dos entrevistados, Flávio tem 49% das intenções de voto e Lula, 45%; brancos e nulos somam 5%, e 1% não declarou preferência. Na conta de votos válidos — que exclui brancos e nulos e é usada para definir o vencedor — o senador aparece com 52%, ante 48% do petista. São medidas diferentes, que não devem ser somadas nem confundidas com a migração dos eleitores de outros candidatos.
Uma disputa por alianças, mas sem transferência automática
No segundo turno, a eleição se concentra em dois candidatos, mas a disputa política não se limita a convencer quem já votou neles. Os finalistas precisam atrair eleitores de candidaturas eliminadas, manter os próprios apoiadores e reduzir a abstenção e o voto em branco ou nulo. Os 15% do grupo que declaram essa última opção são, portanto, parte relevante do quadro: não representam apoio a qualquer dos finalistas, mas tampouco devem ser tratados como votos já disponíveis a um deles.
A vantagem de Flávio nesse segmento oferece um sinal favorável à sua campanha. É compatível com a hipótese de que uma parcela expressiva de eleitores que buscou alternativas no primeiro turno esteja disposta a escolher o candidato do PL no segundo. Para uma candidatura que precisa ampliar sua base além do voto já consolidado, esse movimento pode ser politicamente importante.
O argumento mais forte em favor de Lula, por sua vez, é que a migração dos eleitores de candidaturas derrotadas não decide sozinha a eleição. O presidente ainda aparece com 45% no total, e a diferença para Flávio é de quatro pontos percentuais na intenção de voto. Além disso, o grupo analisado não representa necessariamente todos os eleitores ainda indecisos, nem permite concluir que a intenção declarada permanecerá estável até a votação.
O próprio levantamento indica que 94% dos eleitores dizem já ter definido o voto para o segundo turno. Isso sugere um eleitorado majoritariamente decidido, mas não elimina a importância dos que ainda podem mudar de posição, dos que não declaram preferência e dos que podem deixar de comparecer. Sem os dados metodológicos completos no texto de referência, não é possível afirmar se a diferença observada é estatisticamente significativa.
O que significa o resultado repetido?
Segundo a informação reproduzida pelo InfoMoney, o padrão de transferência se repete em relação à pesquisa da semana anterior, divulgada antes de Lula terminar o primeiro turno em segundo lugar. A repetição pode indicar que, nesse recorte, as intenções declaradas não mudaram de forma evidente entre os levantamentos citados. Não prova, por si só, que a campanha de um dos candidatos tenha consolidado uma vantagem permanente.
A posição de Lula no primeiro turno também faz parte do contexto político, mas não deve ser confundida com a votação do segundo. A disputa agora é outra: os eleitores precisam escolher entre os dois nomes que avançaram, e as campanhas têm de apresentar razões para essa escolha. A pesquisa é um retrato dessa etapa, não uma explicação completa dos motivos de cada eleitor nem uma previsão infalível do resultado.
Por que isso importa
O efeito mais direto é eleitoral: a pesquisa indica que Flávio tem, neste momento, maior capacidade declarada de atrair os apoiadores dos quatro candidatos derrotados. Se esse padrão se mantiver e se refletir nas urnas, poderá ampliar sua base para além dos eleitores que já o escolheriam no primeiro turno. Mas a diferença no eleitorado geral continua limitada a quatro pontos, e os números disponíveis não autorizam tratar a disputa como encerrada.
Há também um efeito sobre a construção de uma eventual agenda de governo. Quem vencer precisará governar com uma base eleitoral que não corresponde automaticamente a uma coalizão legislativa. A eleição presidencial escolhe o chefe do Executivo; a composição e as decisões do Congresso dependem de seus próprios representantes e negociações. Por isso, a capacidade de reunir votos no segundo turno não garante, por si só, apoio parlamentar para aprovar medidas.
Para o eleitor, a consequência prática é avaliar propostas e resultados, não apenas sinais de transferência de voto. Em temas como gasto público, impostos, segurança jurídica e liberdade econômica, uma pesquisa não substitui a comparação entre compromissos concretos. O dado sobre a migração mostra a direção declarada de parte do eleitorado; não informa, sozinho, quais políticas esses eleitores esperam nem se os candidatos pretendem adotá-las.
Para o mercado e para a economia, a leitura também deve ser proporcional. A pesquisa pode influenciar expectativas sobre a disputa, mas o texto não traz propostas econômicas detalhadas nem permite atribuir mudanças de preços ou decisões de investimento a esses números. A avaliação de cada candidatura depende de programas, equipe, capacidade de execução e responsabilidade fiscal — elementos que não são medidos por uma pergunta sobre intenção de voto.
Perguntas frequentes
O que o Datafolha chama de eleitores da “terceira via” neste levantamento?
O recorte reúne eleitores de Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, candidatos derrotados no primeiro turno. A expressão não significa que esse grupo seja politicamente uniforme.
Qual é a diferença entre 46% e 32% e o resultado geral?
Os primeiros percentuais se referem apenas aos eleitores dos quatro candidatos citados. Já os 49% de Flávio e 45% de Lula correspondem às intenções de voto no conjunto do eleitorado.
Flávio já está matematicamente à frente?
Não. A pesquisa aponta uma vantagem nas intenções declaradas, mas não determina o resultado da eleição. O texto de referência também não apresenta margem de erro, informação necessária para avaliar a precisão da diferença.
O que são votos válidos?
São os votos atribuídos aos candidatos, excluídos os votos brancos e nulos. No levantamento citado, Flávio aparece com 52% dos válidos e Lula com 48%.
Gostou desta análise? Compartilhe com quem quer entender a política brasileira além da manchete e assine a newsletter d'A Bússola Nacional.



