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Debate presidencial 2026: Caiado e Zema sem Lula nem Flávio

Debate VEJA e VOTE marca estreia presidencial de 2026: Caiado e Zema constroem aliança, miram o STF e impõem segurança pública como eixo do centro-direita.

Por Beatriz Andrade Lima · · 7 min de leitura

Debate presidencial 2026: Caiado e Zema sem Lula nem Flávio
Debate presidencial 2026: Caiado e Zema sem Lula nem Flávio
>O primeiro debate entre presidenciáveis da corrida de 2026 realizado na Usina Abril, em São Paulo, na quarta-feira (23), teve ares de reunião de sócios. Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) ocuparam o palco do programa VEJA e VOTE sem trocar um ataque pessoal sequer, chegaram a elogiar mutuamente as gestões em Goiás e Minas Gerais, e reservaram o fogo crítico para os adversários ausentes — Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Renan Santos (Missão) — e para o Supremo Tribunal Federal. Foi, ao mesmo tempo, um exercício de cooptação preventiva e um termômetro do estado de espírito do eleitorado de centro-direita, cansado da polarização Lula-versus-Bolsonaro.

O que estava em jogo

Segundo o portal Abril.com.br, o convite seguiu os critérios da Justiça Eleitoral, com os seis candidatos melhor posicionados nas pesquisas. Dos seis, apenas dois efetivamente compareceram. Augusto Cury (Avante) cancelou em razão da morte do conselheiro Bruno Avelar em acidente de helicóptero. Lula, Flávio e Renan simplesmente recusaram.

A ausência dos três principais rivais — Lula à esquerda, Flávio à direita bolsonarista — transformou o debate num palco quase exclusivo para duas gestões estaduais que se anunciam como o "centro firme" da próxima disputa presidencial. Para o eleitorado que rejeita tanto o petismo quanto o bolsonarismo, esse é o espaço político mais disputável do momento, e Caiado e Zema sabem disso.

A ausência que vale mais que presença

Há uma leitura estratégica por trás das recusas. Quem declina de um debate com regras claras, chanceladas pela Justiça Eleitoral, transfere ao adversário o ônus da agenda: as câmeras, o tempo de fala e a definição do que é pauta legítima ficam com quem comparece. Lula, com a máquina do PT e o controle do Palácio do Planalto, pouco precisa desse tipo de arena. Flávio Bolsonaro, em ascensão nas pesquisas pelo sobrenome do pai, tem mais a perder do que a ganhar ao ser confrontado por dois governadores com aprovação consolidada e contas para mostrar. O cálculo de cada ausência é distinto, mas o efeito é o mesmo: a discussão pública sobre o futuro do país ficou, por uma noite, nas mãos de quem quis debatê-lo.

Por que o tom amistoso não é coincidência

Em política, gentileza entre adversários não é gratuita: é cálculo. Caiado disputa o eleitor conservador, mas governa numa frente ampla que inclui o PSD de Gilberto Kassab e várias siglas do chamado centrão fisiológico. Zema representa o liberalismo clássico do Novo, com discurso fiscal austero e antipopulista. Os dois se enxergam, portanto, como complementares — não como rivais primários.

Quando elogiam as gestões um do outro, enviam uma mensagem ao mercado financeiro, ao eleitorado do Sudeste e aos setores produtivos: quem ocupar a vice ou a segunda vaga no segundo turno será um aliado, não um adversário. É a engenharia política de uma aliança construída em tempo real, com público assistindo.

Segurança pública: o campo onde o centro-direita tem lastro

Foi em segurança pública que o debate ganhou densidade programática. As propostas, contudo, merecem análise além da superfície.

O que foi proposto

  • Força policial sul-americana integrada (Caiado) — espécie de Interpol regional, focada em crime transnacional.
  • Vigilância com IA para rastrear suspeitos de enriquecimento ilícito (Caiado) — uso de inteligência artificial em sistemas de controle patrimonial.
  • Endurecimento penal para roubo de celular (Zema) — resposta direta à principal queixa de quem vive nas grandes cidades.
  • Modelo prisional nos moldes de El Salvador (Zema) — referência à gestão de Nayib Bukele, com megapenitenciárias e penas longas para integrantes de facções.
  • Classificação de facções criminosas como organizações terroristas (ambos) — convergência rara em pontos programáticos.
  • Parcerias com os Estados Unidos (ambos) — reaproximação com agências como FBI e DEA.

O argumento mais forte contra — apresentado em sua melhor forma

Antes de saudar qualquer proposta, é preciso registrar os pontos de tensão, porque ignorá-los seria desonestidade intelectual.

O ceticismo técnico é razoável: uma força policial sul-americana esbarra na inexistência de integração jurídica entre os países do continente e na soberania de cada Estado. O uso de IA para rastrear enriquecimento ilícito carrega risco elevado de abuso sem controle judicial efetivo. O modelo salvadorenho reduziu homicídios de cerca de 50 para menos de 10 por 100 mil habitantes em poucos anos, mas a custo de denúncias consistentes de violação de devido processo e de condições carcerárias que nenhuma democracia madura aceitaria como referência. A classificação de facções como "terroristas" tem efeito mais simbólico do que operacional, pois a Lei 13.260/2016 já prevê tipificação análoga.

A leitura desta análise

Feitas essas ressalvas — que precisam ser ditas para que o texto tenha credibilidade —, o eixo comum das propostas está no lugar certo. O Brasil perdeu capacidade estatal de proteger o cidadão comum nas últimas décadas. O custo político de enfrentar o crime organizado é alto e poucos governos se dispõem a pagá-lo. Quem chega a 2026 propondo mais do mesmo em segurança perde a discussão antes de começar.

A questão operacional é outra: quanto custa, quem controla e quem fiscaliza. Uma força integrada exige tratado internacional, orçamento estável e cadeia de comando clara. IA de vigilância exige marco regulatório próprio e controle do Ministério Público. Modelo Bukele exige construção massiva de presídios e gestão prisional profissionalizada, não apenas vontade política. Propostas assim só se tornam programa sério de governo quando vêm acompanhadas de estimativa de custo, cronograma e mecanismo de controle. Os dois candidatos ainda devem isso ao eleitor.

STF na mira: o conteúdo institucional do debate

Boa parte do tempo foi dedicada a críticas ao Supremo Tribunal Federal. Caiado e Zema associaram Flávio Bolsonaro a "escândalos de corrupção na Corte" e, mais amplamente, cobraram da Suprema Corte uma postura mais contida em relação aos demais Poderes.

Esta análise considera legítima e necessária a cobrança. Um tribunal que decide sobre quase tudo — de execução penal a regimes de urgência sanitária, de regras eleitorais a demarcações — tende a se tornar, na prática, legislador positivo e Executivo de si mesmo. A autorrestrição é princípio caro em qualquer democracia que se pretenda respeitar o voto.

Mas a crítica precisa manter o foco institucional. O problema do STF, quando há problema, não está nas pessoas — está no desenho que confere a onze ministros poder quase ilimitado sobre a vida dos outros Poderes. Mudar a composição sem mudar a arquitetura leva ao mesmo lugar. Por isso, esperar de Caiado e Zema não apenas a denúncia, mas propostas de reforma estrutural — fim do foro privilegiado, mandato fixo sem recondução, quarentena para ex-ministros — seria o próximo passo natural de quem leva a crítica a sério.

Por que isso importa

Três consequências práticas já estão em curso.

  1. Reorganização do centro. O centro-direita descobriu que pode performar sem o bolsonarismo e sem o petismo. Se Caiado e Zema mantiverem a convergência, o segundo turno de 2026 pode ter um representante desse campo pela primeira vez desde 2018.
  2. Agenda de segurança como eixo. Quem quer chegar ao Planalto em 2026 terá de falar sério sobre segurança pública, não em tom defensivo. O debate fixa um piso programático.
  3. Pressão sobre o STF. O fato de dois candidatos viáveis convergirem na crítica institucional à Corte abre espaço para que o tema entre no debate público com menos constrangimento.

Perguntas frequentes

O debate VEJA e VOTE foi o primeiro da corrida de 2026?

Foi o primeiro organizado com base nos critérios da Justiça Eleitoral, segundo o portal Abril.com.br. Outros veículos e entidades já marcaram debates semelhantes para as próximas semanas.

Por que Lula, Flávio Bolsonaro e Renan Santos não participaram?

Os três recusaram o convite. A reportagem não detalha os motivos de cada recusa, mas a leitura política é que cada um avaliou que o custo de comparecer superava o benefício eleitoral.

O modelo de El Salvador funciona?

Em redução de homicídios, os números são expressivos: o país saiu de cerca de 50 homicídios por 100 mil habitantes para menos de 10 em poucos anos. O custo em direitos humanos e devido processo, no entanto, é alvo de crítica internacional consistente. Importar o modelo exige adaptação à Constituição brasileira e aos tratados de direitos humanos dos quais o Brasil é signatário.

A proposta de "força policial sul-americana" tem precedente?

Há experiências pontuais, como operações conjuntas entre polícias de fronteira e a atuação da Interpol, mas não existe hoje uma força regional integrada com cadeia de comando unificada. A proposta, portanto, é mais ambiciosa do que parece e dependeria de tratado internacional a ser ratificado por parlamentos nacionais.

Isso muda alguma coisa na corrida presidencial?

Diretamente, não. Indiretamente, sim: fixa o centro-direita como bloco viável, disciplina a pauta de segurança e demonstra capacidade de articulação para o segundo turno. Para o eleitor antipetista e antibolsonarista, abre uma terceira via com discurso adulto e lastro administrativo.

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