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Declínio da novela brasileira expõe fragilidade cultural

A novela brasileira perdeu Manoel Carlos sem sucessores à altura: o caso expõe a fragilidade de uma indústria cultural refém de plataformas estrangeiras.

Por Heitor Vasconcelos · · 7 min de leitura

Declínio da novela brasileira expõe fragilidade cultural
Declínio da novela brasileira expõe fragilidade cultural

A entrevista concedida pela atriz Julia Lemmertz, de 63 anos, ao programa da coluna GENTE — do portal Abril, editora de VEJA — não é uma mera conversa sobre televisão. É um depoimento raro sobre como funciona (e como deixa de funcionar) uma engrenagem cultural que moldou a linguagem, os costumes e até a formação moral de gerações de brasileiros. Para esta análise, o caso merece atenção porque expõe uma verdade incômoda: instituições culturais que pareciam permanentes podem se revelar frágeis quando dependem de indivíduos insubstituíveis — e quando tanto o Estado quanto o mercado perdem o interesse em sustentá-las.

O que a atriz disse — e por que o depoimento tem peso institucional

Segundo o portal Abril.com.br, Lemmertz relatou que "Em Família" (2014), novela das nove da TV Globo, foi escrita por Manoel Carlos — o "Maneco" — já em estado de saúde fragilizado, escrevendo menos e com dificuldade de manter o ritmo da produção. O resultado, segundo ela, foi uma obra sem a "mão" do autor, criticada pela crítica e abaixo da audiência esperada.

Não se trata de fofoca artística. Manoel Carlos era o último representante de uma linhagem autoral que sustentou por décadas o principal produto de exportação cultural do Brasil: a telenovela. Sua aposentadoria efetiva, agravada pela doença, encerrou um ciclo que começou na primeira "Helena", vivida pela mãe da própria Julia — Lilian Lemmertz — em "Baila Comigo" (1981). Entre uma e outra, passaram-se quase quatro décadas e dezenas de autoras e atores que moldaram a sensibilidade de um país.

A "mão do autor" como insumo crítico, não poesia

Para uma leitura de centro-direita, cética com romantismos, a fala de Lemmertz traduz uma lição que vale para qualquer setor produtivo: a qualidade de um bem cultural depende menos da marca do que da continuidade do trabalho de quem o produz. Quando o criador original se retira — por idade, doença ou desinteresse — e a máquina tenta funcionar no piloto automático, o resultado raramente mantém o padrão. É a mesma lógica que se aplica a uma empresa familiar, a uma redação de jornal ou a um time de futebol: a saída do fundador cobra um preço.

O contexto institucional: Globo e a era de ouro da novela

A TV Globo, ao longo de quase seis décadas, não foi apenas uma emissora. Foi um ecossistema — autoral, produtivo e comercial — que ocupou um vácuo deixado pelo Estado brasileiro e pela ausência de uma indústria cultural alternativa. As novelas não eram entretenimento: eram a principal narrativa compartilhada por cerca de 80 milhões de espectadores diários nos seus melhores momentos, conforme dados históricos de audiência. Quem controlava aquele produto controlava, em parte, o imaginário nacional.

Por que a novela foi um projeto cultural — e por que isso importa

Da perspectiva conservadora que adotamos nesta análise, há um aspecto que costuma ser esquecido no debate público: as novelas da era Manoel Carlos — e de autores como Dias Gomes, Janete Clair, Gilberto Braga — funcionavam como vetores de transmissão de valores familiares, religiosos e comunitários. Famílias inteiras se reuniam no horário nobre para acompanhar enredos que, com todas as imperfeições do gênero, tratavam casamento, maternidade, honra profissional e responsabilidade pessoal como categorias dignas de dramatização. O fato de esse modelo ter sido frequentemente criticado por parcelas da intelligentsia brasileira — acusado de conservador, moralista ou "alienante" — não diminui sua função social: ele oferecia um repertório moral comum num país de enorme diversidade regional.

Quando esse modelo se rompe, não surge apenas uma queda de audiência. Surge uma fragmentação cultural: cada família passa a consumir seu próprio conteúdo, em telas diferentes, em horários diferentes, em plataformas diferentes. O custo é invisível, mas real — e é o tipo de externalidade que uma política pública de cultura deveria monitorar, embora quase nunca monitore.

O que o caso revela sobre a indústria audiovisual brasileira

O depoimento de Lemmertz é um sintoma. A doença, neste caso, é apenas o gatilho mais visível. Há ao menos três processos de fundo que este episódio ajuda a iluminar:

  1. Fim da era dos autores-monstro. O modelo Globo dependia de autores com capacidade de escrever 200 capítulos mantendo coerência dramática. A especialização formou pouquíssimos profissionais com esse perfil — e não há evidência de que a emissora tenha construído um sistema confiável para substituí-los.
  2. Migração silenciosa de público para streaming. A perda de audiência da Globo não é apenas derrota comercial: é transferência de atenção para plataformas internacionais que não respondem a nenhum regulador brasileiro e não produzem conteúdo com identificação cultural local.
  3. Ausência de política pública consistente. O Estado brasileiro trata a cultura como área de fomento — via Lei Rouanet, Ancine e fundos setoriais — sem nunca ter construído uma estratégia industrial para o audiovisual à altura do que a Globo fez, por conta própria, durante décadas.

A fragilidade de depender de uma única instituição

Para quem defende pluralidade, livre concorrência e responsabilidade fiscal, a lição é clara: nenhum monopólio — mesmo quando produziu resultados culturais notáveis, como no caso da Globo — é substituto de um mercado diversificado e de políticas públicas transparentes. Quando o monopólio declina, o que vem no lugar raramente é uma soma de iniciativas privadas menores e mais ágeis; quase sempre é uma combinação de regulação estatal mal desenhada e dependência de plataformas estrangeiras que não respondem ao interesse nacional.

Por que isso importa agora

O caso "Em Família" virou manchete em 2024/2025 — mais de uma década após a estreia da novela — porque oferece uma lente útil para discutir o momento atual da cultura brasileira. Três efeitos práticos merecem destaque:

  • Para o debate cultural: reforça o argumento de que a qualidade de um produto não é garantida por marca ou instituição, mas pela continuidade do trabalho humano qualificado — e que políticas públicas de cultura precisam proteger a formação de novos autores, e não apenas subsidiar produções pontuais.
  • Para o debate regulatório: expõe como a saída de uma figura central de um sistema concentrado pode acelerar a desorganização de toda uma cadeia produtiva — um risco que se aplica a outros setores dependentes de poucos agentes dominantes.
  • Para o leitor comum: ajuda a entender por que a "novela das nove" deixou de ser um evento nacional e por que hoje parece cada vez mais difícil encontrar uma narrativa cultural que mobilize famílias inteiras em torno do mesmo conteúdo.

Perguntas frequentes

"Em Família" foi um fracasso de público ou de crítica? Segundo a entrevista de Julia Lemmertz ao portal Abril.com.br, a novela sofreu nos dois fronts: foi criticada pela imprensa especializada e não atingiu a audiência esperada para o horário nobre da Globo.

Por que a personagem Helena é tão significativa nas obras de Manoel Carlos? A personagem apareceu pela primeira vez em "Baila Comigo" (1981), interpretada por Lilian Lemmertz, e foi reprisada por atrizes como Vera Fischer, Regina Duarte, Christiane Torloni, Maitê Proença e Taís Araújo — até a última versão, vivida pela própria Julia Lemmertz, em 2014.

A saída de Manoel Carlos foi repentina? Não. O autor já estava mais velho e com problemas de saúde; ele foi "escrevendo menos" durante a produção, segundo o relato da atriz. O ciclo de "Helenas" foi planejado por ele como uma homenagem à primeira intérprete do papel.

Esse caso tem dimensão política ou é apenas entretenimento? Tem dimensão institucional. A novela foi durante décadas o principal produto cultural compartilhado do Brasil, com efeitos sobre costumes, linguagem e valores. Discutir seu declínio é discutir o que substituiu (ou não substituiu) essa função social.

Existe risco de a cultura brasileira ficar refém de plataformas estrangeiras? Os dados de audiência dos últimos anos indicam que sim: a migração de público para serviços globais de streaming é contínua, e o Estado brasileiro ainda não apresentou uma estratégia industrial consistente para o audiovisual nacional.

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