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Direita domina 67% das cadeiras no Rio, aponta a UFRJ

Direita no Rio saltou de 52% para 67% na Alerj entre 2002 e 2022, aponta pesquisa da UFRJ. Análise mostra o que mudou dentro do bloco e o que está em jogo.

Por Otávio Salgado · · 7 min de leitura

Direita domina 67% das cadeiras no Rio, aponta a UFRJ
Direita domina 67% das cadeiras no Rio, aponta a UFRJ

Uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), divulgada pelo portal Abril.com.br, confirma uma das tendências mais marcantes da política fluminense das últimas duas décadas: o crescimento consistente da direita nas bancadas legislativas que representam o estado. Entre 2002 e 2022, a participação de partidos classificados no campo direitista na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) saltou de 52% para 67% das cadeiras. Na Câmara dos Deputados, a bancada fluminense reúne hoje 67% de parlamentares identificados com a direita e apenas 23% ligados à esquerda — números que merecem leitura cuidadosa, e não comemoração automática.

O que os números mostram

O levantamento, conduzido pelo Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (LAPPCOM) da UFRJ, classifica os partidos a partir de critérios reconhecidos pela ciência política, atualizados conforme mudanças de posicionamento e a criação de novas siglas. A metodologia importa: não se trata de juízo moral, mas de um mapa ideológico comparado ao longo do tempo, do tipo que permite avaliar tendências sem confundi-las com ciclos eleitorais isolados.

Os dados revelam três movimentos simultâneos. Primeiro, o crescimento absoluto do campo direitista, tanto na Alerj quanto na bancada federal. Segundo, a retração da esquerda, que perdeu espaço de forma contínua ao longo do período. Terceiro, e talvez o mais relevante para entender o momento atual, uma transformação interna dentro do próprio campo da direita: partidos mais tradicionais foram cedendo terreno a siglas posicionadas mais à direita, incluindo a chamada extrema-direita. Segundo o portal Abril.com.br, a direita ultrapassou 60% das cadeiras na Alerj a partir de 2006, oscilou nos pleitos seguintes e voltou a crescer até atingir os 67% registrados em 2022.

Quem ganhou e quem perdeu dentro da direita

Em 2002, a direita fluminense era hegemonizada por legendas como o PFL (que se tornou Democratas e, mais recentemente, União Brasil) e por dissidências do PSDB. Eram partidos que se articulavam em torno de uma agenda liberal na economia e conservadora nos costumes, mas com forte componente fisiológico: a negociação de cargos, o toma-lá-dá-cá com governantes, o centrão fluminense.

Duas décadas depois, esse perfil cedeu lugar a outro. O ciclo eleitoral de 2018, puxado pela candidatura de Jair Bolsonaro e pelo então PSL, redesenhou a correlação de forças dentro do bloco. Partidos como PL, PP, Republicanos e PSD passaram a concentrar a maior parte das cadeiras. O discurso mudou: temas como segurança pública, costumes e combate à corrupção ganharam centralidade que antes não tinham na comunicação das bancadas. O fisiologismo não desapareceu — apenas migrou para novos interlocutores.

Para esta análise, a leitura é necessariamente ambígua. De um lado, é positivo que pautas historicamente tratadas como tabu — a defesa efetiva de quem cumpre a lei, o questionamento da doutrinação em sala de aula e a crítica à gastança pública — tenham encontrado representação crescente nas casas legislativas. De outro, parte do crescimento veio de um campo que flerta com o negacionismo, o ataque a instituições e o personalismo, o que merece vigilância crítica de quem defende o mesmo campo no mérito das ideias. Crescer é bom; crescer sem lastro institucional pode ser mau.

O que encolheu e por quê

A esquerda, que chegou a ter hegemonia expressiva em alguns ciclos no Rio — com o PDT de Brizola nos anos 80 e 90, e mais recentemente com a ascensão de PT e PSOL em alguns pleitos —, recuou de forma sustentada. Segundo o portal Abril.com.br, na bancada federal fluminense a esquerda representa hoje apenas 23% das cadeiras.

As causas são múltiplas e não se resumem a uma suposta vitória cultural da direita. Pesam contra a esquerda fluminense: a fadiga eleitoral depois de anos à frente de prefeituras e do governo do estado, a associação do campo com escândalos nacionais do PT, a dificuldade de renovação de quadros e a erosão de uma base sindical e popular que já foi mais mobilizada. A leitura crítica que esta coluna assume é que parte expressiva da retração se deve ao desempenho concreto de governos identificados com a esquerda — não a uma campanha de difamação, mas a resultados medidos em segurança, educação e contas públicas.

Também encolheu o centro. O chamado centrão fisiológico segue ativo, mas perdeu densidade eleitoral própria e se realinha constantemente ao campo que oferece mais poder. Esse é talvez o dado menos comentado e o mais relevante para entender a governabilidade brasileira: o voto do eleitor migrou para os polos, e quem se manteve no meio perdeu substância.

O Rio como espelho do país

O Rio de Janeiro é historicamente um termômetro precoce de tendências nacionais. Foi no estado que a esquerda brizolista testou força nos anos 80; foi no estado que a centro-esquerda ensaiou alternativas nos anos 2000; é no estado, agora, que se observa com nitidez o realinhamento verificado em todo o país a partir de 2018, com a diferença de que aqui a direita chegou mais cedo e se consolidou com mais consistência.

Quem observa a bancada federal fluminense hoje vê uma fotografia aproximada do Congresso Nacional: direita consolidada, esquerda em recuperação lenta, centro esvaziado. Isso ajuda a explicar a dificuldade de aprovar reformas estruturais: uma agenda liberal encontra mais votos do que havia dez anos, mas eles estão dispersos em dezenas de partidos com agendas nem sempre convergentes.

Por que isso importa

Três consequências práticas merecem destaque. Primeira: a correlação de forças na Alerj e na bancada federal influencia diretamente o que o Rio consegue aprovar no Congresso e para si mesmo. Com 67% de cadeiras à direita, pautas caras ao campo — desoneração, marco regulatório, segurança jurídica, endurecimento de penas — têm mais espaço. Mas, como apontou a própria pesquisa ao registrar o crescimento da extrema-direita, o resultado depende de qual direita vence dentro da direita.

Segunda: o encolhimento simultâneo da esquerda e do centro reduz o espaço de moderação. Em democracias, a moderação não vem só da boa vontade dos atores; vem da competição eleitoral. Quando o jogo se concentra em dois campos e um deles domina, o risco é que a agenda seja capturada pela fração mais radical de cada lado. A vigilância vale tanto para a esquerda quanto para a direita.

Terceira: a pesquisa mostra que a tendência é de médio prazo, não de um ciclo eleitoral. Os números se consolidam ao longo de duas décadas, com pequenas oscilações. Isso significa que governantes e candidatos do campo da direita que confundirem crescimento com hegemonia permanente tendem a perder espaço na próxima inflexão — movimento que já começou a se desenhar em eleições municipais recentes e que costuma cobrar caro de quem troca gestão por ativismo.

Perguntas frequentes

O crescimento da direita no Rio é diferente do que ocorreu no resto do Brasil?

A direção é a mesma verificada nacionalmente, mas no Rio a intensidade é maior e a consolidação é mais antiga. O estado aparece como um dos mapas mais nítidos de hegemonia direitista entre as unidades federativas relevantes, com a direita ultrapassando 60% das cadeiras na Alerj já em 2006.

Os números significam que a esquerda desapareceu no Rio?

Não. Segundo o levantamento divulgado pelo portal Abril.com.br, a esquerda ainda detém 23% das cadeiras da bancada fluminense na Câmara dos Deputados, além de presença em prefeituras e na capital. Trata-se de retração expressiva, mas não de extinção.

O que diferencia a direita tradicional da nova direita no Rio?

A direita tradicional era hegemonizada por legendas como PFL, DEM e PSDB, com agenda liberal-conservadora e forte articulação fisiológica. A nova direita agrega partidos como PL, PP e Republicanos, com discurso mais identitário em costumes e mais assertivo em segurança pública — mas também com práticas fisiológicas herdadas dos antecessores.

A pesquisa da UFRJ é confiável como referência?

É um estudo acadêmico de universidade pública federal, com metodologia de ciência política comparada. Como toda classificação ideológica, admite debate nas margens, mas serve como referência consistente para acompanhar tendências de longo prazo.

O que esse realinhamento sugere para as próximas eleições?

A tendência de duas décadas aponta para consolidação do quadro, mas não garante estabilidade indefinida. Os próximos pleitos dependerão mais da qualidade da governança atual e da renovação de quadros do que da fotografia ideológica de 2022 — e costumam punir quem troca entrega por espetáculo.

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