O recado dos bancos chega antes das urnas — e é sobre a dívida, não sobre a campanha
A poucos meses das eleições, presidentes de algumas das maiores instituições financeiras do Brasil escolheram um palco institucional — o evento de tecnologia do setor bancário organizado pela Febraban, em São Paulo — para fazer uma advertência que vai além da política partidária: o país precisa de equilíbrio fiscal e de uma agenda de produtividade para enfrentar um ambiente externo mais adverso. Segundo o portal Terra.com.br, executivos do Bradesco e do Itaú Unibanco foram explícitos: a trajetória atual da dívida pública é insustentável, e "é preciso haver vontade política" para mudar esse rumo.
O fato de a mensagem vir de banqueiros, num momento pré-eleitoral, não é detalhe menor. Os principais bancos do país são credores do Estado, financiadores do crédito privado e termômetros da confiança econômica. Quando eles falam em público sobre risco fiscal, não estão opinando sobre eleitoralismo — estão precificando risco e avisando o mercado, o Congresso e o Executivo sobre o que consideram um caminho perigoso.
Os números que sustentam o alerta
A base da advertência é objetiva e está nos dados oficiais:
- A dívida pública bruta fechou junho em 81,9% do PIB, contra 81,0% no mês anterior.
- A dívida líquida do setor público passou de 67,9% para 68,5% do PIB.
- O Tesouro Nacional projeta que o indicador seguirá em alta até 2029.
- Desde janeiro de 2023, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu, a dívida bruta cresceu 10,2 pontos percentuais do PIB — o indicador mais usado para medir a solvência do país.
Esses números não são disputa de narrativa: são estatísticas públicas, divulgadas pelo Tesouro e reproduzidas pelo portal Terra.com.br. O que está em jogo é o que eles significam somados — e é aí que entra a leitura de analistas, economistas e agora dos próprios banqueiros.
O ponto que Milton Maluhy Filho, do Itaú, fez questão de explicitar
O presidente do Itaú Unibanco propôs uma mudança de vocabulário que é, na verdade, uma mudança de foco: em vez de discutir superávit ou déficit primário, o país deveria discutir o déficit nominal. A diferença importa.
O resultado primário é o que sobra das receitas depois das despesas, desconsiderando os juros da dívida. O nominal inclui os juros. Em um país com R$ 10 trilhões em estoque de dívida e taxa de juros na casa de 14%, o componente de juros é o que mais pressiona o caixa do governo. Ignorá-lo na discussão pública é, na prática, esconder o problema real. A fala do executivo do Itaú é um pedido direto para que o debate fiscal pare de olhar para o espelho e passe a olhar para a conta.
O que está em jogo antes das eleições
As declarações foram feitas em um evento fechado do setor financeiro, com plateia especializada, mas com repercussão imediata na imprensa. A escolha do momento não é acidental: faltam poucos meses para uma eleição em que o tema fiscal já é central, e em que os dois lados prometem caminhos opostos.
O recado dos banqueiros funciona como uma tentativa de reintroduzir a disciplina fiscal na agenda do debate eleitoral, sob a autoridade técnica de quem opera crédito, títulos públicos e risco diariamente. Não é uma intervenção neutra — banqueiros têm interesse legítimo em estabilidade macroeconômica —, mas é uma intervenção respaldada por dados que o próprio governo não contesta.
Por que a produtividade apareceu ao lado da dívida
A fala não tratou apenas de cortar gasto. Os executivos também cobraram uma agenda de produtividade. Isso conecta dois pontos que costumam andar separados no debate público: equilíbrio das contas e crescimento da economia. Para uma dívida/PIB estabilizar ou cair, há dois caminhos — gerar mais PIB (denominador) ou gerar menos dívida (numerador). Aumentar a produtividade é a forma menos dolorosa de mexer no denominador, mas depende de reformas estruturais que historicamente enfrentam resistência política: simplificação tributária, redução do custo Brasil, melhoria do ambiente de negócios, qualificação da mão de obra.
Por que isso importa
Para o governo: a pressão institucional dos bancos pesa mais do que a de economistas ou da imprensa, porque interfere diretamente no custo de financiamento do Estado. Se o mercado comprar o diagnóstico, os juros cobrados nos títulos públicos tendem a subir — o que retroalimenta a dívida que se quer estabilizar.
Para o Congresso: a mensagem chega no momento em que se discutem medidas que afetam a receita e o gasto. Parlamentares que dependem da Febraban e do sistema financeiro para financiamento de campanha, e para sustentação política em seus estados, recebem um sinal claro de que há limites ao que o mercado aceita absorver.
Para o eleitor: o alerta ajuda a calibrar promessas de campanha. Se dois candidatos prometem manter ou ampliar programas sociais, e nenhum dos dois mostra como vai financiar isso com uma dívida já em trajetória de alta, o eleitor informado percebe que alguma conta não fecha.
Para a economia real: Maluhy Filho lembrou que juros nesse nível prejudicam o principal negócio dos bancos — o crédito. Em cenários de aperto, a inadimplência sobe e o crédito encolhe, o que afeta empresas que dependem de financiamento bancário para capital de giro e investimento, e famílias que financiam casa, carro e educação.
Para a disputa política maior: este é mais um episódio de uma tendência que se intensificou nos últimos anos — a perda de protagonismo do debate sobre desenvolvimento pela agenda fiscal. Quando banqueiros precisam sair da posição de operadores e virar arautos do equilíbrio das contas, é porque o sistema de freios e contrapesos internos não está sendo suficiente.
O argumento contrário — apresentado na versão mais forte
Para ser honesto, há leituras legítimas que relativizam o alerta:
- Bancos são agentes econômicos com interesses próprios e tendem a se beneficiar de aperto fiscal e juros altos.
- A dívida/PIB brasileira, embora crescente, está abaixo da média de países desenvolvidos, e o país emite em moeda própria — o que reduz certos tipos de risco.
- Cortar gastos em meio a indicadores sociais ainda frágeis tem custo humano que não aparece nos gráficos de endividamento.
- O governo pode argumentar que parte do aumento da dívida é herança de gestões anteriores e que há espaço para crescer com arrecadação, não apenas com corte.
Esses pontos merecem ser ouvidos. Mas nenhum deles anula o fato central trazido pelos banqueiros e reconhecido pelo próprio Tesouro: a trajetória é de alta e se mantiver esse passo, algum ajuste será inevitável — a questão é apenas quem paga a conta e quando.
Perguntas frequentes
O que é dívida bruta e por que ela importa mais que a líquida?
A dívida bruta é o total das obrigações do setor público, sem descontar os créditos que o governo tem a receber. Por ser mais abrangente e menos sujeita a ajustes contábeis, é considerada o principal indicador de solvência do país — daí ser a métrica usada para classificar risco soberano.
Por que o déficit nominal é pior que o primário?
Porque o déficit nominal inclui o pagamento de juros, que em um país com Selic a 14% e estoque de R$ 10 trilhões em dívida é o componente que mais cresce e o que menos se controla com políticas convencionais. Discutir só o primário é discutir o problema sem mostrar os juros, que são a parte mais pesada da equação.
Os bancos têm autoridade para cobrar política fiscal?
Não são policymakers e não decidem gasto público, mas são credores do Estado e formadores de preço no mercado de títulos. Quando um banco do porte de Itaú ou Bradesco diz que a trajetória é insustentável, isso afeta a percepção de risco dos investidores e, em última instância, o custo que o próprio governo paga para se financiar.
A alta da dívida é responsabilidade do governo atual?
A gestão atual responde pelo que aconteceu desde janeiro de 2023 — período em que a dívida bruta subiu 10,2 pontos percentuais do PIB, segundo dados oficiais. Mas a trajetória de crescimento se iniciou antes e foi acentuada por fatores globais, como a pandemia e a alta de juros internacionais. A responsabilidade é compartilhada, mas não é zero em nenhum dos lados.
O que pode ser feito agora?
Segundo os próprios banqueiros, três frentes: disciplina do gasto, reforma que eleve a produtividade e sinalização clara de que o país está comprometido com a solvência de longo prazo. Sem ao menos duas dessas três, a projeção do Tesouro de alta até 2029 tende a se confirmar.
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