Paes e a força eleitoral que não cabe na polarização nacional
A disputa pelo governo do Rio de Janeiro chegou ao segundo turno com um dado que contraria a leitura habitual da política brasileira: o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) mantém uma base eleitoral própria, capaz de sustentá-lo mesmo quando a vantagem inicial para vencer em primeiro turno se dissolveu. Segundo análise publicada pelo portal Terra.com.br, com base em entrevista à cientista política Mayra Goulart, professora da UFRJ, essa força não é derivada da corrida presidencial — é endógena, construída ao longo de quase duas décadas de atuação na capital fluminense.
Para entender o tamanho do que está em jogo, basta lembrar o peso institucional do cargo: o governo do Rio comanda o segundo maior orçamento estadual do país, administra uma máquina de segurança pública que responde por uma das regiões metropolitanas mais violentas do Brasil e administra relações fiscais com a União que afetam diretamente servidores, fornecedores e contribuintes locais. Não é disputa menor.
Uma trajetória que vira capital político
O ponto central da análise de Mayra Goulart, reproduzida pelo Terra, é que Paes construiu uma "trajetória eleitoral própria". A cronologia ajuda a explicar: prefeito entre 2009 e 2016, candidato ao governo do Estado em 2018 (derrotado), retorno à Prefeitura em 2021 e subsequente reeleição. Esse percurso produziu três efeitos mensuráveis:
- Alta taxa de conhecimento do nome — após quatro eleições majoritárias no estado, Paes deixou de ser apenas o "prefeito do Rio" para se tornar uma referência eleitoral em todo o território fluminense.
- Base local consolidada — a gestão municipal, apesar de todas as controvérsias administrativas que a acompanharam, deu a Paes uma vitrine permanente de mídia, obras e entregas que outros candidatos não conseguem replicar sem mandato.
- Resiliência à derrota — a perda de 2018 não encerrou sua carreira. Ao contrário, a capacidade de retorno à Prefeitura demonstra um ativo raro no Brasil: eleitorado que vota na pessoa, não no partido.
Por que a capital decide tanto no Rio
Um dado merece destaque porque costuma passar despercebido fora do estado: a capital responde por 40% dos votos válidos para governador no Rio de Janeiro. Isso transforma o comando da Prefeitura em uma plataforma quase obrigatória para quem pretende vencer a disputa estadual.
Para esta análise, o efeito prático é claro: quem governa o Rio cidade por quatro anos já entra na corrida ao Palácio Guanabara com um piso de competitividade muito difícil de ser alcançado por adversários que administraram municípios menores ou ocuparam cargos no interior. É, em certa medida, uma desproporcionalidade estrutural do sistema eleitoral fluminense — e quem souber usá-la, vence.
"A capital tem 40% dos votos do estado do Rio de Janeiro. Isso significa que alguém que é amplamente conhecido na capital já parte de um patamar de votos elevado", afirma Mayra Goulart, em trecho reproduzido pelo Terra.
Por que a vantagem inicial se erode, mesmo assim?
Se a base é tão sólida, por que Paes não venceu no primeiro turno? A resposta exige reconhecer um fato que a leitura localista não resolve: a disputa estadual, no Rio, também sofre efeitos do ambiente nacional. Mesmo com trajetória própria, o candidato do PSD não opera no vácuo. O derretimento da vantagem inicial está ligado a ao menos três fatores que a fonte indica e que merecem leitura crítica:
- Mobilização do adversário — quando o segundo colocado percebe chances reais, a máquina partidária e a militância se reorganizam, reduzindo a diferença.
- Rejeição acumulada — quem administrou por anos carrega ônus: promessas não cumpridas, crises setoriais (saúde, mobilidade, segurança nas áreas onde a Prefeitura atua) e desgastes inevitáveis de qualquer gestão.
- Distribuição geográfica do segundo turno — o interior e a Região Metropolitana, fora do eixo da capital, exigem outra engenharia de campanha. Quem é "prefeito do Rio" pode, em alguns municípios, ser visto como representante de outro universo de problemas.
É preciso registrar, com honestidade, o que os números sugerem: nenhum desses fatores eliminou a competitividade de Paes. Eles apenas tiraram dele a possibilidade do 1º turno — o que é politicamente relevante, mas não redimensiona o favoritismo.
Por que isso importa
A leitura consequencial do quadro fluminense passa por três planos:
1. Para o Estado do Rio. O governo que sair das urnas em outubro administrará uma máquina com déficit atuarial relevante, despesas de pessoal entre as mais altas do país e um sistema de seguridad pública pressionado por indicadores de criminalidade que desafiam qualquer governante. Quem chega ao Guanabara precisa, antes de tudo, de um mandato com lastro eleitoral — e Paes, pelos números analisados, é quem tem mais.
2. Para a política nacional. O caso Paes reforça uma evidência empírica que incomoda a leitura exclusivamente polarizada da política brasileira: existem eleitorados que premiam trajetória pessoal, entrega administrativa local e continuidade — não alinhamento ideológico automático. Para a centro-direita, é uma confirmação de que o caminho de construir marca própria, com gestão e resultados aferíveis, segue válido, mesmo em ambiente de bolsonarismo e lulismo consolidados.
3. Para a leitura editorial sobre o papel do Estado. Há, aqui, um alerta de princípio. Governador com base eleitoral própria forte tende a ter mais margem para governar, mas também mais responsabilidade por resultados. O ônus da cobrança é proporcional ao capital político acumulado. A conferir, nos próximos anos, se a força eleitoral de Paes se traduz em indicadores melhores de gestão — segurança, saúde, contas públicas e ambiente de negócios.
O argumento contrário — na sua versão mais forte
Críticos de Paes argumentam, com consistência, que a "trajetória própria" foi construída em ambiente de aliança com partidos que a centro-direita costuma apontar como fisiológicos, e que o modelo de capital político baseado em obras de impacto visual pode ter custado mais ao contribuinte do que o retorno efetivo em serviços públicos essenciais. Críticos mais duros acrescentam que oito anos de prefeitura, somados a mandatos anteriores, produzem desgaste inevitável em contratos, licitações e indicadores fiscais — e que esse ônus, embora invisível nas pesquisas, aparece na hora de administrar o estado.
Para esta análise, a resposta a essas críticas passa por separar evidência de retórica. Nada no conjunto de dados públicos disponíveis permite afirmar, de antemão, que Paes será um mau governador. Mas também não há, nos números, garantia automática de boa gestão — e seria desonesto afirmar o contrário. A análise se limita a registrar o que os fatos mostram: capacidade eleitoral e competência administrativa são coisas distintas, e o eleitor fluminense ainda não teve a palavra final sobre a segunda.
Perguntas frequentes
Eduardo Paes tem chances reais de vencer a disputa?
Sim. Segundo a análise publicada pelo Terra, Paes mantém força eleitoral própria mesmo após perder a vantagem inicial para vencer no 1º turno, com base construída em quatro eleições majoritárias no estado e em alta identificação na capital.
Por que a força de Paes é "independente" da corrida presidencial?
Porque, segundo a cientista política Mayra Goulart (UFRJ), sua base vem da trajetória pessoal na Prefeitura do Rio e do conhecimento do nome entre os eleitores — não do arrasto de um candidato a presidente aliado.
O peso da capital é mesmo decisivo?
A capital representa 40% dos votos válidos para governador no estado, conforme destacado pela professora Mayra Goulart. Quem governa a cidade por quatro anos amplia enormemente sua taxa de conhecimento entre esses votantes.
O que mudou desde o início das pesquisas?
O cenário da corrida se alterou a ponto de Paes não ter mais vantagem suficiente para vencer no primeiro turno, obrigando a disputa a seguir para o segundo turno — ainda assim, mantendo-se competitivo.
O que está em jogo no governo do Rio?
O comando de um estado com o segundo maior orçamento do país, máquina de seguridad pública pressionada, déficit atuarial expressivo e papel central nas relações fiscais com a União. Quem vence governa uma das unidades mais relevantes da Federação.
Gostou desta análise? Compartilhe com quem quer entender a política brasileira além da manchete e assine a newsletter d'A Bússola Nacional.



