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Eleições 2026: Brasil entre a República e a cleptocracia

Eleições brasileiras definem comando do Orçamento, STF e régua moral. A Bússola Nacional analisa riscos institucionais e fiscais do ciclo Lula-Bolsonaro.

Por Otávio Salgado · · 8 min de leitura

Eleições 2026: Brasil entre a República e a cleptocracia
Eleições 2026: Brasil entre a República e a cleptocracia
>Quando um periódico português de referência publica um texto que trata o Brasil como paciente em estado terminal, há dois caminhos para um analista responsável: rir do exagero ou perguntar por que a caricatura, mesmo deformada, encontra tanta matéria-prima para existir. A Bússola Nacional escolhe o segundo. Faltando cerca de um mês para eleições gerais que decidirão Presidência, Congresso, governos estaduais e assembleias legislativas, a pergunta relevante não é apenas quem vai ganhar, mas se o sistema político brasileiro consegue processar mais um ciclo eleitoral sem romper o já tênue tecido institucional que separa a República da cleptocracia aberta. O retrato feito pelo portal Observador.pt em seu "Obituário do Brasil" é grosseiro no tom, mas desconfortável no conteúdo: não é a leitura de um inimigo do país, é a de um observador externo que perdeu a paciência com um padrão que se repete há décadas.

O cenário: eleições sob suspeita existencial

A Bússola Nacional trata o pleito como uma decisão técnica antes de ideológica. O que está em jogo, do ponto de vista liberal-conservador, não é só quem comanda o Planalto, mas quem controla o Orçamento Geral da União, a composição do Congresso — onde se decidem carga tributária, tamanho do Estado e marco regulatório — e a hegemonia narrativa que orientará o próximo quadriênio. Três elementos tornam esta escolha particularmente carregada:

  • É uma eleição de meio de ciclo de um governo Lula que começou sem maioria parlamentar própria e terminou construindo-a à base de fisiologia legislativa e liberação de emendas.
  • É a primeira após os atos de 8 de janeiro de 2023 em Brasília, com o ex-presidente Jair Bolsonaro respondendo a processos criminais e, segundo o Observador.pt, em prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica.
  • É a primeira em que um ex-presidiário (Lula) tenta a Presidência após ter sido condenado em duas instâncias e com sentenças anuladas pelo STF sob argumento de incompetência do juízo de Curitiba — fato que o campo lulista apresenta como "reparação" e o campo oposto como evidência de blindagem judicial.

O lamaçal visto de longe

Há exagero e há verdade. O Observador.pt exagera no tom e na generalização — atribuir a um povo inteiro a responsabilidade pelos desvios de sua elite política é recurso retórico que a análise séria não endossa. Mas o substrato factual é difícil de contestar:

  • Fernando Collor e Dilma Rousseff sofreram impeachment (1992 e 2016); Lula foi condenado por lavagem de dinheiro e corrupção passiva; Michel Temer foi preso duas vezes; Jair Bolsonaro responde criminalmente por tentativa de golpe de Estado.
  • Apenas no Rio de Janeiro, segundo a fonte, seis governadores foram presos ou afastados em quatro anos.
  • O Mensalão (2005) e o Petrolão drenaram recursos bilionários da Petrobras e do caixa de partidos, com ramificações em pelo menos 12 países das Américas e da África.

O que essa sucessão mostra não é que o Brasil é um país de marginais, mas que sua engrenagem institucional foi desenhada para tolerar sistematicamente a corrupção como custo de funcionamento. Orçamento secreto, emendas pix, fundo partidário inflado, ministérios loteáveis: tudo isso não é falha, é arquitetura. Reconhecer não é "ataque ao Brasil" — é diagnóstico necessário para quem pretende consertar.

Por que Lula e Bolsonaro se parecem mais do que admitem

É preciso honestidade intelectual para registrar a próxima frase: o antipetismo que sustenta o bolsonarismo e o antissistema que inflamou o petismo nos anos 2000 se alimentam do mesmo combustível — a percepção de que o sistema político serve a si próprio. Lula é o político mais bem-sucedido do país justamente porque entendeu essa engrenagem e a operou com mais competência que qualquer outro. Bolsonaro foi eleito em 2018 vendendo-se como disruptor dessa engrenagem e terminou atolado nela.

O ex-presidiário no trono

Lula cumpre o terceiro mandato e busca o quarto. Foi condenado em primeira instância pelo então juiz Sergio Moro a cerca de 9 anos e 6 meses no caso do triplex em Guarujá, pena elevada pelo TRF-4 para aproximadamente 12 anos e 11 meses — não apenas os "9 anos" citados pelo Observador.pt, que se referem à sentença inicial. Cumpriu 580 dias na carceragem da Polícia Federal em Curitiba. Suas condenações foram anuladas pelo STF em 2021, sob o argumento de que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgá-lo — decisão técnica que o petismo trata como absolvição e a oposição como nulidade.

A Bússola Nacional registra o fato e diverge na leitura. Anulação por incompetência não é absolvição de mérito. Mas também é fato que nenhum tribunal, após a anulação, julgou Lula em nova instância: não houve novo processo porque o próprio STF barrou sua reabertura. Quem quer que seja o leitor, é preciso reconhecer essa assimetria: juridicamente, Lula está livre. Politicamente, o estigma permanece — e é justamente sobre essa ambiguidade que ele foi preso, voltou e busca reeleger-se.

"Sou a alma mais honesta do Brasil" — a frase atribuída a Lula e citada ironicamente pelo Observador.pt é eloquente não pela piada que provoca, mas pelo teste que impõe a seus adversários: nenhum dos que se apresentam como alternativa pode dizer o mesmo sem provocar gargalhada maior.

O outro lado sob constrangimento

Bolsonaro, derrotado em 2022 por margem apertadíssima, deixou o governo e em pouco tempo viu-se como réu no STF no caso que apura a tentativa de golpe de Estado. Está, segundo a fonte portuguesa, em prisão domiciliar e fazendo uso de tornozeleira eletrônica. A denúncia da Procuradoria-Geral da República aponta articulação direta com militares e ex-ministros; a defesa contesta.

A Bússola Nacional, fiel à sua linha editorial, sustenta: em democracia, a contestação de resultado eleitoral é direito; a conspiração para revertê-lo por meios não institucionais é crime. Não há "duas versões razoáveis" sobre isso. O julgamento do STF e do próprio TSE já indicou, antes da condenação criminal, que houve tentativa de ruptura — não fraude em escala que justificasse reação. Reconhecer isso não é bolsonarismo, é princípio constitucional.

Mas a análise de direita não pode parar aí. Também precisa reconhecer que Bolsonaro governou mal a economia no pior momento possível (pandemia), flertou com o populismo cambial, dobrou o gasto com Auxílio Brasil às custas do teto fiscal e terminou o mandato como começou: um cabo eleitoral da máquina que dizia combater. Sua prisão, para qualquer liberal, é problema de método — com STF legislando de costas para o Congresso — tanto quanto de substância.

Por que isso importa

Importa porque a próxima escolha do eleitor brasileiro definirá três coisas concretas: quem comandará o Orçamento em um momento de dívida pública bruta acima de 75% do PIB; quem indicará ministros do STF nos próximos anos; e qual será a régua moral pública do país — se a referência segue sendo "o que meu adversário fez" ou se volta a ser o texto da Constituição.

Do ponto de vista liberal-conservador, três balizas devem orientar o voto responsável:

  1. Responsabilidade fiscal: rejeitar qualquer programa que dependa de criação de tributo ou elevação de alíquota. A reforma tributária de 2023 já promoveu desoneração significativa; ampliá-la é prioridade, revertê-la é sabotagem competitiva.
  2. Segurança jurídica: acabar com a volatilidade regulatória que tem afastado investimento privado e empurrado capital para Miami e Lisboa — exatamente a Lisboa de onde veio o obituário que abriu esta análise.
  3. Fronteiras do Estado: resistência à expansão do STF sobre matérias legislativas, à regulação da vida privada e à criminalização da opinião, venha de onde vier.

Perguntas frequentes

1. O Brasil é mesmo uma "cleptocracia", como sugere o Observador.pt?

Não no sentido técnico — não é uma cleptocracia institucionalizada nem comparável a regimes onde o roubo do Estado é a razão de ser do Estado. Mas o volume sistemático de desvio, a tolerância do sistema político com investigados e a baixa taxa de condenações definitivas colocam o Brasil entre as democracias mais tolerantes à corrupção, segundo rankings internacionais consistentes. A diferença é relevante e o Observador.pt a ignora.

2. Lula foi absolvido ou apenas anulado?

Juridicamente, anulado por incompetência do juízo. Não houve, até hoje, julgamento de mérito subsequente. O efeito prático é o mesmo de uma absolvição para fins eleitorais — mas a narrativa usada por cada lado é diferente, e o eleitor informado deve conhecer a diferença técnica.

3. O que pesa mais na próxima eleição: corrupção ou economia?

Pesquisas recentes sugerem que economia e renda voltam ao centro do debate, depois de dois ciclos dominados pelo antipetismo (2018) e pelo antibolsonarismo (2022). Mas com taxa de juros real ainda elevada, câmbio pressionado e gasto público crescente, o tema fiscal dificilmente sairá do radar do eleitor que pensa além da próxima parcela.

4. O STF está atuando como legislador?

Há sinais crescentes nessa direção, especialmente em matérias penais, eleitorais e de política. A Bússola Nacional, sem atacar integrantes individuais da Corte, defende que o Congresso reassuma protagonismo legislativo e reduza a dependência de decisões judiciais como substituto de lei aprovada em plenário.

5. Há terceira via viável neste pleito?

Para o ciclo atual, a história das terceiras vias no Brasil é, salvo exceções regionais, fracassada. A tendência aponta nova polarização Lula versus Bolsonaro ou seus herdeiros declarados. O eleitorado de centro tem peso decisivo quando se mobiliza — e é justamente para esse eleitor que esta análise se dirige.

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