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Empate nas pesquisas e juros longos acendem alerta fiscal

Juros longos em alta e empate técnico nas pesquisas presidenciais elevam o prêmio de risco fiscal, pressionando o custo de rolagem da dívida pública brasileira.

Por Marina Cordovil · · 7 min de leitura

Empate nas pesquisas e juros longos acendem alerta fiscal
Empate nas pesquisas e juros longos acendem alerta fiscal

Juros longos sobem e empate nas pesquisas eleitorais acende sinal de alerta fiscal

O mercado brasileiro de renda fixa reagiu nesta segunda-feira a dois fatores que, juntos, formam a pior combinação possível para quem se preocupa com a trajetória da dívida pública: de um lado, a continuação da tensão entre Estados Unidos e Irã elevou o petróleo Brent para perto de US$ 110 o barril, pressionando a curva de juros global e reforçando a aversão a ativos emergentes; de outro, duas pesquisas eleitorais divulgadas em sequência — Datafolha na sexta e BTG/Nexus nesta segunda — confirmaram que a corrida pela Presidência em 2026 está tecnicamente empatada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), segundo o portal Terra.com.br.

O efeito prático aparece nas taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros) mais longos: o contrato para janeiro de 2035 fechou em 14,25%, alta de 7 pontos-base em relação ao ajuste anterior, enquanto o DI para janeiro de 2028 caiu marginalmente para 13,615%. A leitura é direta: o mercado está cobrando mais risco-país no horizonte em que uma nova gestão já terá assumido o comando da política econômica. Não se trata de ruído — é o prêmio de risco falando.

O que exatamente está em jogo na curva de juros

A taxa do DI funciona como termômetro do custo do dinheiro para o Tesouro Nacional. Quando a parte longa da curva sobe, isso significa que o mercado está exigindo retorno maior para financiar a dívida pública em prazos longos. Em outras palavras, o investidor — brasileiro ou estrangeiro — está precificando maior probabilidade de turbulência fiscal ou política nos próximos anos.

Dois elementos explicam o movimento:

  • Componente externo: o conflito no Oriente Médio pressiona o petróleo, reacende o medo de inflação importada e reduz o apetite por risco em emergentes. O Brasil, que voltou a ser importador líquido de petróleo em determinados momentos do ciclo, sente o impacto diretamente via expectativa de inflação.
  • Componente interno: o empate técnico nas pesquisas eleitorais elimina a "lua de mel" que costuma existir após a definição de candidatos. Quando há favorito claro, o mercado tende a antecipar cenários; quando há empate dentro da margem de erro, o mercado cobra prêmio de incerteza.

As pesquisas em detalhe

Vale separar fato de interpretação, porque há nuance importante nos números divulgados.

A pesquisa Datafolha, divulgada na sexta-feira após o fechamento dos mercados, mostrou Lula com 46% e Flávio Bolsonaro com 44% em simulação de segundo turno — empate técnico, considerando a margem de erro de 2 pontos percentuais. A pesquisa BTG/Nexus, divulgada nesta segunda de manhã, registrou Lula com 47% e Flávio com 46%, também em empate técnico pela mesma margem. A leitura honesta é que os dois levantamentos convergem para um cenário de disputa apertada, mas indicam leve oscilação: Flávio liderava numericamente no ciclo anterior; agora Lula retomou a dianteira numérica no BTG/Nexus, enquanto o Datafolha mostra cenário praticamente parelho.

Para efeito de análise, o ponto central não é quem está à frente por décimos de ponto percentual, e sim o fato de que nenhum dos dois postulantes consegue abrir uma vantagem confortável — o que, em um cenário de polarização elevada, é excepcionalmente raro.

Por que isso importa agora

A combinação de empate técnico, petróleo alto e tensão geopolítica não é benigna para a sustentabilidade fiscal brasileira. Três consequências práticas merecem atenção:

1. Custo maior para rolar a dívida pública. O Brasil tem um estoque de dívida federal que ultrapassa R$ 7 trilhões, e parcela significativa vence no longo prazo. Cada alta de 7 pontos-base em uma referência como o DI 2035 se traduz, em volume, em bilhões de reais a mais de despesa financeira futura. Não é símbolo — é orçamento.

2. Pressão sobre o Banco Central e o regime fiscal. Embora a Selic de curto prazo tenha começado o ciclo de cortes, a curva longa desancorando pode forçar o BC a reavaliar o ritmo de afrouxamento monetário, especialmente se a inflação de serviços e alimentos não arrefecer. Isso jogaria contra o calendário de cortes esperado pelo mercado.

3. Sinal para o Congresso e para o próximo governo. Parlamentares que dependem de liberação de emendas e gastos para garantir governabilidade recebem do mercado uma mensagem indireta: a tolerância com expansão fiscal desordenada é baixa. Quem chegar ao Planalto em 2027 herdará uma curva de juros que já precificou desconfiança.

A leitura pelo lado do eleitor e da gestão pública

Há um argumento que precisa ser apresentado em sua versão mais forte antes de qualquer crítica: o empate técnico reflete, em parte, o desgaste natural de um governo que completou seu primeiro ano sob restrições fiscais, e simultaneamente a dificuldade da oposição em se consolidar como alternativa viável. Reconhecer isso é parte da honestidade intelectual que separa análise de propaganda.

Feito o registro, a pergunta que se coloca do lado da gestão pública é mais simples e mais dura: o que cada um dos cenários sinaliza sobre o futuro da disciplina fiscal? Um governo que precisa entregar resultados sob pressão política tende a buscar receita via tributação ou a afrouxar a meta fiscal para acomodar gastos. A história recente brasileira mostra que, na dúvida entre cortar despesa e aumentar tributo, o caminho historicamente preferido tem sido o segundo — e o custo recai sobre o contribuinte e sobre o setor produtivo.

Para o eleitor conservador e para o contribuinte em geral, o ponto de chegada desta análise é o seguinte: independentemente de quem esteja numericamente à frente, o mercado financeiro está cobrando responsabilidade fiscal. Isso deveria ser lido como um convite à transparência: programas de governo com impacto orçamentário precisam ser acompanhados de fonte de receita explícita e de metas verificáveis, não de promessas genéricas de "justiça social" desacompanhadas de conta que feche.

Riscos externos como amplificadores

O petróleo Brent se aproximando de US$ 110 o barril não é detalhe acessório. Historicamente, choques de oferta energética pressionam a inflação de países importadores, reduzem o espaço para política monetária expansionista e deterioram termos de troca. O Brasil, embora tenha ampliado a produção interna nos últimos anos, continua exposto à volatilidade internacional — e à percepção de risco que isso gera entre investidores estrangeiros, que são credores relevantes da dívida brasileira.

Em ciclos anteriores, choques semelhantes contribuíram para reverter trajetórias de queda de juros e para ampliar o prêmio de risco em emergentes. A conjunção de petróleo caro com disputa eleitoral indefinida amplia o canal de transmissão: o investidor não consegue separar o ruído político local da pressão externa, e cobra dos dois.

Perguntas frequentes

O que é a taxa do DI e por que ela importa?
O DI (Depósito Interfinanceiro) é a principal referência de taxa de juros do mercado brasileiro. A curva de DIs reflete a expectativa de juros futuros e funciona como termômetro do custo de financiamento do governo e do setor privado. Quando a parte longa da curva sobe, o país paga mais caro para financiar sua dívida.

Empatar nas pesquisas é positivo ou negativo para o mercado?
Empatar dentro da margem de erro tende a ser negativo no curto prazo, porque elimina a previsibilidade. Investidores preferem cenários claros — independentemente de sua preferência político-ideológica — porque podem precificar risco. Indefinição cobra prêmio.

O que o petróleo em alta tem a ver com a eleição brasileira?
Pressão sobre o petróleo piora a expectativa de inflação, limita o espaço de corte de juros do Banco Central e amplia a percepção de risco-país. Tudo isso encarece o financiamento público e reduz a margem do próximo governo para a política econômica.

Quem se beneficia politicamente de juros longos em alta?
Historicamente, ninguém. Juros altos crônicos corroem popularidade de qualquer governo em exercício e enfraquecem a oposição que promete expansão de gasto sem ancoragem. A sociedade — produtiva e consumidora — é quem mais perde.

As pesquisas podem mudar esse cenário?
Sim. Uma definição mais nítida de candidatos, somada a propostas econômicas com lastro fiscal verificável, tende a reduzir o prêmio de risco. Da mesma forma, a dissipação da tensão no Oriente Médio aliviaria a pressão externa. O mercado reagirá conforme esses dois vetores se moverem.

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