A Bússola NacionalAnálise política
Economia e Política

Endividamento das famílias: Fazenda omite custo do crédito

A Fazenda diz que a dívida das famílias está estável, mas os juros do rotativo chegam a 436% ao ano. Análise crítica do discurso oficial sobre o endividamento.

Por Marina Cordovil · · 6 min de leitura

Endividamento das famílias: Fazenda omite custo do crédito
Endividamento das famílias: Fazenda omite custo do crédito

O que a Fazenda está dizendo — e por que está dizendo agora

O Ministério da Fazenda apresentou, nesta terça-feira, dados sobre o endividamento das famílias brasileiras — e a hora não é por acaso. Estamos em meio à campanha presidencial, e o tema tem sido explorado de forma sistemática pelos adversários do governo Lula para sustentar a narrativa de que a economia não está chegando a quem mais precisa.

Segundo reportagem do portal Globo, a defesa técnica da equipe econômica tem dois pilares: o estoque da dívida das famílias está praticamente estável nos últimos três anos, e o que pesa no orçamento doméstico são as modalidades mais caras de crédito — em especial o rotativo do cartão e o cheque especial — justamente as mais afetadas pelo ciclo de alta da Selic.

Rafael Leão, Subsecretário de Política Macroeconômica, foi a voz escolhida para entregar a mensagem. A escolha em si diz algo: trata-se de um técnico de carreira, não de um ocupante de cargo político, o que confere à fala uma aura de "neutralidade técnica" no meio de uma disputa partidária. É estratégia de comunicação conhecida: quando o argumento político não convence, entra em campo o argumento técnico.

O argumento oficial nos seus próprios termos

Leão sustenta que o crédito está crescendo em magnitude "muito moderada" na comparação com outros períodos históricos em que a alavancagem se acelerou. A implicação é clara: não há uma explosão generalizada do endividamento, há concentração de pressão em modalidades específicas.

O número mais emblemático citado foi o do rotativo do cartão de crédito: "quase 436% ao ano". É um dado que, na superfície, contradiz a narrativa oficial — se o problema está concentrado em uma única modalidade, e essa modalidade cobra quase 436% anualmente, estamos diante de uma distorção estrutural, não de um ajuste conjuntural.

O argumento de fechamento da fala oficial é que a recente redução da Selic — de 14% para 13,75% ao ano, quinto corte consecutivo — vai gradualmente aliviando o custo dessas modalidades. Trata-se de promessa prospectiva, não de diagnóstico presente.

A leitura crítica: o custo é sintoma, não causa

Para esta análise, o enquadramento da Fazenda está parcialmente correto, mas estrategicamente incompleto. Explica-se.

O que a Fazenda prefere não destacar

O primeiro fato inconveniente: a Selic que o Ministério celebra ter começado a reduzir esteve, até pouco tempo atrás, em 14,75% — patamar que, por si só, é resultado da política inflacionária que o mesmo governo deixou assentar. Em outras palavras, o custo do crédito que hoje pesa no bolso das famílias é, em larga medida, consequência da política monetária conduzida pelo próprio governo Lula — por meio do presidente do Banco Central por ele indicado e sabatinado pelo Senado.

O segundo fato inconveniente: uma taxa de rotativo de 436% ao ano não existe por acidente de política monetária. Existe porque o Brasil tem um problema estrutural de concentração no mercado de crédito, baixa competição e tolerância regulatória com práticas abusivas. Reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual vai riscar, no máximo, a superfície de um problema cuja profundidade é outra.

O terceiro fato inconveniente: quando a Fazenda diz que a dívida está "praticamente estável", está dizendo, em termos técnicos, que as famílias não estão se alavancando além do que já estavam. Se isso for verdade, é boa notícia — e merece ser reconhecida. O problema é que "dívida estável" combinada com "crédito mais caro" significa que a mesma dívida passa a consumir uma fatia maior da renda familiar. O número nominal pode estar estável; o impacto real no orçamento, não.

O que o campo adversário diz, na sua versão mais forte

O argumento da oposição, na sua melhor versão, não é o de que as famílias estão se endividando mais: é o de que estão pagando mais caro para continuar igualmente endividadas. Trata-se de uma tese mais difícil de ser refutada do que o simples aumento numérico — e é justamente essa que o governo procura contornar ao atribuir o custo ao ciclo da Selic, como se a política monetária fosse evento exógeno, como se a condução do BC também não fosse escolha política.

Por que isso importa

Para o debate eleitoral. A fala da Fazenda é, em essência, material de campanha — ainda que vestida de linguagem técnica. Entrega à equipe econômica munição contra a narrativa de que "a economia do Lula empobreceu o povo". É legítimo como defesa política; o que não é legítimo é apresentar como diagnóstico neutro.

Para as famílias. Enquanto a redução da Selic não se transmitir efetivamente para as taxas praticadas pelos bancos — e historicamente essa transmissão é parcial e lenta —, as famílias brasileiras seguirão pagando juros abusivos. A promessa de alívio existe, mas o alívio em si é, neste momento, prospectivo.

Para a credibilidade da equipe econômica. O argumento de que a dívida está estável é tecnicamente defensável. O argumento de que o custo do crédito é culpa exclusiva do ciclo da Selic é uma simplificação. Misturar os dois numa mesma comunicação é enfraquecer a credibilidade do primeiro pela fragilidade do segundo.

Para a autonomia do Banco Central. A Fazenda cita a queda da Selic como fator de alívio — o que é correto —, mas o faz sem reconhecer que essa mesma queda demorou a chegar. Se a Selic ficou alta por mais tempo do que o necessário, o custo para as famílias também foi maior do que o necessário. É uma dívida que a autonomia do BC, paradoxalmente, permitiu acumular.

Perguntas frequentes

O endividamento das famílias brasileiras realmente cresceu?

Segundo os dados apresentados pela Fazenda, o estoque da dívida está praticamente estável nos últimos três anos. O que cresceu, na prática, foi a parcela da renda comprometida com o serviço dessa dívida — consequência direta da alta dos juros.

Por que o rotativo do cartão está em 436% ao ano?

O número foi citado pelo próprio Subsecretário Rafael Leão à imprensa. A taxa elevada reflete a combinação de política monetária com Selic alta, concentração no mercado de crédito e falhas regulatórias estruturais que o Ministério não enfrenta em sua comunicação.

O que muda, na prática, com a queda recente da Selic?

No curto prazo, pouco. A transmissão da taxa básica para as taxas dos bancos é parcial e lenta. A promessa é de que, nos próximos meses, o custo de modalidades como cheque especial e rotativo comece a ceder gradualmente — mas o efeito no bolso das famílias será paulatino.

A fala da Fazenda é política ou técnica?

As duas coisas. Os dados apresentados são técnicos, mas o momento e o enquadramento são políticos. A Fazenda tem o direito de se defender; o trabalho do analista é apontar o que está sendo omitido.

Gostou desta análise? Compartilhe com quem quer entender a política brasileira além da manchete e assine a newsletter d'A Bússola Nacional.

Leia também

Receba as análises da semana

Um resumo do que importa na política brasileira, direto no seu e-mail. Sem spam.

Ao se inscrever, você concorda com a nossa política de privacidade. É possível cancelar a qualquer momento.