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ETFs dobram em 18 meses no Brasil com aposta da XP no varejo

ETFs dobram no Brasil em 18 meses, e a aposta da XP evidencia como a iniciativa privada democratizou o mercado de capitais apesar da carga tributária elevada.

Por Heitor Vasconcelos · · 7 min de leitura

ETFs dobram em 18 meses no Brasil com aposta da XP no varejo
ETFs dobram em 18 meses no Brasil com aposta da XP no varejo

ETFs mais que dobram em 18 meses no Brasil: o que está por trás da "aposta gigantesca" da XP

O patrimônio dos ETFs listados na B3 mais que dobrou nos últimos 18 meses, mas o segmento ainda representa uma fração ínfima da indústria de fundos brasileira quando comparado a mercados maduros como Estados Unidos e Europa. Foi esse o diagnóstico de Leandro Bousquet, CEO da XP Asset Management, em entrevista ao portal InfoMoney. A declaração não é retórica de executivo: ela descreve uma mudança estrutural na forma como o brasileiro acessa o mercado de capitais — e, por extensão, no equilíbrio de poder entre o Estado e o indivíduo na administração da poupança nacional.

Os números e o que eles revelam

ETFs — Exchange Traded Funds — são fundos de índice negociados em bolsa, que replicam o desempenho de cestas de ativos (ações, renda fixa, moedas, commodities ou mesmo índices globais) a custos geralmente mais baixos que os fundos tradicionais. A categoria não é nova, mas só recentemente ganhou tração relevante no Brasil.

  • O volume sob gestão nessa classe dobrou em um ano e meio, segundo os dados citados pela reportagem.
  • Apesar do salto, a participação dos ETFs na indústria de fundos brasileira segue pequena frente a mercados desenvolvidos, onde a categoria já domina parte relevante da alocação dos investidores pessoa física.
  • O movimento combina diversificação entre classes de ativos e exposição crescente a mercados internacionais — ou seja, parte do capital doméstico começa a mirar fora do país.

Bousquet resumiu a estratégia em uma frase: "A aposta da XP Asset e da XP nos ETFs é gigantesca". Em entrevista a Clara Sodré, analista de fundos da XP, ele vinculou o avanço dos ETFs a uma tendência mais ampla: a maior sofisticação do investidor brasileiro, que passou a montar carteiras com múltiplas classes de ativos em vez de se concentrar em renda fixa ou em poucos papéis.

Quem é o protagonista: a XP e a história de democratização privada

A fala de Bousquet ganha peso quando se olha o histórico da XP Asset. A gestora foi pioneira, no Brasil, em abrir ao investidor de varejo o acesso a mercados antes reservados a grandes instituições — primeiro fundo de private equity, primeiro de infraestrutura e primeiro de venture capital voltados ao público pessoa física, segundo a reportagem.

Essa trajetória importa para a análise política por um motivo simples: ela foi conduzida por uma empresa privada, sem imposição regulatória e sem programa estatal. Foi o mercado, respondendo a uma demanda reprimida, construindo produto. Onde o Estado demorou a oferecer alternativas (como ocorre historicamente na previdência complementar aberta), a iniciativa privada ocupou o vácuo.

Para uma leitura liberal, o caso é emblemático: a democratização do acesso a investimento no Brasil veio, em larga medida, de baixo para cima — da oferta privada — e não de cima para baixo, via política pública.

O atraso relativo do Brasil e o que ele diz sobre o ambiente regulatório

Se os ETFs mais que dobraram e mesmo assim seguem pequenos, é razoável perguntar por que o país demorou tanto a incorporar um instrumento banal em Nova York ou em Londres. A resposta passa por três vetores que qualquer analista de política econômica reconhece:

  1. Carga tributária elevada e mal desenhada sobre investimentos. O Brasil tributa aplicações financeiras com alíquotas que, somadas a IOF, "come-cotas" e à tabela regressiva do IR, corroem o retorno líquido de forma especialmente dura no longo prazo. Isso tira competitividade dos produtos de varejo e empurra o investidor para o conservadorismo.
  2. Dominância histórica da renda fixa pública. Por décadas, o investidor brasileiro foi educado — pela inflação, pelos juros e pela comunicação oficial — a comprar títulos do Tesouro. A cultura do "Tesouro Direto como destino final" atrasou a migração para fundos, ações e ETFs.
  3. Regulação da CVM e complexidade operacional. A Comissão de Valores Mobiliários evoluiu na aceitação de novos produtos, mas a estrutura tributária e as amarras de alguns veículos ainda travam a expansão acelerada vista lá fora.

Não há, aqui, juízo moral sobre reguladores. Há um fato: enquanto o ambiente de negócios não melhora — e isso inclui segurança jurídica, previsibilidade tributária e liberdade para oferta de produtos —, o mercado se desenvolve em câmera lenta.

O contraponto que precisa ser enfrentado de frente

A narrativa de "democratização via mercado" tem críticos de peso, e este texto precisa registrá-los antes de rebatê-los:

Para uma leitura de esquerda, a expansão de ETFs e fundos alternativos é vista com desconfiança porque (a) expõe o investidor de menor capital a riscos antes restritos a grandes fortunas; (b) tende a ocorrer em ciclos de aperto monetário, quando o retorno da renda fixa pública cai e o capital migra para produtos mais arriscados; e (c) deslocaria poupança da previdência pública, enfraquecendo o INSS no longo prazo. Há, ainda, o alerta legítimo de que a "democratização" foi precedida por casos de produto mal vendido a varejo, o que exige cuidado regulatório.

O argumento é sério e tem fundamento empírico em episódios passados. Mas a resposta liberal a ele também é clara: o problema não é o produto, é a informação. Investidor mal informado compra mal em qualquer classe de ativo — inclusive em título público mal calibrado. A solução não é proibir ou restringir a oferta privada de produtos diversificados, e sim exigir suitability (adequação ao perfil do cliente), transparência de custos e educação financeira de verdade, não paternalismo. Restringir a oferta porque parte do público não a entende é tratar o adulto como criança — e empobrece quem mais precisa de rentabilidade real para complementar a aposentadoria.

Por que isso importa agora

O fato de a XP, uma das maiores plataformas independentes do país, tratar os ETFs como "aposta gigantesca" não é trivial. Indica três coisas concretas:

  • Para o investidor pessoa física: a porta de entrada para uma carteira diversificada está mais barata e mais simples. Em vez de escolher ativo por ativo, é possível comprar um produto que entrega exposição ampla com custo menor que o de fundos tradicionais.
  • Para o sistema financeiro: a tendência é de migração de parte relevante do estoque da renda fixa pós-fixada e dos fundos tradicionais para veículos de índice, o que pode pressionar margens de gestoras menos inovadoras — saudável, do ponto de vista concorrencial.
  • Para o debate sobre previdência: a expansão de ETFs e fundos alternativos é mais um indicador de que a poupança previdenciária brasileira está, gradualmente, deixando de ser monopólio do Estado. Isso tem consequência fiscal e política: se o indivíduo consegue construir patrimônio próprio com mais facilidade, a dependência do INSS tende a se reduzir nas faixas de renda média e alta — o que recoloca na mesa a discussão sobre o tamanho e a sustentabilidade do sistema público.

Do ponto de vista desta análise, o movimento é positivo. Mais opções, mais concorrência, mais transparência de custo e mais responsabilidade individual sobre o patrimônio é o caminho. O Estado deve garantir regra clara, fiscalização e educação financeira — não decidir, em lugar do cidadão, onde ele deve aplicar o que economizou.

Perguntas frequentes

O que é um ETF, em termos simples?

É um fundo de índice negociado em bolsa como se fosse uma ação. Em vez de escolher ativo por ativo, o investidor compra um único ticker que replica uma cesta — por exemplo, o Ibovespa, o S&P 500 ou uma carteira de títulos do Tesouro americano.

Por que os ETFs cresceram tanto no Brasil nos últimos anos?

A combinação de três fatores: queda da taxa básica de juros, que empurrou o investidor para fora da renda fixa tradicional; maior oferta de produtos por gestoras e corretoras; e melhoria da educação financeira do varejo, ainda que insuficiente.

ETFs são mais arriscados que fundos tradicionais?

Depende do que o ETF replica. ETFs de renda fixa tendem a ser menos voláteis; ETFs de ações ou de mercados emergentes, mais. Em geral, têm custos menores e maior transparência de composição — o que, na prática, costuma ser uma vantagem para o investidor.

O que falta para o Brasil ter um mercado de ETFs do tamanho dos Estados Unidos?

Reforma tributária sobre investimentos, previsibilidade regulatória e expansão da educação financeira. A oferta de produtos já existe; o que trava a demanda é custo, complexidade e desconfiança cultural.

A expansão dos ETFs é boa ou ruim para a previdência pública?

Depende do ângulo. Para quem defende previdência pública forte, a migração para produtos privados é vista como erosão da base de financiamento. Para quem prefere menos dependência do Estado, é sinal de amadurecimento do investidor. Os dados não apontam colapso do INSS no curto prazo — mas indicam que o monopólio estatal sobre a poupança previdenciária está, lentamente, se dissolvendo.

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