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Kushner em Moscou: EUA-Rússia negociam Ucrânia sem o Brasil

Brasil perde protagonismo diplomático na crise da Ucrânia ao ver EUA e Rússia negociarem diretamente por enviados pessoais de Trump sem carreira diplomática.

Por Beatriz Andrade Lima · · 6 min de leitura

Kushner em Moscou: EUA-Rússia negociam Ucrânia sem o Brasil
Kushner em Moscou: EUA-Rússia negociam Ucrânia sem o Brasil

O desembarque em Moscou de Jared Kushner e Steve Witkoff — em um Boeing da Força Aérea dos Estados Unidos, com escala em Helsinque — acompanhado de uma trégua de três dias declarada simultaneamente por Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky abre uma janela rara para uma negociação direta sobre a guerra na Ucrânia. Segundo o portal Terra.com.br, a pausa nos bombardeios sobre Kiev coincide com a chegada dos enviados especiais de Donald Trump, e o Kremlin confirmou que Putin planeja se reunir com o presidente norte-americano. A cena tem todos os ingredientes do estilo trumpista de diplomacia: personalizada, opaca e conduzida fora dos canais multilaterais que marcaram as últimas décadas de política externa americana. Para o Brasil, o movimento interessa menos pelo que resolve hoje e mais pelo que revela sobre como o mundo vem sendo conduzido.

Quem está negociando — e por que o formato importa

Kushner é genro de Trump e nunca ocupou cargo diplomático. Foi peça central nos Acordos de Abraão, que normalizaram relações entre Israel e alguns países árabes, e atuou como conselheiro sênior da Casa Branca no primeiro mandato. Witkoff é empresário do setor imobiliário, alçado a enviado especial em missões no Oriente Médio e, mais recentemente, também no front Ucrânia-Rússia. Do lado russo, o anfitrião foi Kirill Dmitriev, conselheiro do Kremlin para cooperação econômica internacional, e não um chanceler ou diplomata de carreira. É uma negociação entre não-diplomatas, com acesso direto ao centro de poder das duas partes.

Há, é preciso registrar, uma lógica nesse formato. Acordos como o de Camp David, em 1978, ou os próprios Acordos de Abraão foram viabilizados por canais paralelos, à margem dos burocratas. A crítica que se faz aqui não é à existência de enviados especiais — ela é ao uso deles como substituto permanente da máquina institucional. Quando a negociação passa a ser conduzida por pessoas que não respondem ao Congresso, não falam em nome de um mandato parlamentar e não publicam seus termos, o risco de "acordos entre cavalheiros" sem transparência aumenta — e a conta, mais cedo ou mais tarde, recai sobre o contribuinte.

A trégua de três dias: gesto, estratégia ou teste?

Pausas de curto prazo sem mecanismo de monitoramento, sem retirada de tropas e sem mediador independente não são, por si só, solução. Servem a outra função: criar ambiente para foto, testar a resposta da outra parte e medir a temperatura política doméstica em Moscou e Kiev. A Rússia tem histórico de gestos análogos — anunciou unilateralmente cessares em datas simbólicas em 2022 e 2024, como a Páscoa ortodoxa, sem que isso tenha alterado a dinâmica do conflito.

Há também um componente de sinalização interna. Para a opinião pública russa, mostrar que Moscou está disposta a conversar enquanto a narrativa oficial sustenta que a "operação militar especial" segue seu curso é movimento útil. Para o lado ucraniano, responder com medida equivalente é forma de não aparecer como obstáculo à paz. O cumprimento efetivo da trégua, no entanto, é quase impossível de verificar em 72 horas, especialmente em um conflito marcado por ataques de drones de longo alcance que partem de locais distantes dos alvos nominais.

O que está em jogo para o Brasil

A primeira consequência é diplomática. O governo Lula apostou, em 2024 e 2025, em uma proposta própria de mediação para a guerra na Ucrânia, articulada em fóruns multilaterais como os Brics e a Assembleia Geral da ONU. A negociação direta entre Washington e Moscou, conduzida por canais bilaterais opacos, reduz esse espaço. Quando as duas maiores potências militares tratam entre si, a sala onde o Brasil gostaria de sentar fica menor — não por exclusão formal, mas por irrelevância prática. Para uma política externa que se vende como "voz do Sul", a lição é dura: mediadores só sentam à mesa quando têm densidade econômica, militar ou geográfica.

A segunda é econômica. O Brasil importa volume significativo de fertilizantes da Rússia, e a logística do Mar Negro segue afetada pelo conflito. Qualquer abertura negociada que estabilize rotas marítimas e traga previsibilidade ao mercado de commodities é potencialmente positiva para o agronegócio brasileiro, que depende da importação de insumos e da exportação de grãos por rotas globais. Para o consumidor, eventual queda nos preços de óleo diesel e gás natural — derivados de qualquer desfecho que reduza a pressão sobre a energia europeia — viria como alívio em uma economia já saturada de tributos.

A terceira é de leitura política interna. Para a centro-direita, há um experimento em curso que merece acompanhamento atento: o modelo Trump de diplomacia — bilateral, personalizado, conduzido por figuras sem expertise formal — produz resultados superiores ao modelo multilateral tradicional, fracassado em série desde Minsk II? Ou estamos diante de mais uma rodada de gestos midiáticos sem entrega concreta, desta vez sob gestão americana?

Por que isso importa

O conflito na Ucrânia já produziu efeitos concretos sobre a vida do brasileiro: pressão sobre o preço dos combustíveis, frete marítimo elevado, encarecimento de fertilizantes e instabilidade em cadeias agroindustriais. Uma solução negociada — desde que respeite o direito de autodeterminação dos ucranianos e não premie a agressão territorial — é do interesse do Brasil. Mas o como dessa solução importa tanto quanto o se.

Se o modelo Trump funcionar, espere mais diplomacia personalizada, mais negociações bilaterais conduzidas por figuras próximas a líderes e mais enfraquecimento de instâncias multilaterais — inclusive as que o Brasil ajudou a construir, como os Brics e o G20. Se falhar, voltaremos ao impasse anterior, mas com a credibilidade de qualquer iniciativa diplomática ainda mais arranhada. Em ambos os cenários, o Brasil precisa recalibrar sua expectativa de protagonismo internacional e voltar a tratar política externa como instrumento de interesses concretos — segurança energética, mercado para o agronegócio, estabilidade regional — não como vitrine ideológica.

Perguntas frequentes

Quem são Jared Kushner e Steve Witkoff?

Kushner é genro de Donald Trump, ex-conselheiro sênior da Casa Branca e articulador dos Acordos de Abraão, que normalizaram relações entre Israel e alguns países árabes. Witkoff é empresário do setor imobiliário, nomeado enviado especial dos Estados Unidos em missões no Oriente Médio e, mais recentemente, também no front Ucrânia-Rússia. Nenhum dos dois passou pelo serviço diplomático de carreira do Departamento de Estado.

A trégua de três dias tem chance de se estender?

Não há, segundo a reportagem do Terra.com.br, mecanismo de monitoramento, cronograma de negociação posterior nem condições públicas para uma pausa mais longa. A medida tem, até o momento, caráter declaratório — e seu cumprimento real é difícil de verificar em meio a uma guerra com uso intensivo de drones de longo alcance.

O que muda para o Brasil com essa rodada?

Três efeitos principais: reduz o espaço diplomático para a proposta brasileira de mediação, pode melhorar a previsibilidade no mercado de fertilizantes e commodities agrícolas se estabilizar o Mar Negro, e expõe o governo brasileiro à realidade de que, sem densidade econômica e militar, o país não senta à mesa quando as grandes potências decidem.

A proposta de paz do governo Lula foi ignorada?

Formalmente, não foi descartada por Washington nem por Moscou. Na prática, foi simplesmente contornada. Quando duas partes resolvem tratar diretamente, a intermediação de terceiros deixa de existir não por veto explícito, mas por irrelevância.

Qual o papel do Congresso americano nessa negociação?

Nenhum visível até aqui. O formato é presidencial e personalista, com enviados sem ratificação parlamentar visível nem transparência sobre termos eventualmente acertados. Para quem defende freios institucionais à ação do Executivo — em qualquer país —, esse é um dado que merece atenção crítica.

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