Da conciliação à causa própria: o que mudou em "Fauda"
A quinta temporada de "Fauda", que estreou na Netflix em 8 de outubro, marca o fim da pretensão conciliatória que acompanhou a série desde a sua criação. Os roteiristas israelenses Avi Issacharoff e Lior Raz — ambos veteranos das Forças de Defesa de Israel — admitem, em entrevista ao The New York Times reproduzida pelo portal Abril.com.br, que os novos episódios foram escritos como resposta direta aos ataques de 7 de outubro de 2023. Não se trata de mudança sutil de tom: é um reposicionamento explícito da obra diante de um conflito que, para os realizadores, deixou de admitir zona de conforto.
Em 2020, quando a primeira produção ganhou repercussão global, Issacharoff garantiu à Veja que a intenção era "olhar para os dois lados e tirar o espectador da zona de conforto". Quatro anos depois, esse equilíbrio foi descartado. A nova temporada acompanha o agente Doron e outros militares israelenses desde o dia dos atentados até o presente, com personagens secundários que apoiam a causa palestina descritos pela crítica israelense como pouco profundos e facilmente descartáveis pela trama.
A virada acontece em um contexto específico
Os ataques de 7 de outubro de 2023 ceifaram cerca de 1.200 vidas israelenses, segundo o relato reproduzido pelo portal Abril.com.br. Em resposta, a operação militar em Gaza provocou a morte de mais de 35.000 palestinos, conforme os mesmos números reportados pela fonte. O conflito segue ativo sob um cessar-fogo instável. Para os criadores de "Fauda", não há como escrever ficção sobre esse período sem tomar partido.
Os criadores e o peso da experiência pessoal
O elemento mais relevante para entender a mudança de tom é biográfico, não ideológico. Tanto Issacharoff quanto Raz serviram nas Forças de Defesa de Israel antes de se tornarem dramaturgos. Um membro da equipe, Matan Meir, foi morto em combate em 2023, aos 38 anos. O ator Idan Amedi sofreu ferimentos graves em circunstâncias similares. Não se trata, portanto, de autores comentando um conflito à distância: são pessoas que perderam colegas e companheiros de profissão.
Issacharov resumiu a motivação em uma frase direta: escrever a quinta temporada era uma necessidade "face à dor, à tristeza, à catástrofe, à perda de pessoas e à perda de entes próximos". Esse dado muda a chave de leitura. O que poderia ser interpretado como propaganda é, antes, a tentativa de processar um trauma coletivo por meio da ferramenta que os autores dominam — a narrativa.
O outro lado da obra: o argumento contrário
Antes de avaliar a virada, é preciso registrar a crítica mais séria que se faz a esse movimento. Artistas e comentaristas argumentam que o "abandono da conciliação" sempre foi uma escolha, não uma fatalidade:
- A redução dos personagens pró-Palestina a figuras rasas pode empobrecer a discussão sobre um conflito com mais de sete décadas de profundidade histórica.
- Os 35.000 mortos em Gaza são, em proporção e número absoluto, uma tragédia humanitária de outra escala, e tratá-los como coadjuvante moral da narrativa é uma escolha editorial com consequências.
- A recusa em "olhar para os dois lados" pode, na prática, transformar uma série de ficção em instrumento de mobilização — o que nem sempre é incompatível com a arte, mas exige que o leitor saiba que está consumindo um panfleto, não uma obra dialética.
Esse é o argumento mais forte da crítica, e ele precisa ser levado a sério. A Bússola não o descarta: a crítica à parcialidade da nova temporada é legítima e tecnicamente consistente. O que se pode discutir, a partir daí, é o que se ganha e o que se perde com a mudança.
O que se ganha: o direito de chamar massacre de massacre
A fala mais polêmica de Issacharoff no New York Times merece ser citada em sua versão completa: "Você pode ser anti-Israel e pode dizer que Israel está agindo errado em Gaza. Isso é, às vezes, verdade. Ainda assim, aqueles que estão criticando a nação enquanto ignoram as atitudes do Hamas demonstram que não estão propriamente educados sobre o assunto."
Para um analista de centro-direita, há nessa fala um elemento que precisa ser preservado na conversa pública: a recusa em tratar como equivalentes a ação terrorista de 7 de outubro e a reação militar subsequente. Equiparar um massacre de civis desarmados a uma operação de Estado é, em si, uma operação retórica que desumaniza as vítimas do primeiro evento. A Bússola sustenta que essa distinção não é propaganda: é requisito mínimo de clareza moral.
Por outro lado, é igualmente necessário reconhecer que operações militares contra alvos em áreas densamente povoadas produzem civis mortos, e que a proporção entre combatentes e não combatentes entre os 35.000 mortos em Gaza é uma questão em aberto, não um dado pacífico. A análise crítica do desempenho israelense em Gaza pode coexistir com a condenação inequívoca do Hamas e dos ataques de outubro — são duas conversas separadas.
O que isso revela sobre cultura, criação e posicionamento
O episódio "Fauda" não é um caso isolado. A tendência mais ampla nas últimas décadas é a de que produtos culturais de massa percam a pretensão de neutralidade e adotem posições explícitas — seja no audiovisual, na música, no jornalismo, na literatura. O que a nova temporada da série israelense ilustra, com clareza incomum, é o momento em que a experiência pessoal do criador se sobrepõe ao projeto estético.
Há aqui um paradoxo que o leitor de centro-direita precisa digerir: a defesa da liberdade de expressão — central para a tradição liberal — inclui o direito de um autor escrever uma obra parcial, enviesada, mobilizadora, contanto que o consumidor saiba o que está consumindo. O problema não é a parcialidade em si; é quando a parcialidade é vendida como equilíbrio.
A crítica israelense Einav Schiff elogiou a temporada por capturar "o desejo ardente por vingança mesmo às custas de um colapso moral". Esse diagnóstico descreve com precisão o que a série faz: ela não finge que vingança é virtude. Mostra o preço moral que a busca por vingança cobra — inclusive de quem a exerce. Isso é, paradoxalmente, mais honesto do que a conciliação retórica que marcou temporadas anteriores, mesmo que seja menos confortável para plateias estrangeiras.
Por que isso importa
Para o leitor brasileiro, o caso interessa menos pelo conteúdo específico de "Fauda" e mais pelo que ele ensina sobre como arte, política e experiência pessoal se entrelaçam em períodos de conflito. Algumas consequências analíticas merecem destaque:
- Produtos culturais são termômetros de processos políticos. A mudança de tom em "Fauda" é parte de uma transformação maior na sociedade israelense após outubro de 2023 — e segue um padrão em que a arte acompanha, em vez de preceder, a consolidação de uma posição coletiva.
- O ativismo pela experiência vivida ganhou peso normativo. Quando os autores de uma série são veteranos que perderam colegas, o argumento de que "eles não sabem do que falam" perde força. O critério de legitimidade deslocou-se: não basta ter estudado o tema; é preciso ter vivido suas consequências.
- A simetria forçada enfraquece o debate. Tratar lados desiguais como equivalentes em nome de "equilíbrio" não é imparcialidade — é distorção. Esse princípio, central para uma leitura de centro-direita, está no cerne da fala de Issacharoff e merece ser preservado mesmo quando se discorda do tom da série.
- Brasil não está alheio. O posicionamento do governo brasileiro sobre o conflito — incluindo as votações na ONU e a abertura de uma embaixada palestina — é um tema doméstico que divide a opinião pública brasileira. Casos como o de "Fauda" ajudam a calibrar a leitura sobre como cada narrativa internacional é construída.
Perguntas frequentes
"Fauda" é uma série pró-Israel desde o início? Não. Segundo o portal Abril.com.br, em 2020 Issacharoff definiu a proposta da série como "olhar para os dois lados". O que muda na quinta temporada é o abandono explícito dessa pretensão conciliatória, em resposta aos eventos de outubro de 2023.
Os criadores têm ligação com as Forças Armadas israelenses? Sim. Tanto Avi Issacharoff quanto Lior Raz são veteranos das Forças de Defesa de Israel, e a equipe foi diretamente afetada pelo conflito em curso: um membro foi morto em combate em 2023, e um ator sofreu ferimentos graves em circunstâncias similares.
A nova temporada foi escrita como resposta política? Os próprios autores confirmam que sim. Issacharoff classificou a escrita como uma necessidade diante da "dor, tristeza, catástrofe e perda". Não há, no entanto, alegação de neutralidade — a parcialidade é declarada.
O que está em jogo na mudança de tom? A distinção entre a ação terrorista de 7 de outubro e a reação militar em Gaza, que Issacharoff defende como centrais. Para os autores, confundir as duas coisas equivale a legitimar o massacre original. A Bússola registra que essa distinção é defensável, mas não esgota a análise da situação em Gaza.
Por que esse caso importa para o leitor brasileiro? Porque o exemplo israelense ilustra um padrão global: produtos culturais de massa estão abandonando a pretensão de neutralidade e assumindo posições explícitas. Entender como e por que isso acontece é parte da alfabetização política que esta análise se propõe a oferecer.
Gostou desta análise? Compartilhe com quem quer entender a política brasileira além da manchete e assine a newsletter d'A Bússola Nacional.



