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Gestoras de fundos condicionam aposta no Brasil ao 2º turno

Gestoras ampliam exposição ao Brasil, mas 13 de 17 citam o segundo turno como gatilho para reduzir risco; a alta ainda não prova confiança econômica duradoura.

Por Heitor Vasconcelos · · 7 min de leitura

Gestoras de fundos condicionam aposta no Brasil ao 2º turno
Gestoras de fundos condicionam aposta no Brasil ao 2º turno

A pesquisa com gestoras de fundos mostra que a aposta em ativos brasileiros ganhou força após o primeiro turno presidencial, mas permanece condicionada a um evento político imediato: o resultado da disputa de 25 de outubro. Segundo o portal InfoMoney, 13 das 17 gestoras que responderam sobre o que as faria reduzir de forma relevante sua exposição citaram o segundo turno. O sinal importa porque os preços subiram, mas a confiança dos investidores ainda não equivale a uma avaliação positiva da economia nem a um compromisso de longo prazo com o país.

O que os dados mostram — e o que não mostram

O levantamento da equipe de Análise de Fundos da XP ouviu 24 gestoras de multimercados macro na segunda-feira, 5, um dia depois do primeiro turno. Entre as consultadas, 58% disseram operar com orçamento de risco em Brasil acima da média dos 12 meses anteriores; 17% estavam bem acima dessa média. Outras 38% estavam em linha com seu padrão, e 4%, abaixo. No total, 71% afirmaram que aumentariam a exposição local.

O resultado foi divulgado na quarta-feira, 7, no mesmo pregão em que o Ibovespa avançou 7,70% e fechou perto de 207 mil pontos, acima de 200 mil pela primeira vez. O dólar caiu 4,12%, para R$ 5, e depois recuou ainda mais. Na votação de primeiro turno, o senador Flávio Bolsonaro terminou à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Esses números revelam uma mudança de posicionamento entre as gestoras ouvidas, não uma previsão segura do resultado eleitoral. A amostra é de 24 instituições, e a pergunta sobre os fatores que levariam a cortes relevantes teve 17 respostas. Tampouco a valorização das ações e do real prova, por si só, que os investidores revisaram para melhor as perspectivas de crescimento, inflação ou contas públicas.

Há uma distinção importante no próprio levantamento: parte considerável do alívio nos preços foi atribuída à compressão do prêmio de risco e a fatores técnicos, e não a uma melhora do cenário econômico. A pesquisa Pré-Copom de setembro, com 20 gestoras, já havia registrado essa tensão: 70% estavam compradas em ações brasileiras, embora 55% avaliassem negativamente a economia do país — o pior nível da série mencionada.

Por que o segundo turno virou o principal gatilho?

O mercado está tentando precificar quem comandará o Executivo e quais condições políticas terá para governar. A Presidência influencia a condução da política econômica e encaminha propostas ao Congresso, mas não decide sozinha o orçamento, a aprovação de leis ou a implementação de reformas. O Legislativo eleito também importa: deputados e senadores discutem e votam medidas que afetam gastos, receitas e regras econômicas.

Por isso, a eleição é um marco de incerteza para quem administra recursos. O resultado pode alterar as expectativas sobre prioridades do próximo governo, capacidade de formar maioria e disposição para enfrentar escolhas fiscais difíceis. Mas a pesquisa não informa qual desfecho as gestoras preferem, nem permite afirmar que a alta dos ativos represente uma adesão a um candidato específico. Ela mostra que o resultado eleitoral é o fator mais citado para uma eventual redução de risco.

Essa concentração em uma data definida sugere um horizonte de posicionamento mais curto do que o habitual para a classe, conforme a leitura do levantamento. Em termos práticos, parte do capital pode estar buscando aproveitar uma janela de valorização, mas pronta para sair se o evento político alterar as expectativas. É uma aposta tática: não necessariamente uma declaração de confiança duradoura na economia brasileira.

Para esta análise, há um ponto de cautela. Quando o preço dos ativos depende muito de uma expectativa eleitoral, o movimento pode ser rápido nos dois sentidos. Uma alta concentrada não elimina problemas estruturais, e uma queda posterior pode encarecer o financiamento de empresas e do próprio governo. O mercado pode reagir a sinais de previsibilidade, mas essa reação só se sustenta se as decisões posteriores forem compatíveis com as expectativas criadas.

Congresso, ajuste fiscal e limites do resultado eleitoral

O levantamento também aponta que 67% das gestoras veem a composição do Congresso a partir de 2027 como um fator que aumenta a chance de aprovação de uma agenda de ajuste. Outras 29% atribuem ao Legislativo um efeito relevante por si só. A maioria, porém, condiciona o avanço dessa agenda à atuação do Executivo.

Essa ressalva descreve uma realidade institucional: o Congresso pode aprovar, modificar ou rejeitar propostas, mas uma agenda fiscal exige articulação política e iniciativa do governo em medidas que dependem dele. Uma composição parlamentar vista como mais favorável não garante, automaticamente, redução de despesas ou equilíbrio das contas. O resultado depende do conteúdo das propostas, da negociação e da disposição do Executivo de sustentá-las.

Do ponto de vista de quem paga impostos e depende de serviços públicos, “ajuste” não deve ser tratado como palavra de ordem suficiente. É necessário avaliar quais gastos serão revistos, quais receitas serão propostas e quem arcará com os custos. Aumentar tributos pode elevar o peso sobre famílias e empresas sem corrigir incentivos que pressionam a despesa. Por outro lado, prometer cortes sem detalhar medidas tampouco oferece segurança a investidores ou contribuintes.

O argumento mais forte em favor do otimismo é que uma combinação de expectativa de mudança política e Congresso mais receptivo a medidas fiscais pode reduzir a incerteza e atrair capital. Se isso vier acompanhado de regras previsíveis, controle do gasto e respeito a contratos, a melhora dos preços pode refletir uma perspectiva econômica mais consistente. Mas os dados citados ainda não demonstram que essa revisão de cenário ocorreu: a avaliação negativa da economia registrada em setembro e o peso do resultado eleitoral recomendam prudência.

Por que isso importa

O comportamento de fundos não substitui a decisão do eleitor, nem confere mandato político a gestores. Ele importa porque o preço do risco afeta a economia real: oscilações na Bolsa e no câmbio podem influenciar decisões de investimento, custos de financiamento e expectativas de empresas e consumidores. Ainda assim, a valorização dos ativos não é um certificado de aprovação para qualquer programa de governo.

O teste virá depois da eleição. O próximo governo precisará transformar expectativas em medidas verificáveis, especialmente na condução das contas públicas. E o Congresso terá papel decisivo ao examinar essas propostas. Para o eleitor, a questão não é apenas qual candidato vence, mas quais compromissos serão apresentados, como serão financiados e que efeitos terão sobre impostos, serviços, emprego e liberdade para empreender.

O recado das gestoras é, portanto, duplo: existe apetite por Brasil e a perspectiva de um Congresso mais favorável ao ajuste é considerada relevante. Mas esse apetite está vulnerável ao resultado eleitoral e ainda convive com dúvidas sobre a economia. Confundir uma alta de mercado com confiança estrutural seria ler além do que os dados autorizam.

Perguntas frequentes

As gestoras estão otimistas com a economia brasileira?

Não necessariamente. A maioria das consultadas estava com risco alocado em Brasil acima da média recente, mas o levantamento ressalta que parte do alívio nos ativos veio de fatores técnicos e da redução do prêmio de risco, não de uma revisão econômica.

O levantamento prevê quem vencerá o segundo turno?

Não. A pesquisa registra posições e respostas de gestoras, não uma previsão eleitoral. O resultado de 25 de outubro aparece como o principal fator que poderia levar várias delas a reduzir a exposição ao país.

Uma composição favorável do Congresso garante ajuste fiscal?

Não. Embora 67% das gestoras vejam aumento da chance de aprovação de uma agenda de ajuste, elas condicionam o avanço à atuação do Executivo. Aprovação depende de propostas concretas e de articulação política.

O que pode acontecer com os mercados depois da eleição?

Os dados não permitem prever a direção dos preços. A reação dependerá das expectativas que o resultado gerar e, depois, das decisões do governo e do Congresso, sobretudo em matéria fiscal e de previsibilidade econômica.

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