Haddad foi à coletiva para virar o jogo. Os números que ele próprio trouxe, porém, levantam mais perguntas do que resolvem sobre o futuro fiscal do maior Estado do país — e expõem um contraste desconfortável para o PT diante do eleitorado que pretende conquistar.
O que Haddad apresentou — e o que os números realmente dizem
Os dados citados pelo ex-ministro da Fazenda, atribuídos a levantamento da Folha de S.Paulo desta segunda-feira (24), não são marginais. Segundo o portal Terra.com.br, que reproduziu a coletiva, Tarcísio de Freitas recebeu São Paulo com saldo líquido de R$ 19,5 bilhões ao final de 2022 e o Estado terminou 2025 com R$ 5 bilhões, redução de aproximadamente 74% no estoque de caixa em três anos.
O investimento acumulado em quatro anos caiu de R$ 76 bilhões para R$ 74 bilhões, variação nominal de cerca de 2,6% — número que, sem correção pela inflação do período, tende a subestimar a erosão real. Mais grave, segundo Haddad, é a combinação simultânea de queda de caixa, queda de investimento e virada de superávit corrente para déficit.
Quando os três movimentos ocorrem ao mesmo tempo, a hipótese mais simples é a de que o governo estadual gastou além da arrecadação e consumiu poupança acumulada para manter o nível de despesa. Esse é o argumento do candidato do PT, e ele é, no mínimo, plausível à luz dos números que apresentou.
O outro lado da narrativa — que Haddad omitiu
A gestão Tarcísio fez escolhas fiscais explícitas. A redução do ICMS sobre combustíveis, energia, telecomunicações e itens da cesta básica representou perda de arrecadação estadual na casa de dezenas de bilhões de reais ao longo do mandato. Foi decisão de política tributária — não acidente de percurso.
A pergunta que Haddad não responde é se essa renúncia foi compensada por crescimento da base econômica que, no médio prazo, recupere a arrecadação. Críticos do lado liberal argumentam que desoneração tributária é escolha legítima quando amplia a atividade produtiva; críticos do lado desenvolvimentista defendem que o Estado precisa preservar folga fiscal para investir. Há, ainda, o fato inconveniente de que Haddad, como ministro da Fazenda entre 2023 e 2024, foi o arquiteto do arcabouço fiscal que substituiu o teto de gastos — e cuja efetividade tem sido questionada por boa parte do mercado financeiro. Haddad cobra de Tarcísio o que não conseguiu entregar em escala muito maior à União.
A ameaça à segurança contratual
A parte mais relevante da coletiva, do ponto de vista do contribuinte e do investidor, foi a promessa de Haddad de fazer um "pente fino" em todos os contratos de concessão assinados pela gestão atual, caso seja eleito.
"Vamos ter de fazer um pente fino, rever contrato por contrato, cortando na carne, sem prejudicar o trabalhador, a sala de aula e o posto de saúde, mas cortando em custeio, cortando em luxo, em benefício", afirmou o candidato.
A frase merece leitura técnica. Revisão contratual em massa, com governo assumindo publicamente a possibilidade de alteração unilateral, é o tipo de sinal que afasta capital privado de longo prazo. Concessões em infraestrutura — rodovias, trens metropolitanos, saneamento — operam com horizonte de 20 a 35 anos. A previsibilidade jurídica é o ativo mais valioso do modelo. Anunciar que contratos serão revistos abre flanco para contestações judiciais, eleva o prêmio de risco e encarece financiamentos. Pode até produzir economia de caixa no curto prazo; no médio prazo, aumenta o custo de capital para o próprio Estado.
Sabesp, Procon e a disputa narrativa sobre a privatização
Haddad aproveitou para atacar a privatização da Sabesp, concluída em 2024, usando o aumento de reclamações no Procon como prova de precarização. É argumento familiar no debate sobre desestatizações e merece ser examinado com cuidado, não encampado por nenhum dos lados.
O aumento de queixas em órgão de defesa do consumidor pode refletir três cenários distintos, nem sempre separáveis: (i) piora efetiva do serviço; (ii) maior conscientização da população sobre seus direitos; (iii) maior visibilidade do canal de reclamação após a mudança societária. A narrativa de Haddad assume automaticamente o cenário (i) e descarta os demais, sem apresentar métricas operacionais que permitam comparar cobertura, perdas na rede e continuidade antes e depois da desestatização. Avaliar o resultado da privatização antes de completada a primeira fase de investimentos, em setor com déficit histórico expressivo de universalização, é cedo do ponto de vista operacional.
A geografia política da campanha
Dois movimentos de agenda na própria reportagem chamam atenção. Haddad cancelou caminhada em São Miguel Paulista, na Zona Leste — reduto histórico do PT — e à noite participa de jantar com empresários do setor de infraestrutura.
A primeira ausência sugere ou restrição logística ou decisão estratégica de preservar energia para eventos de maior retorno midiático. A segunda confirma a estratégia de se apresentar como gestor capaz de dialogar com o capital produtivo, mirando o perfil de eleitorado que vota em Tarcísio. É o voto de centro-direita pragmático, não o voto de esquerda orgânico, que Haddad tenta ocupar — disputa interna do campo adversário.
Por que isso importa
O orçamento do governo de São Paulo é maior do que o de vários países da América Latina. A gestão fiscal do Estado afeta diretamente o custo de capital de empresas que se financiam em São Paulo, a solvência de contratos de concessão e o espaço para investimento em segurança, saúde e educação. A corrida pelo Bandeirantes em 2026 é, na prática, disputa com reflexos nacionais.
Três consequências práticas merecem monitoramento nos próximos meses:
- Para o mercado financeiro: a taxa de risco nas emissões do Tesouro paulista e o custo de captação de empresas sediadas no Estado dependem da percepção de disciplina fiscal. Se Haddad consolidar liderança nas pesquisas mantendo o discurso de revisão de concessões, o spread tende a se ajustar.
- Para os contratos vigentes: Tarcísio provavelmente precisará endurecer a defesa pública dos contratos assinados em seu mandato, sob risco de desvalorização dos ativos concedidos caso o adversário vença.
- Para o eleitor: a campanha tende a migrar do plano pessoal para o plano técnico. Comparativos objetivos de indicadores de gestão serão cada vez mais cobrados.
Há um fato inconveniente para qualquer lado que se pretenda vencedor de antemão: o eleitor paulista tem mostrado, nas últimas décadas, capacidade de punir tanto candidatos identificados com o PT federal quanto governos que percam o controle do gasto. A combinação Haddad-Tarcísio carrega essa restrição em qualquer dos resultados.
Perguntas frequentes
Os dados apresentados por Haddad são oficiais?
Foram publicados pela Folha de S.Paulo nesta segunda-feira (24) e citados por Haddad em coletiva. Até o momento, o governo Tarcísio não havia apresentado contestação pública dos números.
Tarcísio cortou investimentos ou apenas deixou de crescer?
Pelos números apresentados, o acumulado caiu em termos nominais de R$ 76 bilhões para R$ 74 bilhões — o que significa queda real mais expressiva considerando a inflação do período.
O que é o "pente fino" prometido por Haddad?
Revisão individual de contratos de concessão firmados pela atual gestão, com possibilidade de alterações unilaterais. Haddad não detalhou critérios técnicos nem apontou quais contratos seriam prioritariamente revistos.
Haddad tem credibilidade para cobrar gestão fiscal?
Foi ministro da Fazenda entre 2023 e 2024 e é o principal autor do arcabouço fiscal que substituiu o teto de gastos. Sua autoridade técnica é inegável, mas é a mesma que assina a política fiscal federal criticada por boa parte do mercado.
Por que Haddad atacou especificamente a Sabesp?
A privatização da Sabesp foi concluída em 2024 pela gestão Tarcísio. Haddad usa o aumento de reclamações no Procon como indicador de precarização, embora não tenha apresentado métricas operacionais comparativas.
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