Haddad contra o Banco Central: crítica ao juro expõe o projeto econômico do PT para São Paulo
Fernando Haddad (PT), candidato ao governo de São Paulo, subiu ao palco do Fórum Eleições 2026 da ABDIB para repetir, em tom mais duro, a crítica que acompanha o petismo desde a criação da autonomia do Banco Central: a de que a taxa Selic estaria "descalibrada" e que o ciclo de cortes deveria ter começado antes. Ao qualificar como "descabida" a política monetária vigente, o ex-ministro da Fazenda não está apenas reagindo a uma decisão técnica do Comitê de Política Monetária (Copom) — está sinalizando, a menos de um ano do pleito paulista, qual a relação que pretende ter com instituições-chave da economia caso chegue ao Palácio dos Bandeirantes.
O contexto institucional que Haddad prefere não lembrar
Para avaliar a declaração, é preciso recuar ao ponto de partida institucional que o PT, em diferentes momentos, tentou evitar: a aprovação da autonomia técnica e operacional do Banco Central, formalizada pela Lei Complementar nº 179/2021. O modelo estabelece mandato fixo para o presidente da autarquia, metas a serem perseguidas e blindagem contra pressões políticas de curtíssimo prazo. Foi uma resposta, entre outras coisas, à repetição histórica de críticas vindas do Executivo quando o juro subia para combater inflação.
Antes da autonomia, o Brasil viveu um ciclo de inflação persistentemente acima da meta, com o IPCA acelerando para dois dígitos em 2022. O aperto promovido pelo então comando do BC levou a Selic a 15% ao ano, patamar mantido por cinco reuniões consecutivas antes do início do ciclo de cortes citado por Haddad. Hoje a taxa está em 14% ao ano, depois de duas reduções.
O ponto que o discurso do candidato omite é relevante: Haddad foi ministro da Fazenda durante boa parte desse período. A política fiscal expansionista conduzida pelo governo federal — com elevação de gastos, renúncias e déficit primário persistentemente acima da meta — é parte do mesmo cálculo que o Copom precisa fazer ao calibrar os juros. Quando o Executivo pressiona o BC por cortes mais rápidos, está pedindo que a autoridade monetária compense, com juros menores, o custo do próprio descontrole fiscal.
O argumento de Haddad na sua versão mais forte
Feita essa ressalva, é justo registrar a leitura mais favorável ao candidato antes de criticá-la. Haddad sustenta que, mantida a inflação sob controle, a taxa real de juros brasileira permanece entre as mais altas do mundo e estrangula investimento, crédito produtivo e infraestrutura. Para o ex-ministro, o país estaria pagando um "prêmio de risco" exagerado, e cortes mais cedo teriam poupado à economia boa parte do custo de carregar uma Selic em dois dígitos por tanto tempo.
É um argumento que encontra eco em parcela relevante do mercado financeiro e em boa parte da literatura econômica heterodoxa. A taxa de juros real — descontada a inflação esperada — caiu nos últimos meses, mas segue elevada diante de países com rating de crédito semelhante. Ignorar isso seria desonesto.
Por que, ainda assim, a crítica é um mau sinal
O problema não está no diagnóstico, e sim no que a declaração revela sobre o método. Criticar a política monetária em palanque eleitoral, qualificando-a de "descabida", é tratar o Banco Central como mais uma instância subalterna ao projeto de poder — não como guardião independente da estabilidade de preços. Para um mercado que precifica risco diariamente, esse tipo de pressão política tem custo mensurável: encurta horizontes, aumenta a percepção de instabilidade e, no limite, alimenta exatamente a inflação que se pretende combater.
Há ainda um aspecto específico da fala que merece atenção. Haddad diz que "tinha que ter começado antes" o ciclo de corte. Para esta análise, a frase carrega um perigo claro: sinaliza que, em sua leitura, a decisão sobre o ritmo da Selic deveria ter sido tomada em diálogo com o interesse político do Executivo, e não segundo a avaliação técnica do Copom. É a lógica contrária à da autonomia que o Congresso, com apoio inclusive de parte do PT, ajudou a construir.
O capítulo Sabesp: o que está realmente em jogo
O mesmo evento em que atacou o BC, Haddad repetiu o compromisso de revisar os contratos da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). A declaração veio embalada em analogia provocativa: "se a gente não começar a corrigir agora o caminho da Sabesp, nós vamos transformar a Sabesp na Enel das Águas".
Para o leitor que não acompanhou o tema, a referência é direta: a Sabesp passou por um processo de capitalização com entrada do mercado privado em 2024, no governo Tarcísio de Freitas, justamente o adversário que Haddad pretende enfrentar em 2026. Dizer que vai "revisar contratos" equivale, na prática, a anunciar que pretende reverter ou reescrever o principal projeto de infraestrutura econômica do mandato atual. A comparação com a Enel — distribuidora de energia paulista alvo de críticas generalizadas por falhas de serviço — é, no mínimo, parcial: o desempenho operacional da Sabesp após a capitalização, com expansão de metas de cobertura, não é comparável ao histórico da concessionária de energia.
Para esta análise, a mensagem é clara: Haddad está oferecendo ao eleitorado paulista uma pauta de reversão de parcerias com o setor privado, usando o verniz da prestação de serviço. É o oposto do caminho trilhado nos últimos anos, e merece ser debatido nesse plano — não no das manchetes.
Agências reguladoras: "técnica" versus "política" — quem decide?
Haddad também defendeu indicações "mais técnicas e menos políticas" para agências regulatórias, com ênfase em "boas práticas de gestão de contratos de longo prazo". É uma proposta de superfície atraente, mas que esbarra em duas questões estruturais.
Primeira: toda indicação para agência reguladora, em qualquer regime presidencialista, passa por decisão política — é o Executivo que escolhe, o Senado que sabatina e sabatina a partir de critérios que incluem, sim, o mérito técnico, mas também a coerência com o projeto de governo. Não existe "indicação puramente técnica" para cargo de confiança. Segundo: Haddad não disse, no evento, quais seriam os critérios objetivos para avaliar esse "mérito técnico", nem a quem caberia a última palavra em caso de divergência.
O risco, na prática, é trocar um tipo de politização por outro: trocar a politização atual — alinhada ao campo que Haddad critica — por uma politização alinhada ao PT, com o mesmo discurso de "técnica" servindo de embalagem. Sem transparência no processo, o rótulo não muda a substância.
Por que isso importa
As declarações de Haddad no Fórum da ABDIB não são incidentes isolados de campanha. São indicadores de como um governo estadual do PT trataria, em 2027, três frentes decisivas: a relação com o Banco Central (e, por extensão, com o custo do crédito para empresas e famílias paulistas), a relação com concessionárias de serviço público (e o sinal que isso manda ao investidor privado de longo prazo) e o processo de nomeação para cargos técnicos (e o grau de independência real que essas agências teriam).
Para o contribuinte e o investidor paulista, o efeito agregado é o que conta. Pressão política sobre juros, revisão de contratos com o setor privado e indicações sem critério transparente tendem a produzir, no médio prazo, o mesmo resultado histórico: mais risco percebido, mais prêmio de juros exigido, mais custo de capital e menos investimento privado em infraestrutura — exatamente o setor que Haddad prometeu priorizar no evento da ABDIB.
Perguntas frequentes
O que mudou na política de juros para Haddad fazer essa crítica agora?
O Copom reduziu a Selic de 15% para 14,25% em uma reunião e, na sequência, para 14% ao ano. Para Haddad, o ritmo ainda é lento. O candidato defende que o ciclo poderia ter começado antes, ainda em 2024.
A autonomia do Banco Central impede críticas como essa?
Não. A autonomia não é blindagem contra debate público, mas estabelece que a decisão sobre juros cabe ao Copom, com critérios técnicos e mandato próprio. Críticas em palanque eleitoral sinalizam pressão política sobre uma instância que, por desenho legal, deveria ficar imune a esse tipo de cobrança.
O que Haddad propõe concretamente para a Sabesp?
Segundo o portal Metropoles.com, o candidato se comprometeu a "revisar contratos" da Sabesp, sem detalhar publicamente o alcance dessa revisão. A declaração foi feita em paralelo a uma comparação crítica com a Enel.
Haddad tem razão sobre a taxa de juros real brasileira?
A taxa de juros real brasileira segue elevada em comparação internacional, e esse é um diagnóstico compartilhado por boa parte do mercado. O ponto em disputa não é a leitura do problema, e sim a solução: o caminho de pressionar o BC por cortes mais rápidos ou o de reconstruir credibilidade fiscal para que os juros caiam por consequência.
Qual a relação entre a fala e a disputa pelo governo de São Paulo?
Haddad é candidato ao Palácio dos Bandeirantes em 2026 e terá como adversário, segundo as projeções atuais, o governador Tarcísio de Freitas. As pautas anunciadas no Fórum da ABDIB — revisão de contratos, nova postura sobre agências reguladoras e pressão sobre o BC — compõem um bloco de oposição ao modelo aplicado no estado desde 2023.
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