A Bússola NacionalAnálise política
Eleições

Haddad usa crise da Enel e Sabesp como munição de campanha

Haddad leva regulação ao palanque no ABDIB: cobra a Enel, ataca a privatização da Sabesp e expõe fraturas internas da direita sobre a reforma tributária.

Por Heitor Vasconcelos · · 8 min de leitura

Haddad usa crise da Enel e Sabesp como munição de campanha
Haddad usa crise da Enel e Sabesp como munição de campanha

Haddad troca o palácio pelo palco eleitoral — e usa concessões públicas como munição de campanha

O ex-ministro da Fazenda e pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, recorreu ao ABDIB Fórum Eleições 2026 para transformar uma crítica regulatória legítima em peça de campanha. Segundo o portal Terra.com.br, Haddad afirmou que duvida que o governo federal renovará a concessão da Enel em São Paulo caso a empresa não assuma "objetivamente" um compromisso de ampliação de investimentos — e aproveitou para comparar a Sabesp privatizada a uma hipotética "Enel das Águas". Foi além: reagiu à defesa da suspensão da Reforma Tributária feita pelo pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), classificando a proposta como "deletéria para São Paulo".

O pacote de declarações mistura três arenas que, vistas em conjunto, revelam uma operação política coerente: regulação de infraestrutura, crítica à privatização e defesa da reforma fiscal. Cada uma delas merece ser desmontada com cuidado — sem caricatura, mas também sem ingenuidade.

Quem fala, para quem, e por que o palco importa

Haddad já não fala como ministro. Fala como pré-candidato ao Palácio dos Bandeirantes, em um fórum da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB) dedicado às eleições de 2026, reunindo executivos e investidores de setores regulados. O formato importa: é um ambiente em que se mede credibilidade econômica, e em que concessões de energia, saneamento e rodovias são o objeto de conversa.

O detalhe de timing é o que transforma a fala em ato político. Enquanto ministro, Haddad integrou um governo que tem entre suas atribuições o acompanhamento das concessões de distribuição de energia — ainda que a regulação direta seja da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e do Ministério de Minas e Energia. A ameaça de não renovação, vinda agora de fora do Executivo, durante uma campanha ao governo estadual, precisa ser lida com esse filtro: a promessa regulatória está sendo usada como sinalização para um eleitorado irritado com a Enel e como crítica indireta ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que conduziu a privatização da Sabesp.

Enel: o princípio é justo — o executor é suspeito

Não é controverso que a Enel Distribuição São Paulo atravessa uma crise de confiança. Blecautes prolongados que afetaram milhões de paulistas entre 2023 e 2024 transformaram a empresa em símbolo da precariedade do serviço e mobilizaram ANEEL, Procon-SP e a Assembleia Legislativa. Diante de um contrato de cerca de 30 anos e de histórico reiterado de descumprimento de metas, é razoável que o poder concedente avalie seriamente a renovação.

O centro-direita, em particular, deveria ser o primeiro a defender isso: contratos são contratos, e quem não cumpre perde. A insegurança jurídica — leia-se, a renovação automática sem contrapartida — é justamente o que afasta investimento privado de infraestrutura no Brasil.

A questão, portanto, não é o "se", mas o "como" e o "quando". Haddad foi ministro da Fazenda durante o período em que a Enel mais decepcionou São Paulo. Não se tem notícia de que tenha movido uma palanca enquanto ocupava a cadeira que dava acesso direto aos relatórios da ANEEL e às decisões de política energética. A cobrança chega agora — da vitrine de um fórum privado, em ano eleitoral.

Há ainda um segundo ponto que o próprio Haddad ajuda a iluminar. Ao condicionar a renovação a um "compromisso objetivo com ampliação de investimentos", o ex-ministro está propondo, na prática, uma renegociação das condições contratuais — algo que, dependendo da forma, pode configurar tanto boa-fé regulatória quanto precedente perigoso para a segurança jurídica de todas as concessões do país. Investidores que operam em ambiente regulado leem com atenção esse tipo de sinal.

"Enel das Águas": a comparação que denuncia o autor

Foi na menção à Sabesp que Haddad abandonou de vez a pretensão de neutralidade. "Se a Enel é um problema, como é que a Sabesp em tão pouco tempo conseguiu se tornar um problema ainda maior?", perguntou, ressuscitando a expressão "Enel das Águas" como rótulo para a privatização conduzida pelo governo Tarcísio.

A comparação é politicamente útil — e intelectualmente desonesta. Mistura dois objetos distintos: uma distribuidora de energia com décadas de operação e histórico conhecido de problemas, e uma empresa de saneamento recém-saída do controle estatal, em fase de adaptação ao regime privado. Julgar o desempenho de uma privatização nos primeiros meses de transição é como avaliar um paciente na sala de recuperação: dá manchete, não dá diagnóstico.

Para o centro-direita, esse é o ponto central. A desestatização da Sabesp foi uma reforma de mercado — exatamente o tipo de medida que reduz o peso do Estado sobre o bolso do contribuinte e abre espaço para investimento privado em um setor historicamente ineficiente. Criticar essa escolha pelo desempenho inicial é o mesmo argumento que se usa contra qualquer reforma liberalizante: como ela ainda não produziu o resultado pleno, ela "fracassou". Haddad sabe que isso deslegitima qualquer reforma estrutural — e é exatamente o efeito que quer produzir junto ao seu eleitorado.

A defesa da Reforma Tributária — e o dissenso à direita

Sobre a reforma tributária, Haddad encontrou um adversário à direita e tratou de atacá-lo. Flávio Bolsonaro (PL), em sua pré-campanha à Presidência, tem defendido a suspensão do novo regime. Para Haddad, a medida seria "deletéria" para São Paulo — com argumento principal: a reforma extinguiria a guerra fiscal, que prejudica estados mais produtivos ao permitir que outras unidades da Federação compitam por empresas por meio de benefícios tributários regionais.

Esse é, curiosamente, o argumento mais sólido que Haddad apresenta — e merece ser levado a sério. A guerra fiscal é um mecanismo distorcido que sangra estados exportadores de arrecadação e premia operações predatórias de captação de investimentos. Uma reforma que a extinga é, em tese, positiva. Mas a defesa tem limites que o ex-ministro não reconhece: a transição do novo modelo é complexa, o IBS e a CBS ainda estão em fase de regulamentação, e há dúvidas concretas sobre o comportamento da carga tributária efetiva em diferentes setores. Aprovar o conceito não equivale a aprovar a execução.

O ponto mais revelador, contudo, é o dissenso dentro da própria direita. Haddad ataca Flávio, mas não enfrenta diretamente, por exemplo, governadores do PL que administram estados que perderão arrecadação com o fim da guerra fiscal. A escolha do adversário diz mais do que o argumento — é uma fratura interna do campo conservador sendo explorada em tempo real, com Haddad se apresentando como o adulto da sala para o eleitorado de mercado.

Por que isso importa

  • O poder regulatório virou arma eleitoral. Discutir renovação de concessão em palanque é trivial. Discutir em evento de investidores, em véspera de campanha, transforma um ato administrativo em sinalização política — e isso afeta o cálculo de quem aporta capital em infraestrutura.
  • A desestatização da Sabesp vira campo de batalha. Haddad pretende transformar a Sabesp no "escândalo" da campanha a Tarcísio. Se emplacar a narrativa da "Enel das Águas", a direita perde um dos seus troféus reformistas recentes — e o centro político recua da agenda de privatizações por muito tempo.
  • A Reforma Tributária entra na disputa de 2026. Flávio usa a suspensão como bandeira; Haddad usa a defesa como prova de responsabilidade fiscal. O tema deixa o debate técnico e vira ativo de campanha — com o risco de nenhum dos lados discutir a qualidade da implementação.
  • O reposicionamento de Haddad. O ex-ministro se apresenta no ABDIB como o candidato "pró-investimento" do PT — o mesmo movimento que Lula fez em 2022. A pergunta que fica é até onde esse discurso se sustenta quando ele voltar a falar para o eleitorado tradicional do partido.

Perguntas frequentes

Haddad tem mesmo poder para decidir sobre a renovação da concessão da Enel?

Não diretamente. A concessão é regulada pela ANEEL, e o poder concedente é a União, com participação do Ministério de Minas e Energia. Como ex-ministro da Fazenda, Haddad tinha influência política sobre o tema — mas, como pré-candidato ao governo estadual, sua palavra tem peso eleitoral e simbólico, não administrativo.

A comparação entre Sabesp e Enel é tecnicamente válida?

Não. São empresas de setores distintos, com históricos e cronologias diferentes. A Enel acumula décadas de problemas conhecidos; a Sabesp foi privatizada em 2024 e está em fase inicial de transição. Usar uma para deslegitimar a outra é recurso retórico de campanha, não análise.

Por que Flávio Bolsonaro defende a suspensão da Reforma Tributária?

O pré-candidato do PL sustenta que a reforma, em sua forma atual, gera insegurança jurídica e onera atividades específicas sem entregar as simplificações prometidas. É uma posição que reúne parte da direita — e expõe uma fratura no campo conservador que Haddad procura explorar em seu favor.

O que muda para o investidor com declarações desse tipo?

Mudam as expectativas. Em infraestrutura regulada, o investidor precifica não apenas o contrato, mas a previsibilidade do regulador. Declarações públicas sobre renegociação ou não renovação criam risco percebido — mesmo que não se convertam em ato administrativo efetivo.

Este texto reflete a posição editorial d'A Bússola Nacional?

Sim. A Bússola Nacional analisa a política a partir de uma perspectiva liberal na economia e cética em relação ao uso político de instrumentos regulatórios. Quando os fatos contrariam essa leitura, registramos o fato e discutimos a divergência — como fizemos ao reconhecer que a cobrança sobre a Enel é, em princípio, legítima.

Gostou desta análise? Compartilhe com quem quer entender a política brasileira além da manchete e assine a newsletter d'A Bússola Nacional.

Leia também

Receba as análises da semana

Um resumo do que importa na política brasileira, direto no seu e-mail. Sem spam.

Ao se inscrever, você concorda com a nossa política de privacidade. É possível cancelar a qualquer momento.