A Bússola NacionalAnálise política
Economia e Política

Ibovespa recua perto da eleição, mas mantém alta em 12 meses

Bolsa brasileira perde força perto da eleição, mas mantém alta em 12 meses; entenda como incerteza política e fatores externos pesam sobre investimentos.

Por Marina Cordovil · · 6 min de leitura

Ibovespa recua perto da eleição, mas mantém alta em 12 meses
Ibovespa recua perto da eleição, mas mantém alta em 12 meses

A eleição elevou a percepção de risco sobre a Bolsa brasileira, mas os dados citados pelo InfoMoney não mostram uma recompensa excepcional para quem aceitou essa incerteza. O Ibovespa acumulava perdas nas janelas de seis e três meses anteriores ao primeiro turno, embora ainda registrasse alta no período de 12 meses. A distinção importa: o mercado não está apenas reagindo à disputa eleitoral, mas tentando precificar o que uma mudança de governo — ou a continuidade do atual — pode significar para a política econômica, num cenário global também adverso.

O que os números mostram — e o que não mostram

Segundo levantamento da Nomad reproduzido pelo InfoMoney, até 18 de agosto o Ibovespa havia caído 11,5% nos seis meses anteriores ao primeiro turno. Entre 2006 e 2022, a queda média nessa janela foi de 2,2%. No intervalo de três meses, o índice recuou 4,4%, em contraste com a valorização média de 7,1% observada nas eleições anteriores consideradas pela comparação.

O quadro muda quando se amplia o horizonte: nos 12 meses anteriores ao pleito, o Ibovespa avançava 15,3%, acima da média histórica de 7,8%. Portanto, a leitura não é a de um ano inteiro de desempenho fraco. O descolamento negativo se concentrou, conforme os dados apresentados, na aproximação da eleição.

Também cresceu a oscilação esperada pelos investidores. O S&P/B3 Ibovespa VIX chegou a 33,21 pontos na sexta-feira, 2, um recorde desde o lançamento do indicador, em março de 2024. Esse dado sinaliza maior expectativa de variações no mercado acionário brasileiro; não equivale, por si só, a uma previsão de queda nem prova que a eleição seja a causa exclusiva da volatilidade.

A própria reportagem aponta outros fatores: juros e inflação elevados nos Estados Unidos, tensões geopolíticas, competição por capital com mercados percebidos como mais seguros e o interesse dos investidores pelo setor de inteligência artificial. A comparação com pleitos passados é informativa, mas não isola o peso de cada elemento nem garante que ciclos eleitorais diferentes sejam diretamente equivalentes.

Por que a eleição entra no cálculo da Bolsa?

Uma eleição presidencial pode alterar as expectativas sobre impostos, gastos, regras econômicas e prioridades do governo. Investidores avaliam não apenas quem disputa o Executivo, mas também se as propostas terão condições de avançar no Congresso e como serão implementadas. A composição parlamentar e a capacidade de formar maiorias podem, assim, importar tanto quanto as promessas de campanha.

Isso não significa que o mercado escolha o presidente ou que sua reação seja uma medida objetiva da qualidade de um candidato. Significa que agentes econômicos ajustam preços quando entendem que resultados eleitorais podem mudar riscos e retornos futuros. Quanto mais incertas forem as regras, as contas públicas ou a direção da política econômica, maior tende a ser a cautela de quem decide onde investir.

Essa cautela tem consequências concretas. Se investidores exigem retorno maior para aplicar recursos no país, empresas podem enfrentar um custo de capital mais alto e adiar projetos. O impacto sobre emprego, produtividade e renda não é automático: depende da duração da incerteza, das condições de crédito e das decisões de empresas e consumidores. Mas volatilidade prolongada pode dificultar o planejamento de quem produz e investe.

O risco sem prêmio histórico é um alerta sobre expectativas

Para esta análise, o ponto central não é que a Bolsa tenha caído perto da eleição, algo que os dados históricos mostram que pode ocorrer. É que, neste ciclo, o risco percebido aumentou sem que as janelas mais próximas ao pleito oferecessem a compensação média observada nas eleições anteriores. Isso pode indicar maior aversão ao risco, mas não permite concluir, sem outras evidências, que o país se tornou estruturalmente menos atraente.

O argumento mais forte em defesa da cautela dos investidores é que ela pode ser uma resposta racional a um ambiente excepcionalmente carregado: além da disputa doméstica, há juros e inflação elevados nos Estados Unidos, tensões internacionais e concorrência por recursos com outros mercados e setores. Nesse cenário, a incerteza eleitoral não atua sozinha. A valorização do Ibovespa em 12 meses, acima da média histórica citada, também impede uma descrição simplista de colapso ou rejeição generalizada ao Brasil.

Mas reconhecer esses fatores externos não elimina a responsabilidade dos atores políticos nacionais. Governos que pretendem atrair capital precisam oferecer previsibilidade, demonstrar como financiarão suas prioridades e respeitar regras estáveis. A expansão de gastos ou de estruturas estatais não se justifica apenas pela intenção anunciada: precisa ser confrontada com seu custo para o contribuinte, seus efeitos sobre a dívida e os resultados que entrega.

Do lado do Congresso, a discussão não se limita a aprovar ou rejeitar medidas do Executivo. O Legislativo participa da definição do orçamento e das regras que afetam empresas e cidadãos. A capacidade de negociação entre governo e Parlamento pode reduzir incertezas, mas acordos que ampliem despesas sem indicar financiamento também podem alimentar dúvidas sobre a trajetória fiscal.

Já o Judiciário integra o ambiente institucional que dá previsibilidade às regras e protege direitos, inclusive o de propriedade. Não há, nos dados citados, uma indicação de que uma decisão do STF tenha provocado a alta da volatilidade. Ainda assim, a segurança jurídica depende de que as competências de cada Poder sejam respeitadas e de que decisões com impacto econômico sejam transparentes e fundamentadas.

Por que isso importa

Para o eleitor, o indicador não deve funcionar como recomendação de voto nem como substituto da avaliação de propostas. A pergunta útil é outra: os candidatos explicam como pretendem financiar suas promessas, quais resultados esperam obter e como preservarão regras previsíveis? O custo de políticas públicas recai, direta ou indiretamente, sobre cidadãos e empresas; por isso, intenção declarada não basta.

Para o governo que sair das urnas, a mensagem é que confiança não se decreta. Ela depende de escolhas verificáveis sobre gastos, receitas, estabilidade regulatória e relação com o Congresso. Para a economia, a combinação de risco político e pressões externas pode encarecer decisões de longo prazo. Para o investidor, por sua vez, volatilidade recorde desde 2024 é um sinal de incerteza elevada, não uma certeza sobre o resultado das urnas ou sobre a direção futura dos preços.

O dado mais equilibrado é também o mais importante: o Ibovespa estava no positivo em 12 meses, mas perdeu terreno nas janelas mais próximas do primeiro turno. Isso aponta para uma piora recente das expectativas, sem apagar o desempenho anterior nem permitir atribuir toda a oscilação à eleição. A resposta política que reduziria o risco é menos retórica e mais previsível: contas sustentáveis, compromissos claros e respeito às regras que protegem a iniciativa privada e o cidadão.

Perguntas frequentes

A Bolsa caiu durante todo o período analisado?

Não. O Ibovespa acumulava alta de 15,3% em 12 meses, acima da média histórica de 7,8%. As quedas destacadas ocorreram nas janelas de seis e três meses anteriores ao primeiro turno.

O recorde do Ibovespa VIX significa que a Bolsa vai cair?

Não necessariamente. O indicador mede a expectativa de volatilidade, isto é, de oscilações, e não prevê sozinho a direção do mercado.

A eleição foi a única causa do aumento do risco?

Não há base nos dados citados para afirmar isso. A reportagem também menciona fatores internacionais e a competição por capital com outros mercados e setores.

O que pode reduzir a incerteza após a eleição?

Planos econômicos claros, responsabilidade fiscal, regras estáveis e capacidade de articulação com o Congresso podem ajudar. O efeito dependerá das medidas adotadas, não apenas das declarações feitas durante a campanha.

Gostou desta análise? Compartilhe com quem quer entender a política brasileira além da manchete e assine a newsletter d'A Bússola Nacional.

Leia também

Receba as análises da semana

Um resumo do que importa na política brasileira, direto no seu e-mail. Sem spam.

Ao se inscrever, você concorda com a nossa política de privacidade. É possível cancelar a qualquer momento.