O Banco Central cortou a Selic em 0,25 ponto percentual em 16 de setembro, levando a taxa básica a 13,75% ao ano. O alívio é mínimo diante do estrago que o dinheiro caro está produzindo: 84 milhões de brasileiros inadimplentes, 9,2 milhões de empresas em default, 6.300 companhias em recuperação judicial ou extrajudicial e 292 falências decretadas entre janeiro e abril deste ano — o maior volume para o período desde o início da série histórica em 2012, segundo dados da Serasa Experian compilados pelo portal Abril.com.br. O que se vê não é um tropeço conjuntural nem herança automática da pandemia: é o desfecho previsível de uma política fiscal expansionista conduzida em meio a um ciclo global de aperto monetário.
O mecanismo: como a Selic em 2% virou Selic em 15%
Entre 2017 e 2021, a taxa básica recuou de 13% para 2% ao ano, puxada pelo teto de gastos e, depois, pela pandemia. Com juros baixos, empresas brasileiras aproveitaram a janela para tomar crédito a taxas pós-fixadas — contratos indexados à Selic futura somada a um prêmio de risco. Segundo o portal Abril.com.br, a concessão de crédito para pessoas jurídicas saltou de R$ 1,3 trilhão em 2017 para R$ 2 trilhões em 2020. Fábio Flores, sócio da TCP Partners, resume: "Mesmo contratos que embutiam grandes prêmios atraíam interessados. Com a Selic a 2%, o empresário pagava uma taxa total de 5% ao ano e achava ótimo."
Esse raciocínio, simples e racional, embutia uma aposta enorme: a de que a Selic permaneceria baixa por tempo suficiente para que o investimento se pagasse. Quando o ciclo de alta começou — primeiro com a reabertura pós-pandemia e depois com a pressão fiscal sobre a inflação — a fatura virou. Empréstimos que custavam 5% passaram a custar de 18% a 30% ao ano, conforme a modalidade. "Não tem margem de lucro que sustente um custo assim", afirma Flores.
A política fiscal que desancorou as expectativas
O ponto de inflexão político ocorreu em 2023, quando Lula reassumiu a Presidência. Segundo o portal Abril.com.br, o produto interno bruto potencial do Brasil — a taxa que o país pode crescer sem gerar inflação — era estimado em 2% naquele momento. O governo, porém, adotou uma lógica keynesiana de gasto como motor de crescimento: isenção do Imposto de Renda para faixas de renda mais baixas, criação do programa Gás do Povo e expansão do Crédito do Trabalhador, entre outras medidas. Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV, é direto: "Houve um impulso fiscal gigante. O problema é que ele veio em um mau momento."
O PIB respondeu: 3,1% em 2023 e 3,4% em 2024, taxas acima do potencial. Para o BC, isso não é crescimento saudável — é pressão sobre uma economia que já operava no limite. José Alfaix, economista da Rio Bravo, sintetiza a leitura do mercado: "O governo deveria respeitar a desaceleração da economia inerente a um ciclo de aperto monetário. Mas ele optou por resistir e criar novos estímulos." A continuidade da política expansionista obrigou o BC a manter juros em 15% — o pico desde 2006 — por mais tempo do que o necessário.
Os nomes por trás das estatísticas
A estatística da Serasa não é composta apenas de pequenos negócios. Só em 2025, entraram em recuperação judicial ou extrajudicial nomes como Casas Bahia, Marabraz, Grupo Pão de Açúcar, Braskem e Raízen — estrelas do capitalismo nacional. De acordo com a consultoria RGF Associados, 2.400 micro e pequenas empresas e mais de 3.100 médias também estão em processo de reestruturação. Em muitos casos, a proteção legal não basta e a saída é a liquidação.
André Pimentel, sócio da Performa Partners, acumula quarenta anos de experiência em reestruturação. Sua avaliação, segundo o portal Abril.com.br, é a mais dura possível: "Este é o pior período que já testemunhei." Não se trata, portanto, de percepção ideológica — é a constatação técnica de quem acompanha o setor de perto.
O choque entre governo e Banco Central
A relação entre o Executivo e o BC foi durante dois anos o principal teatro dessa disputa. Lula atribuiu a alta da Selic a supostos interesses políticos do então presidente Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro. A troca de comando em janeiro de 2025 desmontou o discurso: o novo presidente, Gabriel Galípolo, indicado pelo próprio Lula, manteve o aperto e levou a Selic ao pico desde 2006. O comunicado do corte de 16 de setembro reiterou a avaliação técnica: o BC alertou para "estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial". Em outras palavras, mesmo com um BC alinhado politicamente, a matemática é a mesma.
Apresentando o argumento contrário na sua versão mais forte
Antes de cravar uma avaliação, é justo registrar a versão mais forte da defesa do governo. Os defensores da política fiscal argumentam que:
- O estímulo ao consumo é necessário para proteger a população mais vulnerável, que sofre mais com recessão do que com inflação;
- O teto de gastos de 2017 — base do ciclo de juros baixos — foi um instrumento de ajuste que aprofundou a desigualdade e desmontou políticas públicas;
- A taxa Selic é determinada também por fatores externos, como o ciclo de juros nos Estados Unidos, e não apenas pela política fiscal doméstica;
- O crescimento do PIB acima do potencial mostra que a política está funcionando, e a inadimplência é herança de um endividamento acumulado na era da Selic a 2%.
Esses pontos merecem ser pesados. A herança da Selic a 2% é, de fato, parte relevante do problema — empresas se endividaram apostando em juros baixos que eram, eles próprios, uma anormalidade histórica. Também é verdade que o teto de gastos foi contestado como política recessiva. Mas o fato central permanece: o estímulo fiscal expansionista a partir de 2023 agravou um ciclo monetário que já era de aperto. PIB acima do potencial não é sinal de política bem-sucedida quando o custo é a Selic em 15% e uma onda de falências sem precedente.
Por que isso importa
As consequências práticas vão além dos balanços contábeis. Uma Selic em 13,75% ao ano — e taxa de crédito entre 18% e 30% — significa:
- Crédito mais caro para todos: famílias, micro e pequenas empresas pagam a conta da política expansionista que não foi neutralizada pelo lado fiscal;
- Desemprego à vista: empresas em recuperação tendem a cortar postos de trabalho; a onda de falências tem efeito direto sobre o mercado formal;
- Pressão sobre o Congresso: a base governista terá de escolher entre novos pacotes de estímulo (que agravam o quadro) ou ajuste fiscal (que enfrenta resistência interna);
- Risco para a dívida pública: Selic alta por mais tempo aumenta o custo de rolagem da dívida pública e pressiona o resultado primário;
- Eleições 2026: o custo político de uma economia em recessão técnica com inflação ainda acima do centro da meta será central na próxima campanha.
Perguntas frequentes
1. Por que empresas estão quebrando agora se a Selic já estava alta antes de Lula assumir?
Porque a Selic alta pré-2023 era, em parte, resposta à reabertura pós-pandemia. O que mudou com o governo Lula foi a persistência do aperto: o estímulo fiscal acima do potencial impediu que o ciclo de cortes começasse antes, prolongando o estrago sobre empresas que se endividaram na era da Selic a 2%.
2. O BC é independente mesmo com Galípolo indicado por Lula?
Na prática, o BC tem atuado com base em metas de inflação formalmente autônomas. O corte de 0,25 ponto em setembro, ainda que pequeno, foi comunicado com a mesma linguagem técnica de períodos anteriores. A crítica do mercado não é à autonomia formal, e sim à política fiscal que o BC é obrigado a neutralizar.
3. Qual a diferença entre empresas endividadas por má gestão e as vítimas da política econômica?
A diferença está na régua. Quando a Selic estava em 2%, uma margem de 14% sustentava o crédito com folga. Com o crédito custando de 18% a 30%, segundo o portal Abril.com.br, até empresas com boa gestão entram em colapso. Não se trata de absolver más administrações — mas o ambiente de juros mudou de forma estrutural e pegou contratos pós-fixados no contrapé.
4. Existe solução dentro do atual arcabouço?
A solução exige ancoragem fiscal crível: superávit primário compatível com a estabilização da dívida e sinalização clara de que o gasto público não seguirá crescendo acima da arrecadação. Sem isso, o BC continuará obrigado a manter juros altos por mais tempo, e a conta continuará sendo paga por quem tomou crédito na era do dinheiro barato.
5. O que esperar dos próximos meses?
Cortes adicionais da Selic dependem da trajetória fiscal. Se houver acomodação dos estímulos e a inflação seguir cedendo, o ciclo de baixa pode continuar gradualmente. Se o governo insistir na expansão, o BC terá motivo técnico para pausar ou reverter o corte — e as empresas que ainda sobrevivem pagarão a conta da próxima onda de quebras.
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