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Argentina projeta US$ 35 bi em mineração e pressiona Brasil

Argentina pode alcançar US$ 35 bi em exportações minerais até 2035 via RIGI; Brasil precisa modernizar marco regulatório para não perder capital mineral.

Por Heitor Vasconcelos · · 6 min de leitura

Argentina projeta US$ 35 bi em mineração e pressiona Brasil
Argentina projeta US$ 35 bi em mineração e pressiona Brasil
estimativa do Itaú BBA, divulgada pelo portal InfoMoney, projeta que a Argentina pode chegar a aproximadamente US$ 35 bilhões em exportações de mineração até 2035. O volume seria suficiente para consolidar a atividade como a terceira grande indústria exportadora do país, ao lado da agricultura e da energia. O gatilho institucional dessa virada tem nome: Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI), instrumento criado no governo de Javier Milei para reduzir o risco político de projetos de longa maturação. Para o Brasil, o dado não é mera curiosidade regional — funciona como um teste de mercado sobre o tipo de reforma que atrai capital de mineração.

O tamanho da virada em perspectiva

Os números ajudam a dimensionar o que está em jogo. Em 2026, as exportações totais da Argentina estão em torno de US$ 100 bilhões, segundo o texto do InfoMoney. A energia, sozinha, poderia alcançar US$ 50 bilhões em 2035 — patamar próximo ao das exportações totais atuais do país. A mineração, com US$ 35 bilhões projetados, saltaria de participação residual para uma fatia equivalente a um terço da pauta exportadora.

Esse rearranjo da matriz tem significado político relevante: para uma economia historicamente dependente de commodities agrícolas e energia, diversificar com mineração reduz a vulnerabilidade a choques climáticos sobre a safra e à flutuação do preço dos hidrocarbonetos. Para o investidor, significa um novo bloco de ativos argentinos com perfil distinto — cobre e lítio, sobretudo — entrando no radar dos fluxos globais.

RIGI: o que é e por que altera o cálculo de risco

O Regime de Incentivo para Grandes Investimentos foi desenhado para resolver um problema clássico da Argentina: a instabilidade de regras entre governos. Projetos de mineração têm maturação longa — frequentemente superior a uma década entre licenciamento, construção e início de operação — e exigem previsibilidade cambial, tributária e regulatória para serem bancáveis.

Segundo o InfoMoney, analistas do Itaú BBA avaliam que o RIGI melhorou "de forma significativa o marco de investimentos para projetos de mineração de longa duração, com mais previsibilidade e menos incertezas relacionadas às políticas públicas". Na prática, o regime oferece estabilidade jurídica por prazos longos, regras tributárias previsíveis e proteção contratual que reduz o prêmio de risco exigido pelo financista.

Para o cobre e o lítio — minerais críticos da transição energética e da indústria de baterias — o efeito é direto: capital internacional antes refratário à Argentina passa a tratar o país como destino viável de médio e longo prazo.

O espelho argentino para o Brasil

O contraste com o Brasil é inevitável. O país tem uma das maiores reservas minerais do planeta, lítio em escala relevante no Vale do Jequitinhonha e uma cadeia de mineração historicamente capaz de operar em larga escala. O gargalo, no entanto, está na interface entre projeto e operação: licenciamento ambiental frequentemente lento, sobreposição de competências entre entes federativos, e regras que mudam em prazo menor do que a maturação dos empreendimentos exige.

A experiência argentina, nesse sentido, funciona como um teste de laboratório invertido: mostra o que acontece quando um país decide tratar capital de mineração com regras estáveis. O resultado, segundo a projeção do Itaú BBA, é uma economia capaz de praticamente criar do zero uma indústria exportadora de US$ 35 bilhões em menos de uma década.

Para o formulador de política brasileiro, o dado levanta uma pergunta direta: quanto do potencial mineral nacional permanece não explorado não por falta de geologia, mas por excesso de incerteza regulatória? A resposta vem sendo dada pelo próprio mercado — capital migra para onde a regra é clara.

O que está em jogo para o investidor

Vale registrar que o mesmo Itaú BBA, ainda segundo o InfoMoney, avalia que o mercado brasileiro está subestimando o crescimento da produção da Petrobras, citando pré-sal, ganhos operacionais e forte geração de caixa como fatores para revisões positivas. As duas leituras — mineração argentina otimista e Petrobras subprecificada — não se contradizem: ambas indicam que o banco enxerga ativos latino-americanos de commodities com fundamentos mais sólidos do que o preço reconhece.

Para quem aloca capital na Bolsa brasileira, há ao menos três implicações imediatas:

  • Empresas de mineração listadas em B3 passam a conviver com um concorrente regional que oferece regime tributário e contratual mais favorável a grandes projetos.
  • Companhias argentinas de lítio e cobre tendem a ganhar tração em listagens internacionais, captando recursos que poderiam buscar ativos brasileiros.
  • A comparação direta entre o RIGI e o marco regulatório brasileiro tende a pressionar Congresso e Executivo a qualificar o debate sobre segurança jurídica na mineração.

Por que isso importa

Uma projeção não é uma promessa. Os US$ 35 bilhões dependem de investimentos ainda a serem confirmados, da oscilação dos preços internacionais de cobre e lítio, e da continuidade do regime sob futuros governos argentinos. Nada disso está garantido — e registre-se a ressalva para não confundir cenário com destino.

Feita a ressalva, a leitura de consequência prática é direta: a Argentina se reposicionou como destino relevante para capital de mineração, e isso redefine a régua competitiva para o Brasil. Para esta análise, o caso reforça um princípio simples: reformas que aumentam previsibilidade contratual, segurança jurídica e disciplina fiscal atraem investimento produtivo. Não há atalho ideológico para isso. O RIGI funciona — ou deixa de funcionar — pelos mesmos mecanismos que tornam qualquer marco regulatório crível: prazo longo, regras estáveis e proteção efetiva ao direito de propriedade.

Para o contribuinte e o eleitor brasileiro, o ensinamento é menos abstrato do que parece. O país que perde a corrida por capital de mineração perde também arrecadação, empregos de maior remuneração e participação em cadeias industriais decisivas para a transição energética. Não se trata de importar o regime argentino — trata-se de entender por que ele está conseguindo mobilizar capital que o Brasil, por ora, não consegue.

Perguntas frequentes

O que é o RIGI argentino?
É o Regime de Incentivo para Grandes Investimentos, criado no governo de Javier Milei. Oferece estabilidade jurídica, tributária e cambial por horizontes de até 30 anos, justamente para reduzir o prêmio de risco exigido por investidores em projetos de maturação longa, como mineração e energia.

A projeção de US$ 35 bilhões em exportações minerais é confiável?
Trata-se de estimativa do Itaú BBA, baseada em fatores domésticos e internacionais que favorecem novos investimentos. Projeções dessa natureza dependem de preço de commodities, execução dos projetos e continuidade regulatória, e devem ser tratadas como cenário, não como garantia.

Quais minerais estão no centro da aposta?
Cobre e lítio, ambos estratégicos para a transição energética, eletrificação de veículos e indústria de baterias.

O que isso significa para a Petrobras?
O texto do InfoMoney registra que o Itaú BBA também avalia o mercado como subestimador da Petrobras, citando pré-sal, ganhos operacionais e geração de caixa. As duas leituras convergem: ativos latino-americanos de commodities com fundamentos mais fortes do que o preço sugere.

O Brasil perde competitividade para a Argentina na mineração?
O regime argentino cria um diferencial competitivo concreto para projetos de cobre e lítio. O Brasil tem geologia equivalente, mas enfrenta gargalos regulatórios que alongam prazos e elevam custo de capital. A comparação deve pressionar o debate sobre modernização do marco mineral no país.

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