O ministro da Cultura de Israel, Miki Zohar, pediu no último domingo, 13 de setembro, a revogação da cidadania dos cineastas Yuval Abraham e Rachel Szor, diretores do documentário Naza — obra premiada no Festival de Veneza sobre o uso de inteligência artificial pelo Exército israelense na seleção de alvos em Gaza. A retaliação do governo a um filme vencedor de prêmio máximo em 24 horas expõe um ponto que vai além da geopolítica: o que um Estado faz quando seus críticos internos incomodam mais do que seus adversários externos?
O filme e a denúncia que ele coloca na mesa
Segundo o portal Abril.com.br, Naza — cujo título é a sigla usada pelo serviço de inteligência israelense para estimar o número de civis que morreriam em um ataque aéreo contra Gaza — reúne 24 denunciantes das Forças Armadas e dos serviços de inteligência de Israel. Em um dos depoimentos, uma fonte afirma que houve autorização para matar até 500 civis com o objetivo de eliminar um único integrante do Hamas.
A proporção de 500 para 1, se confirmada, não é detalhe cinematográfico. É métrica de política pública: quanto custa, em vidas não combatentes, a decisão de apertar o gatilho. Foi exatamente essa pergunta que o filme colocou no centro do debate — e foi exatamente isso que o governo israelense respondeu com retaliação pessoal aos cineastas, em vez de abrir investigação sobre o mérito das denúncias.
Quem é quem nessa história
- Miki Zohar: ministro da Cultura de Israel, filiado ao Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Foi o autor da chamada "reforma do cinema", que condicionou financiamento público a critérios de "lealdade" ao Estado.
- Yuval Abraham e Rachel Szor: cineastas israelenses autores do documentário premiado no último sábado, 12, em Veneza.
- Festival de Veneza: o júri concedeu a Naza o prêmio especial, após uma ovação de 25 minutos — recorde histórico do evento, segundo a Abril.com.br.
A resposta do governo: a cidadania como punição
No domingo, Zohar publicou no X que a "ódio próprio ardente" dos cineastas "que estão dispostos a prejudicar sua pátria para receber aplausos de antissemitas" configura "traição contra o Estado". E prometeu agir "imediatamente" para revogar a cidadania dos diretores.
Há uma escalada aqui que merece ser nomeada. Em 2024, o governo Netanyahu já condicionou recursos públicos do cinema à conveniência política. Agora, a sanção sai da esfera administrativa (corte de verba) e entra na esfera civil (corte de cidadania). É um salto qualitativo: o Estado deixa de usar o bolso do contribuinte como instrumento de pressão e passa a usar o próprio passaporte.
Por que isso importa
A retaliação confirma a crítica
Quando um governo usa o aparato institucional — mesmo que seja apenas um pedido ministerial — para punir quem produziu uma obra crítica, ele não responde à crítica. Ele a confirma. A resposta institucional a uma denúncia de violação é a apuração, não a perseguição ao denunciante. Esse é o teste mínimo de um regime que se pretende democrático.
O precedente internacional
A retaliação não ocorre no vácuo. Ocorre em meio a processos na Corte Internacional de Justiça, em meio a uma opinião pública israelense rachada e em meio a uma credibilidade externa que depende, em boa medida, da capacidade do país de conviver com crítica interna. Tratar cineastas premiados como traidores emite um sinal para o mundo — e, mais importante, para os próximos denunciantes: quem falar, pode perder o passaporte.
A "reforma do cinema" voltou ao centro do debate
Zohar escreveu, na mesma postagem em que pediu a revogação, que "conduziu a importante reforma no cinema para que cidadãos israelenses não paguem mais do próprio bolso para atingir soldados de Israel". É uma admissão reveladora: o governo já vinha usando o financiamento público como instrumento de alinhamento ideológico. A punição aos diretores de Naza é o passo seguinte na mesma lógica — primeiro cortou-se o dinheiro; agora quer-se cortar a cidadania.
O ponto que precisa ser dito — e o que também precisa
A crítica cinematográfica à conduta militar não é, em si, um ato de traição. Em democracias consolidadas, obras premiadas em festivais — de Apocalypse Now a Platoon, de Citizen Kane a Spotlight — conviveram com o escrutínio do Estado sem que diretores perdessem direitos civis. Israel reivindica esse mesmo clube de democracias. Manter a cidadania de quem produz crítica incômoda é o preço de entrada nele.
Dito isso — e a honestidade intelectual exige dizê-lo — denúncias militares envolvem informação sensível. Há uma diferença legítima entre expor abuso e publicar dados que possam comprometer operações em curso. Nada no material divulgado pela Abril.com.br indica que Naza atravessou essa linha. Mas o ponto de partida para um governo sério seria distinguir uma coisa da outra por meio de devido processo legal, não por meio de tweet ministerial.
Um Estado de direito mede-se, sobretudo, pelo modo como trata quem o incomoda. No caso brasileiro, este episódio soa como advertência: o uso da máquina estatal para silenciar crítica raramente começa pela censura declarada. Começa pelo corte de verbas, passa pela pressão administrativa e, quando o precedente passa a ser aceito, chega ao extremo que agora se vê em Israel.
Perguntas frequentes
O que é o documentário Naza?
É um documentário israelense de 80 minutos que reúne 24 denunciantes das Forças Armadas e dos serviços de inteligência de Israel sobre o uso de inteligência artificial na seleção de alvos em Gaza. Recebeu o prêmio especial do júri no Festival de Veneza no último sábado, 12, após uma ovação de 25 minutos — recorde do evento, segundo a Abril.com.br.
O que significa a sigla "Naza"?
Conforme descreve a Abril.com.br, é a sigla usada pelo serviço de inteligência israelense para indicar o número estimado de civis que morreriam em um ataque aéreo contra Gaza.
O que é o "Naza"? Existe uma estimativa oficial de civis mortos?
O título do filme faz referência à sigla usada pelo serviço de inteligência israelense para estimar o número de civis mortos em um ataque aéreo. O texto da Abril.com.br não traz números consolidados de mortos no conflito, nem informa o total estimado pelo sistema descrito na obra.
A cidadania dos diretores pode mesmo ser revogada por causa de um filme?
O ministro Zohar pediu a revogação em postagem na rede social X. A reportagem da Abril.com.br não detalha o rito legal ou os critérios para essa medida em Israel — apenas registra o pedido e a reação dos cineastas. A consequência prática depende de processo que o texto não descreve.
O que o prêmio em Veneza muda na história?
Transforma o documentário de produção doméstica em fato internacional. Sair de festival menor para o palco de Veneza com 25 minutos de ovação e prêmio do júri recoloca a obra sob holofote que o governo israelense já não controla — e provavelmente explica por que a reação veio em menos de 24 horas.
Por que este caso interessa ao leitor brasileiro?
Porque o mecanismo — usar o orçamento e a estrutura do Estado para silenciar adversários — não é exclusivo de nenhuma fronteira. O debate sobre até onde vai a legítima defesa da ordem e onde começa o abuso do poder público é o mesmo em qualquer democracia.
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