O legado econômico do "Lula 3" e a herança fiscal que chega à próxima administração
O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encerra com um diagnóstico que os próprios economistas ouvidos pelo portal Terra.com.br reconhecem como contraditório: há entregas concretas, há também pendências estruturais — e são estas últimas que definirão o tamanho do problema que o próximo presidente encontrará em 1º de janeiro de 2027. O debate da próxima disputa presidencial, marcado para 14 de setembro, promete colocar essas contas na mesa.
O ponto que une todas as avaliações é simples: a economia brasileira cresceu pouco, emprega mais e arrecada melhor — mas o Estado continua gastando mais do que arrecada, e a dívida pública voltou a níveis que o país não via desde o auge da pandemia. Para um governo que se apresenta como gestor responsável, o retrato fiscal é, no mínimo, desconfortável.
O que foi entregue
Para Juliana Inhasz, professora de Economia do Insper, o maior legado do "Lula 3" é a reforma tributária. A economista também destaca a combinação de aumento de renda e menor taxa de desemprego histórica, com o último semestre encerrando em 5,4%, segundo a PNAD Contínua do IBGE — o menor patamar desde 2012.
Esses números são factuais e merecem ser registrados como estão. Queda do desemprego e aumento real de renda são, isoladamente, indicadores favoráveis à população que depende do mercado de trabalho formal e da massa salarial.
A reforma tributária, por sua vez, é a única grande reforma estrutural aprovada no período. Ela ataca um problema crônico do Brasil: a cumulatividade de tributos sobre o consumo, que historicamente penaliza a produtividade e incentiva a informalidade. Ainda que sua implementação se estenda por anos e dependa de regulamentação futura, o texto-base está aprovado — o que, do ponto de vista liberal, é mérito inegável.
A conta que não fecha
Mas é no campo fiscal que a avaliação se complica. Segundo dados do Banco Central referidos pelo portal Terra.com.br, a Dívida Bruta do Governo Geral avançou para 81,9% do PIB em junho de 2025, alcançando R$ 10,4 trilhões. Trata-se do maior valor desde abril de 2021, quando a relação dívida/PIB chegou a 82,62%.
Esse indicador é mais do que um número contábil. Ele mede a capacidade do Estado de honrar seus compromissos sem precisar emitir moeda, elevar tributos ou rolar dívida em condições desfavoráveis. Quando uma economia ultrapassa a faixa de 80% do PIB em dívida bruta, a literatura econômica convergir ao redor de duas preocupações: crescimento mais baixo no médio prazo e margem de manobra menor para responder a choques externos.
Para Inhasz, o governo não conseguiu criar uma "ponte" entre os bons resultados macroeconômicos e a melhoria das contas públicas. A consequência direta é o que ela chama de "desequilíbrio extremo a longo prazo".
O arcabouço que virou problema
O arcabouço fiscal, conjunto de regras aprovado em 2023 para substituir o antigo teto de gastos, nasceu com a ambição de pôr ordem na casa. O problema, na avaliação da economista do Insper, é que ele foi cumprido na aparência e contornado na prática: "Há uma contabilidade muito distorcida, porque nós continuamos com o resultado primário negativo".
Esse é o ponto que esta análise considera central. O resultado primário é a diferença entre arrecadação e gastos, excluindo o pagamento de juros da dívida. Quando ele é persistentemente negativo, o governo não está apenas gastando — está financiando o gasto com dívida nova. E quando o arcabouço é driblado em vez de cumprido, perde-se o que deveria ser seu principal ativo: a previsibilidade.
Para o investidor, para o empresário que planeja expansão e para o contribuinte que financia o conjunto, a previsibilidade das regras fiscais é tão importante quanto o tamanho do gasto. Regras que mudam de interpretação todos os meses produzem o pior dos cenários: ajuste postergado, juros mais altos no futuro e ajuste mais doloroso quando inevitável.
O que vem pela frente
A projeção de Inhasz é que a dívida pública alcance 90% do PIB em dois anos. Se confirmada, será um patamar que o Brasil só conheceu brevemente em 2020 e 2021, durante o pico da pandemia — não em período de crescimento econômico razoável como o atual.
Esse cenário terá consequências práticas sobre quem assume em 2027:
- Juros estruturalmente mais altos. Quanto maior a percepção de risco fiscal, maior o prêmio exigido pelos credores. A taxa Selic, hoje em um dos patamares mais altos do mundo, tende a permanecer elevada.
- Pressão sobre o câmbio. Dívida alta e credibilidade fiscal baixa afugentam capital produtivo e pressionam o real, com impacto direto sobre inflação de alimentos, combustível e bens importados.
- Margem reduzida para políticas sociais. Paradoxo fiscal clássico: quem mais precisa de proteção do Estado é quem mais sofre quando o Estado perde capacidade de financiá-la.
- Reformas adiadas. Qualquer nova agenda — tributária, administrativa, previdenciária — chega ao próximo governo com o espaço fiscal ainda mais estreito.
Por que isso importa agora
O debate de 14 de setembro, promovido pelo Terra e outros dez veículos, será a primeira oportunidade formal de os candidatos à Presidência se posicionarem diante dessa herança. Não é coincidência que o tema apareça logo no início da campanha: o próximo presidente não herdará apenas um país, mas uma equação fiscal cujo ponto de equilíbrio exige escolhas que nenhum dos lados quer antecipar.
Para o eleitor, o ponto prático é direto: candidatos que prometem manter ou ampliar gastos sem dizer de onde virá o dinheiro estão empurrando a conta para 2027, 2028, 2029. Candidatos que propõem cortes nominais — mesmo quando são impopulares — estão, ao menos, reconhecendo a trava fiscal que existe, goste-se ou não dela.
Esta análise parte da seguinte avaliação editorial: quando se trata de contas públicas, é mais sensato tratar o aumento de despesa, de tributo e de máquina estatal como algo que precisa ser justificado do que como ponto de partida natural. A experiência brasileira das últimas décadas — da hiperinflação dos anos 1980 ao descontrole recente — sugere que quem posterga o ajuste, paga juros mais altos depois.
Perguntas frequentes
O que é a "dívida bruta" e por que ela importa?
É o total de dívidas do governo federal, da Previdência Social (INSS) e dos governos estaduais e municipais em relação ao PIB. Acima de 80% do PIB, a margem do Estado para reagir a crises se reduz e o custo de rolar a dívida tende a subir.
O arcabouço fiscal substituiu o teto de gastos?
Sim, foi aprovado em 2023 com a proposta de impor limites ao crescimento dos gastos do governo federal. Segundo a economista Juliana Inhasz, do Insper, o mecanismo vem sendo contornado por meio de manobras contábeis.
O desemprego realmente caiu no governo Lula?
Sim, segundo dados da PNAD Contínua do IBGE referidos pela reportagem, a taxa do último semestre chegou a 5,4% — o menor patamar desde 2012. É um dado factual positivo, embora não neutralize a preocupação fiscal.
Por que a reforma tributária é considerada o principal legado do período?
Porque é a única reforma estrutural aprovada no mandato, atacando a cumulatividade de tributos sobre o consumo, problema crônico que penaliza produtividade e incentiva informalidade. Sua implementação, porém, ainda depende de regulamentação nos próximos anos.
O que esperar da próxima administração em termos fiscais?
Se a projeção de alta da dívida para 90% do PIB em dois anos se confirmar, o próximo presidente terá pouco espaço para novas despesas e pressão crescente para apresentar um plano de equilíbrio primário — ou seja, arrecadação superior a gastos, sem contar juros.
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