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Marxismo sobrevive no Brasil pela emoção, não pela ciência

Gramática marxista segue viva no debate público brasileiro e estrutura pautas no Congresso; entenda os limites da teoria do valor-trabalho e o que está em jogo.

Por Otávio Salgado · · 8 min de leitura

Marxismo sobrevive no Brasil pela emoção, não pela ciência
Marxismo sobrevive no Brasil pela emoção, não pela ciência

A gramática marxista que segue viva no debate brasileiro

A discussão sobre Karl Marx costuma soar como exercício de historiador, daquelas polêmicas que pouco tocam o cotidiano do contribuinte brasileiro. Não é. Categorias nascidas no século XIX — luta de classes, mais-valia, exploração, dependência — seguem a estruturar o vocabulário de partidos, movimentos sociais e uma fração significativa do Congresso Nacional. Em artigo recente, o portal Observador.pt sintetiza a crítica liberal clássica ao marxismo com uma tese provocadora: sua vitalidade seria antropológica e política, jamais científica. Para o leitor brasileiro, a lição prática é direta. Se a esquerda brasileira ainda fala em categorias marxistas, quem quer debater tributação, salário mínimo, reforma agrária e tamanho do Estado precisa, antes, dominar essa gramática — e identificar onde ela não se sustenta.

Por que Marx ainda aparece nas pautas do Congresso

O Partido dos Trabalhadores nasceu em 1980 com referência explícita ao socialismo em seus documentos fundacionais e traz, no DNA, a tradição do sindicalismo metalúrgico do ABC e de intelectuais formados em cursos de ciências humanas da USP, da Unicamp e da UFRJ. Décadas depois, o partido mantém no repertório expressões como "conflito distributivo", "expropriação primária", "hegemonia" e "classes sociais" — mesmo quando governa com política macroeconômica heterodoxa, mas não marxista. Fora do PT, o PSOL, o PCdoB, o MST e a UNE operam com vocabulário marxista com pouca mediação. Na academia, departamentos de sociologia, história e economia de universidades federais seguem publicando nessa chave, o que se reflete em planos de ensino e em políticas públicas desenhadas dentro do governo.

O resultado prático é que, em qualquer debate sobre reforma tributária, salário mínimo, regulação do trabalho ou função social da propriedade, há uma leitura marxista disponível e pronta a ser mobilizada contra uma proposta liberal. Quem ignora esse vocabulário entra no debate em desvantagem.

A força emocional, não a científica

O argumento central do Observador.pt é simples e desconfortável. Marx teria construído um sistema dogmático de grande coerência formal — como a trigonometria ou o direito civil das obrigações. Quem é marxista é inteiramente; não se pode ser "meio marxista" nem tomar dele apenas os "aspectos aproveitáveis". Mas a força dessa construção não reside na ciência. Reside, isto sim, na capacidade de mobilizar emoções humanas reais: animosidade contra os mais ricos, repúdio à desigualdade, inveja, autocomiseração. Todas geram um sentimento difuso de injustiça que o marxismo soube capitalizar — primeiro, na mobilização política; depois, na produção intelectual.

A distinção que importa aqui é entre ciências exatas e ciências sociais. Nas ciências exatas, uma teoria insustentável cai por terra diante do experimento. Nas ciências sociais, uma construção cientificamente frágil pode angariar adesões fervorosas — exatamente porque o que move o militante não é o exame empírico, mas a emoção canalizada. É por isso que o marxismo sobrevive a décadas de refutação empírica — da queda dos salários reais no regime soviético à incapacidade persistente de prever crises capitalistas com a regularidade prometida.

A teoria do valor-trabalho, em uma frase

O cerne da tese marxista é a teoria do valor-trabalho. O valor de uma mercadoria medir-se-ia pela quantidade de trabalho socialmente necessário para produzi-la. Numa sociedade em que os meios de produção são privados, o trabalhador vende sua capacidade de trabalho por um salário; mas essa capacidade gera, no processo produtivo, mais valor do que o capitalista pagou por ela. A diferença é a mais-valia, que o capitalista se apropria.

O que essa teoria deixa de fora

O problema, segundo o Observador.pt, é que essa narrativa passa ao lado da realidade. O valor de troca de uma mercadoria não depende apenas do trabalho cristalizado nela. Depende, também e crescentemente, da utilidade que cada comprador lhe atribui, das oportunidades comerciais do momento, da oscilação entre oferta e procura, da expertise comercial, do custo de matérias-primas sujeito a choques externos, do tempo de amortização dos capitais investidos, da produtividade da maquinaria e da eficácia da publicidade.

Traduzindo para o Brasil dos últimos anos: por que uma startup de inteligência artificial vale mais no mercado do que uma indústria tradicional de alimentos? Não é porque a startup explore mais trabalho — é porque incorpora capital intelectual, produtividade marginal elevada, ganhos de escala e expectativa de monopólio temporário. A mais-valia marxista não explica o valor de mercado de uma plataforma digital; tampouco explica por que um aplicativo gratuito para o usuário final pode valer bilhões. O cálculo de "exploração", nessa chave, simplesmente não cobre a economia real.

O argumento mais forte da defesa, antes da resposta

Antes de descartar o marxismo como ferramenta analítica, é justo registrar o que seus defensores mais sérios apontam — e não são apenas militantes de partido.

Primeiro: a desigualdade existe, e não é trivial. Dados de renda e patrimônio mostram concentração persistente no Brasil, com índices Gini entre os mais altos do mundo. A crítica marxista à desigualdade tem, portanto, lastro empírico. Segundo: crises capitalistas recorrentes — 1929, 2008, e no Brasil os ciclos de instabilidade da década de 1980 e 1990 — sugerem que o sistema tem instabilidades endógenas que a teoria econômica padrão nem sempre antecipou. Terceiro: conquistas trabalhistas reais — jornada de oito horas, direito a férias, sindicalização — foram arrancadas em boa medida por mobilização operária de inspiração marxista, ainda que o marco institucional liberal tenha sido o que as consolidou de forma universal.

A resposta liberal, em termos de política pública

A resposta, para uma perspectiva liberal-conservadora, não é negar desigualdade nem instabilidade. É recusar que a única resposta correta para ambos seja a expansão do Estado, a planificação ou a abolição da propriedade privada. O liberalismo econômico reconhece que mercados falham — por isso admite regulação pontual, política antitruste e rede focalizada de proteção social. Mas recusa a substituição do mecanismo de preços por decisão política central, porque a evidência histórica do século XX — URSS, China pré-1978, Cuba, Coreia do Norte — é a de que economias planificadas produzem escassez, estagnação e, em última instância, ditaduras.

O Brasil, aliás, oferece um experimento natural instructive. Onde o Estado ocupou mais espaço — setores de energia, telecom e bancário, com estatais como Petrobras, Eletrobras e Banco do Brasil —, observou-se historicamente ineficiência, endividamento recorrente e captura política. Onde houve privatização ou regulação competitiva — telefonia, aviação, parte do sistema financeiro —, houve queda de preços ao consumidor, expansão de serviços e ganho de produtividade.

Onde o marxismo ainda dita política pública no Brasil

A presença da gramática marxista não é só retórica. Ela aparece em decisões concretas. Na reforma tributária aprovada em 2023, o debate foi conduzido em chave distributiva — "quem paga mais, quem paga menos" — com ênfase na progressividade como objetivo central. Na política de salário mínimo, a referência é frequentemente o conceito de "piso vital" e de reprodução social do trabalhador. No debate sobre terra, a "função social da propriedade" prevista na Constituição de 1988 tem inspiração direta no conceito marxista de propriedade. Na política educacional, os planos nacionais de educação e os livros didáticos ainda refletem, em boa parte, uma visão crítica de cunho marxista.

Para o analista liberal, o risco é que essas categorias sirvam, na prática, a justificar a expansão do Estado sobre a economia e a sociedade — mais tributação, mais regulação, mais controle — sem que os custos sejam explicitamente discutidos nem medidos.

Por que isso importa

A análise do Observador.pt aponta para um ponto cego do debate brasileiro: tratar o marxismo como mera teoria superada, sem perceber que ele continua ativo no vocabulário de quem propõe políticas. Para o leitor interessado em política pública, a consequência prática é tripla.

Primeiro, ignorar a gramática marxista da esquerda é entrar em desvantagem em qualquer debate sobre tributação, regulação ou função social da propriedade. Segundo, reconhecer onde a teoria do valor-trabalho falha — ao omitir utilidade, capital e produtividade — é recuperar o vocabulário da economia real, o que muda o resultado da discussão. Terceiro, separar a emoção de injustiça — que é real e legítima — da resposta política — que pode ser estatal, cara e ineficiente — é a diferença entre reconhecer um problema e agravá-lo.

Perguntas frequentes

O marxismo ainda é influente no Brasil? Sim. Continua presente em partidos de esquerda, movimentos sociais como o MST, entidades estudantis e em parte significativa da academia pública — o que se reflete em planos de governo e em políticas públicas.

A teoria do valor-trabalho está completamente errada? Não em todos os pontos, mas é insuficiente. Ignora fatores centrais da formação de preços em economias modernas: utilidade, capital fixo, produtividade da maquinaria, custos de matérias-primas e oportunidades comerciais.

Reconhecer desigualdade significa aceitar o marxismo? Não. Desigualdade é fato empírico. A resposta a ela pode ser liberal — regulação pontual, política antitruste, rede de proteção focalizada — sem passar pela expansão do Estado preconizada pela tradição marxista.

O liberalismo tem resposta para crises capitalistas? Tem, e opera por meio de regulação prudencial, política monetária e fiscal anticíclica e redes de proteção social — não pela planificação ou abolição da propriedade privada.

Por que o marxismo continuou vivo após a queda da URSS? Segundo o Observador.pt, porque sua força nunca foi científica, mas emocional. Continua canalizando sentimentos reais de injustiça para uma teoria que não responde bem à evidência empírica.

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