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Midterms 2026: Trump mira 2028 e democratas enfrentam crise

Midterms de 2026 nos EUA redesenham os dois partidos antes da disputa de 2028, com Trump disciplinando os republicanos e os democratas rumando à esquerda.

Por Beatriz Andrade Lima · · 6 min de leitura

Midterms 2026: Trump mira 2028 e democratas enfrentam crise
Midterms 2026: Trump mira 2028 e democratas enfrentam crise

As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para novembro, ocorrem em um momento peculiar da política americana: o presidente Donald Trump está impedido pela Constituição de concorrer novamente, e, ainda assim, faz das primárias e da convenção republicana um instrumento de domínio pessoal sobre o partido. Do outro lado, os democratas atravessam uma crise de identidade que os empurra para a franja mais à esquerda, sob pressão de uma base jovem que rejeita os nomes estabelecidos da era Biden-Pelosi. As midterms de 2026 — para usar a metáfora brasileira — não decidirão apenas quem controla o Congresso; vão redesenhar os dois partidos que protagonizam a disputa de 2028, com repercussões que vão da política imigratória ao preço do seguro-saúde.

O Partido Republicano nas mãos de quem não pode mais disputar

Trump realizou nos dias 9 e 10 de setembro, no Texas, o que seria impensável em uma campanha normal: uma convenção partidária fora do ciclo presidencial. Convenções existem para consagrar candidatos à Casa Branca. Ao transformar a reunião em um ato de reafirmar seu próprio comando sobre o Partido Republicano, o presidente enviou uma mensagem clara a governors, senadores e deputados: quem quiser sobreviver politicamente em 2028 precisa passar pelo crivo do trumpismo — mesmo que Trump não esteja na cédula.

Alguns candidatos ao Congresso optaram por se ausentar do evento. Segundo o portal Abril.com.br, a justificativa oficial foi a baixa popularidade do governo — Trump amarga índices entre 37% e 41% de aprovação, pressionado pela persistente alta de preços —, mas a leitura política mais plausível é a de quem busca distância de um chefe impopular sem romper com a base MAGA. Para o presidente, a convenção foi oportunidade de apertar os nós que ligam a legenda a seu legado, funcionando como um instrumento de poder que a Constituição não lhe dá pelas vias eleitorais.

O precedente é conhecido. George W. Bush perdeu a maioria nas duas Casas em 2006 com popularidade parecida à de Trump hoje. O próprio Trump, com 44% de aprovação no meio do primeiro mandato, viu os republicanos virarem minoria na Câmara em 2018. O histórico pesa contra o partido governista, e o modelo de Nate Silver aponta 86% de chance de os democratas recuperarem a Câmara e 59% de obterem o mesmo no Senado — onde precisam de ao menos quatro cadeiras adicionais.

A esquerda americana em sua encruzilhada interna

Se o trumpismo domina o Partido Republicano pela força de uma personalidade, os democratas vivem dinâmica inversa: a ausência de liderança forte abriu espaço para que a franja mais à esquerda disputasse a hegemonia ideológica do partido. O declínio político de Joe Biden e de Nancy Pelosi deixou um vácuo que ninguém até agora preencheu de forma convincente — e a corrida interna passou a ser decidida nas primárias, onde votam os filiados mais ativistas, em geral mais progressistas do que o eleitorado geral.

O resultado aparece nas candidaturas que emergem desse processo. No Michigan, o médico Abdul El-Sayed, filho de imigrantes egípcios, venceu a primária democrata para o Senado prometendo serviço de saúde universal e o fim do ICE, a polícia imigratória federal. Em um mês, sua vantagem sobre o republicano Mike Rogers saltou de 1,6 para 2,9 pontos, segundo dados divulgados pelo portal Abril.com.br. Na Câmara, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez e o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, são as vozes mais visíveis do grupo ligado aos Socialistas Democráticos da América (DSA). Trump os rotula de "comunistas insanos"; a ala, como se vê, prefere o rótulo de "progressistas".

A tensão interna democrata não é mera disputa por holofotes. Ela encarna uma pergunta substantiva sobre o tamanho e o papel do Estado. Propostas como saúde gratuita universal e abolição da polícia migratória representam não só um choque cultural com o eleitorado moderado que os democratas precisam para vencer em estados como Ohio, Alasca, Iowa e o próprio Texas — onde Trump venceu folgadamente em 2024 —, mas também um salto de gasto público de monta difícil de justificar mesmo em padrões europeus.

O que está em jogo em novembro

Para a política americana, três processos convergem nestas midterms e merecem leitura atenta:

  • Reconfiguração do Partido Republicano — definir quem serão os herdeiros (ou prisioneiros) do trumpismo quando Trump deixar a Presidência em 2029. A ausência do líder nas cédulas de 2028 torna estas midterms uma prévia informal da sucessão.
  • Direção ideológica do Partido Democrata — saber se os democratas optarão por uma volta ao centrismo de Clinton-Obama, por uma atualização à esquerda como em 2020, ou por uma radicalização inspirado em Sanders, Ocasio-Cortez e Mamdani.
  • Custo de vida como variável eleitoral — a inflação persistente é o tema que mais derruba a aprovação de Trump e que, no histórico recente, custou a maioria parlamentar de Bush e do próprio Trump em seus primeiros mandatos.

Por que isso importa para além de Washington

O sistema político americano exporta referências. Quando os EUA definem se o limite entre "progressista" e "socialista" será ou não cruzado por um dos dois grandes partidos, a decisão entra na conversa pública de dezenas de países — inclusive do Brasil, onde as disputas ideológicas se alimentam, para o bem e para o mal, do vocabulário e dos símbolos norte-americanos.

Para o contribuinte, a lição é direta: pacotes de promessas generosas financiados por dívida pública tendem a envelhecer mal. Para quem cumpre a lei e para quem depende de serviços públicos de segurança, o debate sobre o ICE é emblemático — não se trata de uma "polícia boa ou má" no abstrato, mas do instrumento que executa a política migratória que o Congresso e o presidente definiram. Defendê-lo ou atacá-lo é uma escolha de política pública, não de moralidade automática.

Há ainda um aspecto institucional relevante: a crescente personalização dos partidos em torno de uma figura — Trump de um lado, uma constelação de influenciadores de outro — enfraquece os mecanismos tradicionais de freios e contrapesos dentro das legendas. Em democracias presidencialistas, esse tipo de movimento costuma terminar em ciclos de hostilidade entre Executivo e Legislativo, com prejuízo direto para a segurança jurídica e para a previsibilidade econômica.

Perguntas frequentes

O que são exatamente as midterms?

São as eleições de meio de mandato, realizadas dois anos após a presidencial e dois antes da seguinte. Renovam toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado, além de governadores e assembleias estaduais. Costumam funcionar como termômetro do governo federal.

Por que Trump fez uma convenção fora do ciclo presidencial?

Para reafirmar seu controle sobre o Partido Republicano, disciplinar candidatos pouco alinhados e transformar o encontro em uma vitrine de poder pessoal, já que não pode disputar a Presidência em 2028.

As pesquisas realmente apontam vitória democrata?

Segundo o portal Abril.com.br, o modelo de Nate Silver atribui 86% de chance de os democratas recuperarem a Câmara e 59% de conquistarem o Senado. Pesquisas nos EUA, porém, têm histórico recente de erros sistemáticos, e o quadro só se confirma com as urnas.

Quem é Abdul El-Sayed?

Médico sanitarista e filho de imigrantes egípcios, venceu a primária democrata para o Senado pelo Michigan com plataforma que prevê saúde gratuita universal e o fim do ICE. Lidera a disputa contra o republicano Mike Rogers.

Qual o risco real de uma guinada socialista no Partido Democrata?

O risco é eleitoral mais do que programático: candidatos da ala DSA têm dificuldade de avançar em estados competitivos. Para a governabilidade, porém, mesmo uma minoria progressista influente já basta para travar pautas de gasto e de segurança pública, como se viu no ciclo Obama-Sanders.

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