O paradoxo argentino: contas no azul, vagas no vermelho
Milei chega ao terceiro ano de mandato diante do teste político mais delicado desde que assumiu a Presidência. Os indicadores macroeconômicos contam uma história de sucesso inegável: a inflação que chegou a três dígitos foi cortada por mais da metade, o resultado primário voltou ao azul e a atividade retomou o crescimento após o choque inicial do ajuste. O mercado de trabalho formal, porém, continua resistindo. Segundo o portal Abril.com.br, desde a posse de Milei a Argentina eliminou cerca de 241 mil postos de trabalho assalariados registrados no setor privado — uma redução de aproximadamente 4%. E o número de empresas com empregados registrados também encolheu.
Os números colocam o presidente libertário em uma posição politicamente desconfortável a menos de dois anos da eleição presidencial de 2027. O capital político de Milei foi construído, antes de tudo, sobre a promessa de derrotar a inflação e colocar as contas públicas em ordem. Ambos os objetivos foram ao menos parcialmente alcançados. Mas, à medida que o peso da inflação diminui na avaliação econômica, a atenção da população migra para o que os economistas chamam de variáveis "reais": emprego, renda e capacidade de consumo. É justamente nesse terreno que o governo argentino ainda não tem boas notícias para apresentar.
O que o programa Milei já entregou — e o que ainda não entregou
A lista de conquistas é real e não deve ser minimizada, nem mesmo por aqueles que criticam os custos sociais do ajuste. A inflação anual, que ultrapassou 200% em dezembro de 2023, vem caindo de forma consistente. O Tesouro alcançou superávit primário — feito que parecia inalcançável depois de anos de déficits peronistas financiados por emissão monetária. As contas externas se estabilizaram, o câmbio encontrou um piso e, depois da contração brutal dos primeiros trimestres, o PIB voltou a crescer. Mesmo o risco-país, apesar de oscilações recentes, ficou abaixo do verificado no final da administração anterior.
O problema é que essa recuperação macroeconômica não se traduziu em emprego formal. A contradição não é nova na história argentina — é, na verdade, um padrão estrutural. Mas ela se torna especialmente aguda sob um governo cuja aposta é justamente a liberação das forças produtivas. Quando um país corta gastos, desregulamenta e reduz a pressão inflacionária, a expectativa é de que o investimento privado e a contratação respondam. Na Argentina, até aqui, essa transmissão não ocorreu no mercado formal.
Para onde estão indo os trabalhadores?
Os dados compilados pelo portal Abril.com.br indicam que os argentinos que deixam o mercado formal migram para atividades informais ou por conta própria. Trata-se de um movimento particularmente preocupante do ponto de vista de quem defende uma agenda econômica liberal. A economia informal, por definição, está fora do sistema tributário, fora da proteção trabalhista e fora do sistema de crédito. Um trabalhador que sai de um emprego registrado para fazer bicos sem contrato ganha autonomia, mas perde previdência, contribuição para aposentadoria, cobertura de acidentes e acesso a crédito formal. Para o Estado, o trabalhador informal também é problema: deixa de contribuir e segue consumindo serviços públicos.
Em outras palavras, a reforma que priorizou o equilíbrio fiscal e a estabilidade macroeconômica está produzindo, no campo do trabalho, um efeito oposto ao esperado: não a modernização da estrutura produtiva argentina, mas sua informalização.
O custo político da transição
A pergunta que a política argentina terá de responder nos próximos dois anos é se essa trajetória é um custo de transição, doloroso mas temporário, no caminho para uma economia mais eficiente, ou uma falha estrutural do modelo Milei. A distinção importa muito para a disputa de 2027.
Se o emprego se recuperar em 2026, com o mercado formal absorvendo parte daqueles que foram para a informalidade, a narrativa política de "o ajuste valeu a pena" se sustentará. Se, ao contrário, a destruição de postos formais persistir ou se agravar, o peronismo — que já mostrou saber explorar o trauma do desemprego — terá um argumento poderoso para 2027. A recente disparada do risco-país, registrada pelo Abril.com.br como sinal de que "o mercado perde a paciência", sugere que investidores também passam a temer esse segundo cenário.
O que isso ensina ao liberalismo regional
Para o centro-direita e para os intelectuais liberais que apoiaram Milei, a lição é incômoda, mas necessária: a ortodoxia macroeconômica, por si só, não garante sustentabilidade política. É preciso que o ajuste também produza oportunidades — e que essas oportunidades sejam visíveis à população que arca com os custos da transição.
Há ainda um ponto que precisa ser dito com clareza: o caso argentino não invalida o diagnóstico que o governo Milei fez ao tomar posse. A herança recebida era, de fato, catastrófica — déficit fiscal financiado por inflação, câmbio insustentável, dívida pública fora de controle. A correção fiscal, nesse contexto, era necessária. A questão não é se Milei tinha de ajustar, mas se o ajuste foi completo a ponto de incluir a reforma dos fatores que mantêm a economia formal argentina cronicamente deprimida. Pelo que mostram os dados do Abril.com.br, a resposta ainda é não.
O que significa para o Brasil
Para o observador brasileiro, o caso argentino é mais do que uma curiosidade — é um laboratório. O Brasil conduz nos últimos anos o próprio ajuste fiscal lento, com cortes muito menores e retórica bem menos ortodoxa. Os dados argentinos sugerem dois alertas.
- O ajuste fiscal sem crescimento do emprego formal gera erosão social que, mais cedo ou mais tarde, chega às urnas.
- A reforma trabalhista — que no Brasil ainda enfrenta resistência forte — não é opcional para quem deseja liberalização sustentável: sem reduzir o custo de contratar, a desregulamentação dos demais setores acaba concentrando o ajuste no trabalhador formal.
Por que isso importa
Os 241 mil postos eliminados não são apenas um número: são eleitores, famílias e comunidades que perderam a previsibilidade do salário formal. Em um país onde o peronismo construiu sua identidade em torno da defesa do trabalho registrado, o desaparecimento desses postos é, ao mesmo tempo, um problema econômico e uma bomba-relógio política. Nos próximos dois anos, o desafio central do governo Milei não será a inflação — será produzir evidência convincente de que o ajuste está gerando uma economia real, e não apenas contas equilibradas.
Para reformadores liberais na região, a experiência argentina oferece uma lição e um aviso: a sustentabilidade eleitoral de um ajuste depende da sua capacidade de gerar, em horizonte de tempo razoável, empregos que compensem os custos da transição. Sem isso, a vitória macroeconômica vira derrota política.
Perguntas frequentes
Por que o emprego formal não recuperou junto com a atividade?
Segundo o Abril.com.br, o número de empresas com empregados registrados também encolheu no período, o que indica que a retomada da atividade vem se concentrando em segmentos de menor intensidade de mão de obra ou de maior informalidade. O ajuste no gasto público e a contração de setores subsidiados também reduziram a demanda por trabalho registrado.
Essa situação é reversível antes de 2027?
Depende de fatores que escapam ao controle do governo, como o cenário internacional, a safra agrícola e o ciclo de investimentos. Mas depende também de pautas de reforma ainda pendentes no Congresso, em especial a reforma trabalhista e a tributária. Sem avanços nessas frentes, o emprego formal tende a continuar atrasado.
Qual é o risco político concreto para Milei?
Com a inflação perdendo peso na avaliação popular, emprego e renda passam a ser o principal termômetro do governo. Se a contratação formal não se recuperar até meados de 2026, a oposição terá espaço para reconstruir a narrativa de que o ajuste serve ao mercado e não ao povo. A eleição de 2027 fica competitiva.
Existe risco de contágio para o Brasil?
O contágio direto é limitado — a economia brasileira tem dinâmica própria e base produtiva muito mais diversificada. Mas o contágio ideológico é real: o fracasso do modelo Milei, se confirmado, fortaleceria o argumento da esquerda brasileira de que ajuste fiscal é socialmente inviável e enfraqueceria a agenda liberal no centro-direita.
O que isso significa para os investidores?
A alta do risco-país, registrada pelo Abril.com.br, mostra que parte do mercado já precifica risco político somado ao risco fiscal. Para o investidor, a mensagem é que estabilização macroeconômica sem sustentabilidade política é equilíbrio frágil.
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