O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, transformou o prefeito eleito de Nova York, Zohran Mamdani, em peça central de uma peça de propaganda eleitoral às vésperas das eleições israelenses de 27 de outubro. Em anúncio veiculado nesta segunda-feira (17), Mamdani aparece lado a lado com o líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, com o chefe do Hezbollah, Naim Qassem, e com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan — todos sob a legenda "eles querem que Netanyahu perca. Não os deixem vencer", segundo reportagem do portal Abril.com.br.
A imagem foi repostada por Netanyahu e compartilhada pelo Likud, seu partido, em um momento de fragilidade política que ele próprio reconhece ao pedir o voto: Netanyahu busca um novo mandato após se tornar o premiê há mais tempo no cargo na história de Israel, e a fragmentação do parlamento ameaça sua coalizão. A escolha do adversário simbólico é didática: Mamdani é jovem, muçulmano, autodeclarado socialista democrático, crítico declarado da ofensiva israelense em Gaza — e, semanas antes, havia prometido prender Netanyahu caso o premiê pisasse em Nova York para a Assembleia Geral da ONU.
O que está em jogo na propaganda israelense
O anúncio não é apenas um ataque personalizado. É uma tentativa de redefinir o campo eleitoral em torno de uma ameaça existencial, método clássico de campanhas conservadoras em todo o mundo quando o governo sente que a conjuntura econômica ou institucional lhe é desfavorável. Em Israel, especificamente, três elementos se somam:
- A derrota judicial e diplomática representada pelo mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) contra Netanyahu, acusado de crimes de guerra em Gaza — algo que até aliados europeus passaram a tratar como constrangimento diplomático.
- O desgaste interno de uma guerra que entrou no terceiro ano sem vitória militar conclusiva e com custo humano elevado entre soldados israelenses.
- A ascensão, nas principais democracias ocidentais, de líderes jovens com posições críticas a Israel — fenômeno que, para o eleitorado israelense de direita, assume contornos quase ideológicos.
Ao colocar Mamdani, Khamenei, Qassem e Erdogan no mesmo quadro, Netanyahu executa um movimento retórico que cumpre duas funções simultâneas: ativar a base ao sugerir que a existência do Estado judeu está em disputa, e deslocar o debate doméstico — corrupção, custo de vida, divisão da coalizão — para o terreno em que seu eleitorado é mais coeso, o da segurança nacional.
Quem é Zohran Mamdani e por que ele virou alvo
Zohran Mamdani venceu a prévia democrata para a prefeitura de Nova York em junho deste ano, derrotando o ex-governador Andrew Cuomo. Com 33 anos, nascido em Uganda, deputado estadual e membro do Democratic Socialists of America, ele defende plataforma de esquerda marcante: congelamento de aluguéis, transporte público gratuito, expansão de moradia popular e, na política externa, aberta defesa da causa palestina e críticas duras ao governo Netanyahu.
Foi justamente esse último ponto que o colocou na mira israelense. Em agosto, Mamdani declarou que, se Netanyahu comparecesse à ONU em Nova York em setembro, daria cumprimento ao mandado do TPI e o prenderia. Depois recuou parcialmente — o prefeito municipal não tem, de fato, autoridade sobre federalização de prisões nem jurisdição sobre chefes de Estado estrangeiros protegidos por imunidade diplomática —, mas manteve o tom: pediu ao governo federal americano que tomasse a frente.
Para Netanyahu, Mamdani é o avatar de uma esquerda ocidental que, em sua leitura, rompeu a solidariedade histórica com Israel e passou a tratar o país como pária internacional. A propaganda, nesse sentido, não mira Mamdani: mira o eleitor israelense que assiste à sua direita se fragmentar.
O eixo Doha-Ankara-Teerã na moldura conservadora
A inclusão do presidente turco Erdogan no mesmo quadro merece leitura própria. Turquia e Israel viveram décadas de cooperação estratégica — nos anos 1990 e 2000, foram aliados próximos em contratos militares, turismo e energia — até a ruptura impulsionada pelo AKP, partido de Erdogan, a partir de 2009. Hoje, Erdogan é um dos críticos mais vocais do governo israelense e anfitrião de lideranças do Hamas em Istambul.
Já o Irã e o Hezbollah são ameaças securitárias tradicionais, não retóricas. O Irã financia o Hezbollah e organiza, via Hizballah e milícias xiitas na Síria e Iraque, o chamado "eixo da resistência" contra Israel. A inclusão desses dois no quadro é o elemento menos controverso da peça. Erdogan, por outro lado, é a ponte que aproxima o conflito regional do leitor israelense comum, para quem Istambul é lembrança de férias baratas interrompidas — não só de jihadismo distante.
A opção estética — fundo preto, rostos em fileira, frase direta — também não é acidental. É a gramática visual da propaganda securitária anglófona, replicada do pôster cinematográfico e da arte de guerra psicológica. Não busca informar; busca ser lembrada.
O que essa disputa tem a ver com o Brasil
Mais do que pode parecer à primeira vista. O Brasil tem se posicionado sistematicamente ao lado de críticos da ofensiva israelense em Gaza: o governo Lula retirou o embaixador de Tel Aviv, comparou a ação militar em Gaza à Shoah, e manteve aberto o diálogo com o Hamas e com o Irã. No debate doméstico brasileiro, figuras progressistas costumam apresentar Mamdani como referência positiva — jovem, identitário, antissionista —, assim como o PT enxerga no TPI um instrumento legítimo de "lawfare" seletivo quando mira Netanyahu e, ao mesmo tempo, repudia o uso do mesmo tribunal contra Vladimir Putin.
Para um observador de centro-direita brasileiro, há dois pontos de fricção intelectual que essa propaganda israelense ajuda a iluminar:
- Coerência seletiva do internacionalismo progressista. Quando uma esquerda europeia ou americana executa um mandado do TPI, é "justiça internacional". Quando o mesmo tribunal mira Moscou, é "instrumentalização imperialista". A inconsistência não invalida o direito internacional — mas exige honestidade na sua aplicação.
- Distinção entre crítica legítima e relativismo moral. É perfeitamente possível — e, para esta análise, necessário — condenar operações militares israelenses que matam civis e ferem o direito humanitário sem, por isso, tratar Israel como Estado pária equivalente à teocracia iraniana. A propaganda de Netanyahu é rude, mas o ponto de que existe diferença qualitativa entre uma democracia com freios e contrapesos e um regime teocrático que financia milícias em cinco países continua sendo factual.
Por que isso importa agora
A três semanas da eleição, Netanyahu precisa converter o medo geopolítico em voto doméstico. Se conseguir unificar o campo da direita e capturar o centro preocupado com segurança, mantém o cargo. Se a economia e o ceticismo em relação ao prolongamento da guerra prevalecerem, abre-se espaço para uma coalizão alternativa — possivelmente sem ele.
Para o Brasil, as consequências são menos diretas, mas reais: a próxima rodada de tensão no Conselho de Segurança da ONU sobre Gaza e Líbano acontece nos próximos meses, e o governo Lula terá de definir até onde leva a ruptura com Israel sem romper o fluxo comercial e tecnológico com Tel Aviv. A instrumentalização política de Mamdani por Netanyahu é um lembrete prático de que a política externa não é vitrine moral: é disputa de poder com consequências em aduanas, contratos de defesa e cadeias de suprimento.
Para o leitor brasileiro de centro-direita, o episódio é também um exercício útil de ceticismo recíproco: não se deve comprar nem a narrativa de que Israel age em autodefesa pura, nem a de que seus críticos no Ocidente são todos agentes de Teerã. A realidade é mais bagunçada e menos cinematográfica do que qualquer propaganda — inclusive a de Netanyahu.
Perguntas frequentes
Quem é Zohran Mamdani?
Político americano de 33 anos, nascido em Uganda, deputado estadual em Nova York e membro do Democratic Socialists of America. Venceu a prévia democrata para a prefeitura de Nova York em junho deste ano e derrotará o adversário republicano na eleição de novembro. Defende esquerda econômica agressiva e é crítico declarado do governo Netanyahu.
O que é o mandado do TPI contra Netanyahu?
Mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional em 2024, acusando o premiê israelense e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant de crimes de guerra e contra a humanidade relacionados à ofensiva em Gaza. Israel não reconhece a jurisdição do TPI e considera o mandado politicamente motivado.
Quando acontecem as eleições em Israel?
As eleições gerais estão marcadas para 27 de outubro de 2025, segundo o texto de referência. Netanyahu tenta se manter no cargo de premiê, que ocupa há mais tempo na história do país.
Por que Erdogan aparece junto com líderes do Irã e do Hezbollah?
Porque, do ponto de vista da diplomacia israelense, Erdogan rompeu a aliança estratégica do passado e se tornou um dos críticos mais duros do governo Netanyahu, mantendo diálogo com o Hamas e organizações islâmicas. Inseri-lo no quadro permite a Netanyahu conectar o conflito regional a uma memória de cooperação perdida com um país da Otan.
O que isso muda para o Brasil?
Pouco no curto prazo, mas alimenta o debate sobre como o governo Lula posiciona o país entre a defesa do direito internacional humanitário, a crítica ao unilateralismo israelense e a proteção de interesses comerciais e tecnológicos com Tel Aviv — questão que tende a voltar ao Congresso e à imprensa nas próximas sessões da ONU.
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