A Bússola NacionalAnálise política
Eleições

Saxônia-Anhalt: AfD lidera com 20 pontos sobre a CDU de Merz

Saxônia-Anhalt testa o centro-direita: AfD lidera com 42% contra 22% da CDU de Merz e pode chegar ao primeiro governo estadual de extrema direita desde 1945.

Por Beatriz Andrade Lima · · 7 min de leitura

Saxônia-Anhalt: AfD lidera com 20 pontos sobre a CDU de Merz
Saxônia-Anhalt: AfD lidera com 20 pontos sobre a CDU de Merz

A Saxônia-Anhalt, Estado do centro-leste alemão, vai às urnas neste domingo (6) sob tensão política elevada: as pesquisas indicam que a Alternativa para a Alemanha (AfD) pode conquistar pela primeira vez um governo estadual desde o fim do regime nazista, com 42% das intenções de voto contra 22% da União Democrata Cristã (CDU) do chanceler Friedrich Merz, segundo o portal Terra.com.br. O tamanho da dianteira — vinte pontos percentuais sobre o partido do chanceler — transforma uma disputa regional em teste para o centro-direita liberal europeu, que assiste, mais uma vez, à dificuldade de converter pauta econômica responsável em maioria eleitoral.

O tabuleiro: Saxônia-Anhalt e o voto do leste alemão

A Saxônia-Anhalt reúne cerca de 2,1 milhões de habitantes e é um dos Estados com menor PIB per capita e maior envelhecimento demográfico da República Federal. Foi, até 1990, parte da Alemanha Oriental sob regime comunista, e três décadas e meia após a reunificação ainda concentra indicadores socioeconômicos inferiores à média ocidental.

Esse perfil ajuda a explicar um padrão eleitoral que se consolidou nas últimas duas décadas: a AfD e, em menor medida, A Esquerda (Die Linke) costumam performar muito acima da média nacional nos Länder orientais, enquanto os partidos do antigo bloco central — CDU e SPD — perdem densidade.

Na véspera da votação, cerca de 15 mil pessoas se reuniram na praça da Catedral de Magdeburgo, capital do Estado, em ato organizado como "festa pela democracia". Trata-se da expressão institucional e cívica de uma preocupação concreta: uma vitória da AfD abriria precedentes em políticas migratórias, na relação com a União Europeia e no tratamento de minorias. A leitura é legítima e deve ser enfrentada de frente, sem caricatura.

Quem é Ulrich Siegmund e o que está em disputa

O candidato da AfD na Saxônia-Anhalt é Ulrich Siegmund, 35 anos, engenheiro de formação e presidente estadual da legenda. A combinação — jovem, técnico, nascido já após a reunificação — não é acidental: a AfD trabalha deliberadamente para se apresentar como partido do futuro, e a líder nacional Alice Weidel sublinhou esse perfil no comício de encerramento, apontando para uma criança na plateia ao dizer: "Três anos e já está aqui! Nós somos o partido dos jovens, das famílias e do futuro".

Entre as propostas de campanha de Siegmund estão duas que dialogam diretamente com o eleitorado de centro-direita:

  • Fim do financiamento público a ONGs que atuam com refugiados, com o argumento de que recursos estaduais devem priorizar serviços básicos;
  • Extinção da taxa de radiodifusão pública (Rundfunkbeitrag), encargo obrigatório de 18,36 euros mensais por residência que financia emissoras como ARD, ZDF e Deutschlandradio.

A segunda proposta é a mais eloquente para a pauta liberal: o Rundfunkbeitrag é um imposto especial, cobrado de toda residência e de toda empresa, sem possibilidade de opt-out, e sustenta um sistema de mídia que, segundo críticos de dentro e fora da Alemanha, perdeu diversidade editorial ao longo das últimas décadas. A discussão sobre seu custo e sua governança é razoável — e anterior à AfD.

Já a primeira proposta envolve temas sensíveis. A funcionária de um conselho de refugiados ouvida pela ANSA, que pediu para não ser identificada, relatou ameaças ao escritório e insultos em redes sociais. A violência política dirigida a pessoas que trabalham em acolhimento é fato grave e precisa ser repudiada por qualquer corrente democrática, inclusive — e especialmente — pelo centro-direita, que costuma reivindicar o monopólio estatal do uso da força.

O que significa ser "governo estadual" na Alemanha

O sistema alemão é parlamentar. O governador (Ministerpräsident) é escolhido pela maioria do Landtag, e os Estados têm competências relevantes — polícia, educação, cultura e co-decisão no Bundesrat (câmara que representa os Länder no legislativo federal). Uma AfD no Executivo de um Estado, ainda que isolada por uma "cortina de fogo" ("Brandmauer") que exclui coalizões formais com o partido, ampliARIA a base parlamentar da legenda para negociar legislação, pressionar o governo federal e ocupar cadeiras-chave em comissões.

O dilema do centro-direita de Merz

Friedrich Merz chegou à chancelaria em maio de 2025 com a missão declarada de restaurar a competitividade econômica e endurecer a política migratória — duas pautas centrais para o eleitor que migrou da CDU para a AfD. Os números da Saxônia-Anhalt sugerem que essa missão está incompleta.

Três hipóteses explicam a persistência do abismo entre CDU e AfD no leste:

  1. Identidade regional: o voto de protesto no leste alemão mistura memória do socialismo real com desconfiança em relação às instituições de Berlim, queixas que a CDU herda por ter governado a reunificação.
  2. Custo de vida e migração: inflação, energia e percepção de pressão sobre serviços públicos locais alimentam a busca por alternativas, mesmo quando a proposta alternativa tem custos institucionais elevados.
  3. Estilo de comunicação: a AfD aposta em discurso direto, slogans simples e ataques a "elites"; a CDU de Merz, mesmo com endurecimento retórico, ainda carrega o perfil de partido de aparato.

Para o analista de centro-direita, o dado central é este: o cordão sanitário que exclui coalizões com a AfD pode ser defensável em termos de princípios, mas tem custo eleitoral — e quem paga esse custo é, paradoxalmente, o eleitorado mais sensivelmente atingido pelas mesmas disfunções que a AfD denuncia.

Por que isso importa além da Alemanha

Uma vitória da AfD na Saxônia-Anhalt não derruba o governo federal, mas reconfigura três eixos que interessam ao debate de centro-direita em todo o Ocidente:

  • Pressão sobre a política migratória europeia. A legitimação eleitoral de um partido que propõe fechamento de canais de acolhimento tende a deslocar o ponto de equilíbrio nas negociações do Pacto de Migração e Asilo da UE.
  • Credibilidade fiscal. A proposta de extinguir o Rundfunkbeitrag, isolada, é economia menor; em pacote com outras desonerações e restrições, abre discussão sobre como financiar bens públicos em economias envelhecidas.
  • Precedente institucional. Um governador de extrema direita rompe um tabu de oito décadas. O efeito simbólico é desproporcional ao peso demográfico do Estado — e costuma contaminar o debate federal nos meses seguintes.

Para o observador brasileiro, a lição que vem de Magdeburgo não é sobre AfD ou CDU nominalmente. É sobre a incapacidade do centro de oferecer respostas identificáveis a três demandas previsíveis: custo de vida, controle migratório e confiança nas instituições. Quando o centro-direita liberal responde a essas demandas com ambiguidade, abre espaço para que o conflito migre para as pontas.

Perguntas frequentes

A AfD já está confirmada como vencedora?

Não. As pesquisas de intenção de voto indicam 42% para a AfD e 22% para a CDU, mas o resultado oficial será apurado no domingo (6). A disputa real ocorre pela composição da maioria no Landtag.

O que é o "cordão sanitário" na Alemanha?

É o entendimento vigente entre CDU, SPD, Verdes e FDP de não formar coalizões com a AfD em nenhum nível. Mesmo que vença a eleição estadual, a AfD dificilmente terá maioria própria para governar e teria de buscar alianças — improváveis — para indicar o governador.

O Siegmund é mesmo "o homem mais perigoso da República", como escreveu a Spiegel?

A autoironia dele ao citar a revista é parte da estratégia de campanha. A caracterização da Spiegel reflete a leitura da imprensa tradicional alemã, não uma descrição consensual. O peso institucional real dependerá das políticas que vier a executar e da força de seu Executivo.

O que a AfD propõe de diferente em relação à CDU na economia?

Em temas como tributação e desregulação, há convergências pontuais. As diferenças concentram-se em política migratória, identidade nacional e relação com a UE — áreas em que a AfD rompe com o mainstream europeu.

O resultado pode mudar a política externa alemã?

Indiretamente, sim. Governadores integram o Bundesrat, câmara que precisa aprovar leis que afetam competências estaduais. Uma bancada maior da AfD ampliaria a contestação de políticas federais em temas como energia, defesa e imigração.

Gostou desta análise? Compartilhe com quem quer entender a política brasileira além da manchete e assine a newsletter d'A Bússola Nacional.

Leia também

Receba as análises da semana

Um resumo do que importa na política brasileira, direto no seu e-mail. Sem spam.

Ao se inscrever, você concorda com a nossa política de privacidade. É possível cancelar a qualquer momento.