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Partidos destinam R$ 2,4 mi a celebridades para 2026

Partidos destinam R$ 2,4 milhões do fundo público a celebridades como Silvia Abravanel em 2026, expondo assimetria que enfraquece a qualidade do Congresso.

Por Marina Cordovil · · 7 min de leitura

Partidos destinam R$ 2,4 mi a celebridades para 2026
Partidos destinam R$ 2,4 mi a celebridades para 2026

O levantamento do portal Metropoles.com com base nos dados declarados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revela que, nas eleições de 2026, partidos brasileiros estão destinando cifras milionárias do financiamento partidário a celebridades para disputar cadeiras na Câmara dos Deputados e nas Assembleias Legislativas. Os valores chegam a quase R$ 2,4 milhões no recorte feito pela reportagem, com destaque para a apresentadora Silvia Abravanel, filha de Silvio Santos, contemplada com aproximadamente R$ 2,4 milhões do PSD para a corrida a uma vaga de deputada federal por São Paulo. O caso não é isolado: o mesmo ciclo mobiliza nomes como o do humorista Marquito do Ratinho, agora candidato a deputado estadual. Para quem se preocupa com o tipo de representação que o sistema partidário financia, o dado merece mais do que uma chamada de página de fofoca.

Os números e os nomes

Segundo a reportagem, a cifra de R$ 2,4 milhões recebida por Silvia Abravanel é uma das mais robustas entre os nomes de celebridade declarados até o momento ao TSE. A estratégia é declarada: partidos apostam na popularidade de apresentadores, humoristas, atores, influenciadores e ex-participantes de realities para converter reconhecimento de tela em votos nas urnas. O movimento não nasce em 2026 — a presença de artistas em disputas legislativas já é realidade consolidada em ciclos anteriores —, mas o volume financeiro aplicado e a sofisticação da engenharia partidária em torno desses nomes chamam a atenção neste ano.

  • Silvia Abravanel (PSD) — candidata a deputada federal por São Paulo; cerca de R$ 2,4 milhões do partido.
  • Marquito do Ratinho — anunciada candidatura a deputado estadual após grave acidente de moto; também agraciado com recursos partidários.
  • Outros nomes — artistas, influenciadores e ex-participantes de realities recebendo financiamento para Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas e Câmara dos Deputados, conforme o levantamento.

De onde vem o dinheiro — e por que isso muda o debate

Os recursos aplicados são partidários, ou seja, formalmente pertencem ao partido e não ao apresentador. Boa parte da estrutura financeira das legendas brasileiras tem origem no Fundo Partidário, alimentado com recursos do Orçamento da União. Cada real destinado a uma campanha de celebridade é, simultaneamente, um real que deixa de ser aplicado em outro projeto — seja a candidatura de um técnico, de um vereador em início de carreira ou de um nome com menor musculatura midiática.

Essa alocação é decisão interna de cada legenda, e o TSE fiscaliza apenas o cumprimento de regras formais: tetos, prestação de contas, origem dos recursos e aplicação dentro do permitido. Não cabe à Justiça Eleitoral avaliar se a escolha é boa ou ruim para o sistema representativo. A escolha é política — e é exatamente por isso que o exame crítico cabe à sociedade.

O argumento mais forte em defesa das celebridades na urna

Antes de formular a crítica, é justo apresentar a defesa na sua versão mais robusta. Quem defende a presença de artistas na disputa legislativa costuma articular três pontos:

  1. Reconhecimento é capital político legítimo. Em democracias de massas, a familiaridade do eleitor com o nome do candidato reduz o custo da decisão e amplia comparecimento — não há nada de fraudulento nisso. Outros países, como Estados Unidos e Itália, normalizaram a entrada de celebridades em legislativos.
  2. Democratiza o acesso. Candidatos de famílias tradicionais ou de grupos com base partidária histórica entram em vantagem estrutural. Celebridades originárias do entretenimento rompem esse filtro e oferecem ao eleitor opções que não dependem de clãs partidários.
  3. São os cidadãos que decidem. Em última instância, é o voto que valida — ou não — qualquer candidatura. Se o eleitor considera que a celebridade o representa melhor que alternativas disponíveis, a escolha pertence a ele. Criticar é, nesse raciocínio, tutelar a autonomia do eleitor.

Trata-se de uma defesa coerente com uma visão liberal-democrática. Merece ser levada a sério.

A leitura crítica a partir do centro

A avaliação desta análise vai na direção oposta. Não por desprezo ao entretenimento, mas por três razões pragmáticas — mensuráveis, não moralistas.

Primeiro, o financiamento é coletivamente sustentado. Os recursos não saem do bolso do partido: provêm de um fundo abastecido por toda a sociedade, inclusive por contribuintes que jamais assistiram a um programa do SBT. Quando uma legenda direciona R$ 2,4 milhões a uma candidatura de celebridade, está tomando uma decisão de investimento sobre dinheiro público. A pergunta não é se a celebridade tem talento, e sim se o uso do recurso maximiza representação qualificada — e essa é uma pergunta legitima de qualquer contribuinte.

Segundo, há assimetria gritante. O mesmo sistema que entrega valores robustos a nomes com milhões de seguidores entrega migalhas a candidatos locais sem exposição, frequentemente mais conectados às pautas concretas de uma comunidade. O efeito não é apenas distributivo: é competitivo. Um candidato competitivo que disputa verba com um apresentador nacional parte em desvantagem, e a regra do jogo se torna hostil à renovação política.

Terceiro, representação não é marketing. O mandato legislativo envolve técnica legislativa, controle do Executivo, negociação orçamentária e leitura de políticas públicas. Não há evidência de que popularidade midiática correlacione com desempenho nessas funções. Pode haver exceções individuais, mas a aposta sistemática em marketing eleitoral empobrece o capital institucional do Congresso e, no limite, o debate público.

Por que isso importa

O caso de Silvia Abravanel e dos demais nomes milionários não é anedótico: é sintoma. Diz algo sobre a transformação das campanhas em operações de venda, sobre a redução do debate político a rostos reconhecíveis e sobre a alocação de recursos coletivos que poderia cumprir função mais nobre. Para o eleitor conservador e liberal, há três consequências concretas:

  • Qualidade do Congresso. Câmaras e Assembleias mais dependentes de marketing tendem a produzir legislativos mais fracos tecnicamente, com menos capacidade de fiscalizar o Executivo e de legislar com profundidade — o que reduz accountability sobre gasto público, justamente o ponto que mais custa ao contribuinte.
  • Pressão sobre o financiamento. Episódios como esse alimentam o estoque de argumentos pela redução do fundo público às legendas. Pode haver propostas demagógicas no debate, mas a direção é correta: dinheiro público deveria ir cada vez mais para o que serve ao cidadão, menos para estruturas partidárias que, em muitos casos, funcionam como agências de marketing eleitoral.
  • Reforma da representação. A normalização da candidatura celebridade só reforça a urgência de discutir critérios mínimos de qualificação, transparência na aplicação de recursos e limites à conversão automática de fama em mandato — discussão que precisa ocorrer sem cair no paternalismo, mas também sem ingenuidade.

Perguntas frequentes

Essas candidaturas são legais? Até onde a reportagem do portal Metropoles.com permite afirmar, sim. Os valores são declarados ao TSE e estão sujeitos às regras de financiamento partidário. O que se questiona aqui é a conveniência política e distributiva do gasto, não a licitude.

De onde vem o dinheiro destinado a essas campanhas? Conforme a reportagem, são recursos partidários. No Brasil, o principal pilar do financiamento partidário é o Fundo Partidário, alimentado por dotações do Orçamento da União, além de doações de pessoas físicas e outras fontes legais. A proporção e as regras mudaram ao longo dos anos, mas a base pública segue relevante.

O eleitor é incapaz de avaliar uma celebridade candidata? Não é essa a tese. O ponto é que o sistema reduz a escolha do eleitor quando concentra verbas colossais em candidatos com exposição prévia, criando uma arena desigual. É diferente de dizer que o voto da plateia do SBT é inválido.

Celebridades podem ser boas legisladoras? Podem, e há exemplos pontuais. A questão é a política sistemática das legendas em transformar a telinha em trampolim para mandatos eletivos como regra, e não como exceção. Aposta em marketing não é plano de governo.

O que o centro-direita defende como alternativa? Menos recurso público para estruturas partidárias e mais para o cidadão direto; regras de transparência reforçadas; valorização de mérito e de inserção local; e, principalmente, confiança no eleitor para decidir — desde que a partida não comece com um jogador já três gols de vantagem.

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