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Patria vende solar na Colômbia e expõe entraves do Brasil

Patria vende à Brookfield usina solar de 360 MWp na Colômbia, em negócio que mostra o capital privado brasileiro na transição energética — mas trava no Brasil.

Por Beatriz Andrade Lima · · 7 min de leitura

Patria vende solar na Colômbia e expõe entraves do Brasil
Patria vende solar na Colômbia e expõe entraves do Brasil

O que está em jogo quando capital privado brasileiro vende energia limpa na Colômbia

Patria Investimentos — uma das maiores gestoras de capital privado da América Latina, nascida no Brasil — e a filial colombiana da britânica Ashmore anunciaram a venda da usina solar Puerta de Oro, com 360 MWp de capacidade instalada, para a Isagen, geradora controlada pela canadense Brookfield Renewable. O preço não foi divulgado, mas os números operacionais revelam a escala do ativo: 511 mil módulos espalhados por 530 hectares, com geração estimada de 728 GWh por ano, volume suficiente para abastecer mais de 390 mil residências colombianas, segundo o portal Terra.com.br.

O negócio importa por três razões que vão além do fato mercantil em si: diz sobre o papel do capital privado na transição energética, sobre a presença crescente de gestores brasileiros na América Latina e sobre o que ainda está faltando para que esse mesmo movimento aconteça com mais força dentro do Brasil.

Quem são os atores

  • Patria Investimentos: gestora brasileira de private equity, infraestrutura e crédito, com várias décadas de atuação e presença relevante em diversos países latino-americanos e nos Estados Unidos.
  • Ashmore Group: gestora britânica especializada em mercados emergentes, que opera na Colômbia por meio de fundo local, com estratégia regional focada em infraestrutura.
  • Isagen: uma das principais geradoras de energia da Colômbia, privatizada em 2013 e atualmente sob controle da Brookfield Renewable.
  • Brookfield Renewable: plataforma global de investimentos em hidrelétrica, eólica, solar e armazenamento, listada na NYSE, hoje a maior investidora institucional em energia limpa do mundo ocidental.

O movimento completo, portanto, envolve capital brasileiro e britânico saindo do ativo e capital canadense entrando — uma rotação privada em torno de um mesmo projeto de infraestrutura, sem participação estatal no financiamento principal da operação.

Por que isso importa: o modelo privado funcionando como deveria

A operação é, no essencial, uma demonstração de como a transição energética pode — e, na maioria dos casos, deve — ser financiada por capital privado. O Patria identificou a oportunidade, estruturou o projeto, desenvolveu-o e, no momento adequado, realizou o ganho vendendo para um operador de longo prazo. É o ciclo completo do investimento em infraestrutura funcionando como deveria: capital de risco entra cedo, capital estratégico assume a operação, o Estado regula, mas não precisa colocar o cheque.

Para a leitura liberal-conservadora, essa é uma distinção fundamental. O debate sobre energia limpa no Brasil frequentemente aparece travado em termos de subsídio estatal, marco regulatório híbrido e participação direta da Petrobras ou da Eletrobras. O caso Puerta de Oro mostra outro caminho: investidores privados alocando recursos próprios, assumindo o risco de construção e operação durante anos, e repassando o ativo pronto a outro privado que tem vocação para mantê-lo em carteira. O consumidor final recebe energia renovável; o contribuinte não precisou financiar a conta.

A fala do presidente-executivo de Infraestrutura do Patria, Pablo Cano, sintetiza a lógica: "Puerta de Oro representa uma história de sucesso para o Patria e reflete nossa capacidade de identificar oportunidades, estruturar e desenvolver ativos de infraestrutura de alto impacto e gerar valor ao longo de todo o seu ciclo de investimento". É exatamente a função que se espera de uma gestora: criar valor real, mensurável, em ativos produtivos.

O tamanho do ativo e o que ele significa

360 MWp em uma única usina solar colocam Puerta de Oro entre os maiores projetos do tipo na Colômbia. O país andino é um dos mais atrativos da região para renováveis: alta irradiação, matriz elétrica já com forte presença hidrelétrica — que funciona como bateria natural para compensar a intermitência solar — e marco regulatório estável após décadas de reformas.

O plano declarado pelo presidente da Isagen, Camilo Marulanda, de adicionar mais 1.000 MW solares nos próximos anos, dá uma ideia do pipeline de compras e expansões em formação e do apetite da Brookfield pelo mercado colombiano. Existe um mercado secundário ativo em torno de ativos energéticos latino-americanos, com compradores institucionais sólidos e vendedores buscando realização.

A pergunta que fica: por que mais disso não acontece no Brasil?

É aqui que a análise política começa a se separar da notícia de mercado. O Patria é uma gestora brasileira, com executivos em sua maioria brasileiros, construída aqui. Mesmo assim, este negócio relevante de solar acontece na Colômbia, não no Brasil.

Não há, na fonte, uma resposta direta — e seria desonesto inventar uma. Mas o registro é legítimo: investidores brasileiros com competência para identificar, estruturar e operar ativos de energia renovável estão escalando projetos na região enquanto, internamente, discute-se entre subsídios, conteúdo local, regras de leilão e divisão entre Estado e iniciativa privada. A insegurança jurídica em torno de contratos do setor elétrico, a instabilidade regulatória da ANEEL nos últimos anos e a elevação da carga tributária sobre investimentos de longo prazo figuram, no debate público, entre os fatores que reduzem o apetite privado doméstico.

Para esta análise, isso significa: o capital existe, a tecnologia existe, o know-how brasileiro existe. O que precisa ser discutido com seriedade é o ambiente institucional. Não é um problema de falta de dinheiro. É um problema de regras previsíveis, de tributação competitiva e de um Estado que respeite contratos.

Transição energética e o papel do Estado

O ponto de vista liberal-conservador sobre a transição energética parte de uma premissa simples: o Estado deve definir metas, regular com estabilidade e cobrar resultados — não operar diretamente nem escolher vencedores. A compra da Puerta de Oro pela Isagen/Brookfield mostra um arranjo coerente com essa visão: regulação colombiana estabeleceu regras claras, capital privado entrou e saiu conforme o ciclo, e o sistema elétrico ganha um operador de longo prazo.

Críticos de esquerda costumam apontar que esse modelo "privatiza os lucros e socializa os riscos". É uma objeção séria que merece resposta à altura, e não caricatura. A resposta liberal, no entanto, também é séria — e está nos próprios números: 728 GWh por ano de energia limpa entregues ao sistema, 390 mil residências atendidas, capital privado assumindo o risco de construção e operação durante anos. Não há, no acordo, garantia do Tesouro colombiano nem subsídio explícito ao consumidor final. O risco foi do investidor; o retorno, se vier, será dele.

Esse é o tipo de arranjo que precisa ser replicado — e, no Brasil, começa a sê-lo, ainda que timidamente, com a relicitação de ativos de transmissão, os contratos de reserva de capacidade e os primeiros certames relevantes de geração distribuída. A pergunta política de fundo é se o próximo ciclo será acelerado por segurança jurídica ou freado por intervencionismo.

Perguntas frequentes

Quem é o Patria Investimentos? Gestora brasileira de private equity, infraestrutura e crédito, com décadas de atuação e presença em diversos países da América Latina e nos Estados Unidos. É uma das maiores gestoras de ativos alternativos da região.

Quem é a Isagen? Geradora colombiana de energia, privatizada em 2013 e atualmente controlada pela Brookfield Renewable, uma das maiores plataformas globais de investimento em energia limpa, listada na NYSE.

Por que o preço da venda não foi divulgado? Segundo o portal Terra.com.br, as empresas se recusaram a informar o valor. É prática comum em transações bilaterais entre institucionais, sobretudo quando comprador e vendedor pretendem preservar discrição estratégica sobre a precificação do ativo.

O que essa operação diz sobre o Brasil? Indica que há capital privado brasileiro com capacidade técnica para desenvolver e operar grandes projetos de energia renovável no exterior. A comparação inevitável — e que cabe ao leitor fazer — é com o ritmo de projetos similares dentro do Brasil, onde o ambiente regulatório e tributário impõe mais fricção.

Isso é uma privatização? Não no sentido clássico. É uma transação entre empresas privadas — Patria, Ashmore e Isagen/Brookfield — sem participação direta do Estado colombiano na compra. O Estado colombiano regula, licencia e fiscaliza; não opera o ativo.

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