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PF apura R$ 2 mi em emendas de Frias a filme sobre Bolsonaro

PF investiga R$ 2 milhões em emendas de Mario Frias ao Instituto Conhecer Brasil; contratos cruzados com doadores expõem uso partidário do orçamento público.

Por Otávio Salgado · · 6 min de leitura

PF apura R$ 2 mi em emendas de Frias a filme sobre Bolsonaro
PF apura R$ 2 mi em emendas de Frias a filme sobre Bolsonaro

A operação, os atores e o que está em jogo

A Polícia Federal cumpriu nesta quinta-feira (10) 49 mandados de busca e apreensão para investigar a trajetória de R$ 2 milhões em emendas parlamentares que, em 2024, foram do deputado federal Mario Frias (PL-SP) ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade presidida por Karina Ferreira da Gama — dona da Go UP Entertainment Ltd, produtora do longa "Dark Horse", sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. Karina e o próprio Mario Frias, que assina o roteiro do filme, são alvos da diligência, assim como ex-assessores do parlamentar e pessoas contratadas pelo instituto, entre elas Raphael Augusto Azevedo, ex-chefe de gabinete de Frias. Os mandados foram expedidos pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino e cumpridos em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal, segundo o portal Terra.com.br.

Mais do que uma operação policial, trata-se do desdobramento de uma suspeita antiga e conhecida: a de que emendas parlamentares — verba pública carimbada pelo Orçamento — estariam sendo canalizadas para um projeto cinematográfico de claro perfil político-partidário, com indícios de contratos cruzados entre o instituto receptor e empresas ligadas a doadores de campanha do próprio deputado e a assessores do mesmo gabinete.

O caminho do dinheiro público: das emendas ao longa-metragem

O traçado descrito pela investigação tem contornos clássicos. Em 2024, Frias indicou R$ 2 milhões em emendas ao ICB, instituição presidida por Karina. A PF, segundo a reportagem, debruçou-se sobre contratos celebrados pelo ICB e também pela Academia Nacional de Cultura (ANC), outra entidade sob a mesma presidência, com empresas que, no papel, deveriam prestar serviços — mas que tinham em comum um detalhe revelador:

  • Laços com doadores da campanha do próprio Frias;
  • Vínculos com ex-assessores parlamentares;
  • Conexão com o advogado do deputado.

Para os investigadores, há fundada suspeita de que parte desses contratos tenha sido simulada ou diretamente fraudulenta — isto é, de que tenham servido menos à execução de serviços reais e mais à devolução disfarçada do recurso público ao circuito político do parlamentar.

Mesmo que nenhuma irregularidade seja provada ao fim do inquérito, o desenho levanta uma questão de princípio que independe do signo ideológico de quem está sentado no banco dos investigados: faz sentido que dinheiro do contribuinte, alocado por emenda individual, termine em um instituto privado que produz um filme sobre um ex-presidente em atividade política? Para esta análise, a resposta é não — e a crítica é a mesma que esta casa fez, no passado, a programas de cultura executados pelo governo federal com indícios de viés partidário. Padrão de uso pessoal do Orçamento é inaceitável em qualquer lado do espectro.

Quem assina a ordem — e por que isso importa

Os 49 mandados foram expedidos por Flávio Dino, ministro do STF indicado pelo governo Lula e historicamente vinculado à esquerda brasileira (ex-PCdoB, hoje PSB). Dino tem sido uma peça-chave em decisões que envolvem a investigação de pessoas e estruturas ligadas ao bolsonarismo, o que torna inevitável a pergunta sobre a coloração institucional do inquérito.

Essa pergunta precisa ser feita com nitidez — não como forma de deslegitimar a operação, mas como exigência de transparência. O centro-direita que esta casa representa é, por princípio, cético em relação ao uso político do aparato judicial e ao uso político do Orçamento. Mas é também, por princípio, intransigente com o mau uso de dinheiro público. As duas posições não se contradizem; ao contrário, se reforçam:

  • Se houver fraude, os responsáveis — sejam de que partido forem — devem responder;
  • Se a investigação estiver sendo conduzida com rigor técnico e dentro do devido processo legal, ela merece seriedade, não propaganda;
  • Se houver abuso na condução, é direito da defesa apontá-lo e das instituições corrigirem.

O que esta análise cobra é o que sempre cobra: fato apurado, processo limpo e conclusão fundamentada. Nem seletividade nem blindagem.

Por que isso importa

A operação desta quinta não é episódio isolado. Insere-se em três debates de fundo que continuam abertos na política brasileira:

1. O uso das emendas parlamentares como moeda política. O tema das chamadas "emendas pix" e do "orçamento secreto" dominou o debate público desde a gestão Bolsonaro e foi encampado pela própria oposição bolsonarista como bandeira contra o governo Lula. Que um parlamentar do PL esteja sob investigação exatamente por este mecanismo expõe a distância entre o discurso e a prática — e empurra para o centro do debate a necessidade de regras mais duras de transparência, rastreabilidade e destinação das emendas individuais e de bancada. É um debate que interessa ao contribuinte, venha o recurso de que lado for.

2. O financiamento público de projetos com viés partidário. Filmes, livros, séries e eventos culturais financiados com dinheiro público não são, por si, problema — desde que cumpram finalidade pública e respeitem critérios técnicos. O que se investiga aqui é justamente o oposto: se confirma a suspeita de contratos cruzados com fornecedores ligados ao círculo político do parlamentar, o caso deixa de ser financiamento à cultura e vira financiamento à militância, com a conta paga pelo contribuinte.

3. O alcance das decisões monocráticas de ministros do STF. Mandados de busca e apreensão expedidos diretamente por um ministro, sem revisão do colegiado, em operação com 49 alvos distribuídos por quatro unidades da Federação, ilustram o quanto a jurisdição individual no Supremo se expandiu nos últimos anos. Para o centro-direita, esse é um ponto que merece vigilância permanente — não porque se queira paralisar a Justiça, mas porque poder sem contraponto tende a ser exercido de forma desigual conforme o réu.

Na prática, as consequências prováveis, se as suspeitas se confirmarem, incluem: abertura de ação penal por peculato, fraude em licitação ou lavagem; inelegibilidade em futura disputa; e pressão política interna no PL para descolar a legenda da imagem do parlamentar. Se não se confirmarem, o episódio ainda deixará uma marca institucional: a confirmação de que a apuração foi feita com base em indícios documentais concretos, não em delações voluntárias ou em denúncias genéricas — o que, nesse caso, é o padrão esperado.

Perguntas frequentes

O que exatamente a PF está investigando?
A destinação de R$ 2 milhões em emendas parlamentares indicadas pelo deputado Mario Frias ao Instituto Conhecer Brasil, em 2024, e contratos firmados pelo ICB e pela Academia Nacional de Cultura — ambas presididas por Karina da Gama — com empresas ligadas a doadores, assessores e ao advogado do parlamentar. Há suspeita de contratos simulados ou fraudulentos.

Por que o ministro do STF Flávio Dino autorizou os mandados?
Porque se trata de investigação que tramita no Supremo em razão do foro por prerrogativa de função (prerrogativa de função do deputado federal). Os 49 mandados foram expedidos de forma monocrática e cumpridos em SP, RJ, CE e DF.

O filme "Dark Horse" é financiado com dinheiro público?
A operação não afirma que todo o filme seja financiado com recursos públicos. O que se investiga é o uso específico de emendas do orçamento da União repassadas ao ICB, presidido pela produtora Karina da Gama, em 2024. O roteiro do longa é assinado pelo próprio deputado Mario Frias.

Isso significa que Mario Frias é culpado?
Não. Operação policial, por mais ampla que seja, é fase de apuração, não de juízo. As defesas de Frias e de Karina da Gama foram procuradas e terão espaço para se manifestar, segundo a reportagem. Cabe à Justiça, ao final do devido processo legal, estabelecer responsabilidades.

Quem mais foi alvo da operação?
Entre os nomes identificados estão Karina Ferreira da Gama, o deputado Mario Frias e Raphael Augusto Azevedo (ex-chefe de gabinete de Frias), além de outros ex-assessores parlamentares, pessoas contratadas para supostas prestações de serviço ao instituto e o advogado do deputado.

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