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Portal generalista publica ranking de plataforma adulta

Jornalismo e economia da atenção: como portais generalistas amplificam rankings de plataformas adultas, apagando a fronteira entre publicidade e redação.

Por Marina Cordovil · · 6 min de leitura

Portal generalista publica ranking de plataforma adulta
Portal generalista publica ranking de plataforma adulta

Quando o conteúdo adulto vira pauta do noticiário geral: o caso do ranking de "pés mais bonitos"

O portal Metropoles.com, um dos veículos de notícias de maior audiência no Brasil, publicou nesta semana uma matéria que destoa do noticiário tradicional: um ranking das "10 famosas brasileiras com os pés mais bonitos", formulado a partir de critérios estéticos (proporção, simetria e "harmonia") assinados pelo diretor de uma plataforma de conteúdo adulto, a FatalFans. Gisele Bündchen lidera a lista, seguida por Isabeli Fontana, Paolla Oliveira e Thaila Ayala. O caso não é fofoca isolada. Expõe uma engrenagem editorial em que portais generalistas amplificam, sem mediação crítica aparente, levantamentos produzidos por plataformas cuja origem comercial e natureza do produto raramente são explicitadas ao leitor.

O que está em jogo: o filtro editorial que sumiu

A notícia em si é simples. Uma plataforma comercial escolheu dez mulheres públicas, elegeu uma como referência estética em uma categoria específica do corpo e organizou o resultado em formato de lista, com critérios supostamente técnicos. O portal de notícias reproduziu o material, citou o porta-voz da plataforma e tratou o levantamento como pauta de entretenimento.

O ponto que merece análise não é o ranking em si. É a cadeia de produção que o levou à capa de um portal generalista: plataforma de conteúdo adulto → porta-voz institucionalizado → veículo de grande alcance → leitor, que recebe a informação embalada em formato jornalístico, sem que fique claro, na superfície da matéria, o que é cada peça dessa relação.

Para o leitor desavisado, o que se vê é uma "pesquisa" com "critérios técnicos" conduzida por um "especialista". O que está por trás é uma operação de marketing de um segmento comercial específico, interessada em ocupar espaço editorial em veículos de grande audiência para se legitimar institucionalmente e ganhar tração nas buscas.

Por que um portal generalista publica isso?

A resposta está na economia da atenção que governa o jornalismo digital. Listas com numeral no título, celebridades no protagonismo e imagens de fácil consumo tendem a performar bem em métricas de clique e compartilhamento. Em um ambiente de queda de receita publicitária tradicional e de disputa por assinaturas, esses formatos viraram moeda corrente.

Quando uma plataforma percebe essa lógica e produz material no formato de matéria jornalística, ela oferece ao veículo exatamente o que ele precisa: conteúdo pronto, com personagem, dados, citação e imagem, publicável com pouca edição. O custo editorial é baixo. O retorno de tráfego, potencialmente alto.

O resultado é uma simbiose em que ninguém se assume responsável pelo todo. A plataforma diz que produziu um "levantamento", e não um press release. O veículo diz que "reportou", e não que cedeu espaço a uma ação de marketing. O leitor recebe um produto híbrido sem saber exatamente o que está consumindo.

O que isso diz sobre o estado do jornalismo cultural

Este não é um caso isolado. Nos últimos anos, plataformas de diferentes nichos — de apostas esportivas a aplicativos de namoro, de cursos online a casas de bets — aprenderam a produzir "conteúdo" no formato de pesquisa e a distribuir para redações como se fossem estudos independentes. O mecanismo se repete: definem-se critérios arbitrários, cita-se um porta-voz da marca, publica-se uma lista, e a circulação da marca acontece sem que se configure explicitamente como publicidade.

Há, nesse movimento, uma erosão silenciosa do filtro editorial. Não se trata de purismo: listas de celebridades sempre existiram e continuarão a existir. A diferença está em quem responde pelo critério. Uma revista de celebridades que produz o próprio ranking editorial responde por ele. Uma plataforma comercial que entrega o ranking pronto a um portal de notícias, com seu diretor citado como fonte, está usando a credibilidade editorial do veículo para circular um produto que de outra forma não chegaria ao leitor.

O ângulo dos costumes: o corpo como vitrine

Para uma linha editorial conservadora nos costumes, há ainda um segundo ponto a observar. O ranking trata partes específicas do corpo feminino como produto estético a ser classificado, ranqueado e atribuído a pessoas específicas — inclusive, em vários casos, pessoas que não tiveram participação alguma no levantamento e cujo nome é usado sem consentimento explícito.

Esse tipo de conteúdo não apenas normaliza a objetificação: ele a monetiza. Ensina, pela repetição e pelo formato jornalístico, que existe um mercado ativo para a fragmentação do corpo feminino em nichos estéticos, e que esse mercado conversa, sem cerimônia, com veículos de grande circulação.

O argumento contrário — na sua versão mais forte

É legítimo argumentar que se trata apenas de conteúdo de entretenimento e que uma análise como esta é desproporcional. Listas sobre celebridades existem há décadas — de "os homens mais sexy" a "as mais bem vestidas". Critérios arbitrários e rankings baseados em preferências pessoais são a base do jornalismo de celebridades desde sempre. E a suposta neutralidade de qualquer crítica esbarra no fato de que o próprio leitor, ao clicar, está sinalizando que consome esse tipo de material.

O argumento tem força. Mas não desfaz o problema central: o que distingue este caso não é o formato, é a origem do conteúdo. A revista que produz o próprio ranking responde por ele editorialmente. A plataforma comercial que entrega um ranking pronto, com seu diretor citado como fonte, está usando a credibilidade institucional do veículo para circular um produto cuja natureza comercial não é declarada na superfície da matéria.

Por que isso importa

O caso interessa porque condensa, em uma única publicação, três tendências de fundo que afetam diretamente a qualidade do debate público:

  • Economia da atenção: portais generalistas dependem cada vez mais de conteúdo de baixo custo editorial e alto retorno de tráfego, o que abre flanco para materiais de origem comercial circularem como notícia.
  • Erosão da fronteira entre publicidade e redação: ações de marketing travestidas de pesquisa independente ganham espaço editorial sem a devida sinalização ao leitor — um problema que se soma à já conhecida crise de transparência em publieditoriais.
  • Fragmentação do corpo como produto: a estética corporal feminina torna-se cada vez mais nichada, mais mensurável, mais comercializável — e mais naturalizada como pauta de veículo de referência.

Esses três vetores não nascem com esta matéria. Estão na raiz da crise de credibilidade do jornalismo contemporâneo e da distância crescente entre o que o leitor procura e o que de fato recebe quando clica numa manchete. Para o leitor conservador nos costumes, há ainda um custo cultural que não aparece em métricas de tráfego: a naturalização de uma economia da atenção que monetiza o corpo feminino em pedaços cada vez menores.

Perguntas frequentes

O ranking foi feito por quem? Pelo diretor da FatalFans, Kellerson Kurtz, em levantamento conduzido pela própria plataforma, conforme descrito na matéria do Metropoles.com.

O ranking tem valor científico ou estatístico? Não. Os critérios (proporção, simetria, "harmonia") não são definidos com rigor metodológico, e o método de seleção das imagens não é descrito. Trata-se de avaliação subjetiva conduzida por representante comercial da plataforma.

As celebridades citadas autorizaram a avaliação? A matéria não informa consentimento. Em diversos casos, são usados registros públicos de situações cotidianas sem que as pessoas mencionadas tenham participação no levantamento.

Por que um portal de notícias publica esse tipo de material? Porque o formato tende a performar bem em tráfego, e o custo editorial de reproduzir um conteúdo pronto é baixo. A lógica é da economia da atenção que rege o jornalismo digital.

Esse tipo de cobertura é comum? Sim, e vem se multiplicando. Plataformas de diversos nichos aprenderam a produzir conteúdo no formato de pesquisa e a distribuí-lo para redações como material editorial pronto, diluindo a fronteira entre marketing e redação.

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