O que está em jogo quando um instituto inclui Augusto Cury num segundo turno simulado contra Lula
A Quaest registrou no Tribunal Superior Eleitoral um novo levantamento nacional para a corrida presidencial de 2026 que, pela segunda vez, testa uma disputa direta entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o escritor e psiquiatra Augusto Cury, agora filiado ao Avante. A divulgação está marcada para 7 de setembro, Dia da Independência, e o campo ouviu 2.004 eleitores em todo o país, segundo informações do portal Abril.com.br.
Não é o dado de intenção de voto que define a relevância do movimento — é o que ele revela sobre o estado da oposição ao governo. Quando um instituto do porte da Quaest decide repetir um confronto Lula x.Cury em cinco cenários diferentes de segundo turno, há uma mensagem embutida: o nome deixou de ser figurativo e passou a ser tratado como variável real da disputa. Esse é o ponto de partida desta análise.
O campo da centro-direita está mais lotado do que parece
Olhando o primeiro cenário registrado pela Quaest, a fotografia é eloquente: treze nomes, dos quais pelo menos seis se posicionam à direita ou no campo conservador — Augusto Cury (Avante), Pablo Marçal (PRTB), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), além de candidatos menores como Clariana Barão (DC) e Veterinário Wilson Grassi (Democrata). É uma multiplicação de candidaturas que, do ponto de vista do antipetismo, é mais problema do que solução.
Para entender por quê, basta lembrar a regra elementar do sistema presidencialista brasileiro: quem chega ao segundo turno é quem consegue construir uma frente. Em 2022, a centro-direita polarizou no nome de Jair Bolsonaro (PL) e foi ao segundo turno com 49,1% dos votos válidos — uma margem apertadíssima que custou a derrota. Em 2018, a fragmentação do campo de centro-esquerda abriu caminho para Bolsonaro no primeiro turno. Em 2026, com o cenário descrito pela Quaest, o risco evidente é o oposto: a divisão do campo adversário do PT em múltiplas candidaturas viáveis facilita a vitória de Lula no primeiro turno.
O caso Cury: outsider cultural, partido pequeno, simbólico curioso
Augusto Cury é um fenômeno editorial — autor de dezenas de livros de psicologia e ficção, com público cativo que extrapola o círculo literário. Não é, no entanto, um político com máquina partidária, estrutura de campanha, base eleitoral organizada ou tempo de televisão relevante. Pertence a uma legenda com bancada minúscula na Câmara, o que, no atual modelo de financiamento e propaganda, limita brutalmente a capacidade de crescer entre as pesquisas de intenção de voto e a votação efetiva.
É exatamente essa tensão — popularidade nominal e fragilidade estrutural — que torna o movimento da Quaest significativo. Segundo a reportagem do portal Abril.com.br, uma rodada anterior de levantamentos chegou a registrar Cury com 11% das intenções de voto, em terceiro lugar, ultrapassando Renan Santos (Missão). Trata-se de um patamar impressionante para alguém sem estrutura partidária, mas que provavelmente capta mais um humor do eleitorado antipetista insatisfeito com os nomes tradicionais do que uma tendência consolidável.
Por que um psiquiatra-escritor aparece como alternativa presidencial
Há um padrão que se repete em várias democracias: quando a política profissional desagrada, surgem nomes vindos de outras áreas com discurso moral, emocional ou de "salvação da pátria". Cury ocupa esse espaço — o do intelectual midiático que fala à emoção do eleitor conservador, cansado da classe política, mas sem o verniz ideológico explícito de Bolsonaro ou do bolsonarismo.
É cedo, porém, para afirmar que esse capital simbólico se converterá em capital eleitoral real. A história recente brasileira está cheia de outsiders que lideraram pesquisas em pontos isolados e depois não chegaram nem perto do segundo turno — o próprio Marçal, em 2024, é o exemplo mais próximo: disparado em levantamentos paulistas, terminou a corrida por São Paulo muito aquém do que sua curva inicial projetava.
A metodologia diz algo sobre a estratégia dos institutos
Incluir cinco cenários de segundo turno — Lula x.Cury, Lula x.Flávio Bolsonaro, Lula x.Renan Santos, Lula x.Caiado e Lula x.Zema — não é escolha aleatória. É o reconhecimento, pelo instituto, de que pelo menos cinco nomes do campo conservador têm densidade eleitoral mínima para serem testados em hipótese de final. Cobertura maior do que isso seria inflada; menor do que isso, insuficiente diante do quadro atual.
A pesquisa também mede três variáveis adicionais cruciais: o conhecimento espontâneo dos candidatos, a disposição de mudar de voto e a avaliação do governo Lula. Esse último quesito é termômetro central: em qualquer simulação presidencial, a rejeição ao incumbente determina teto e piso dos adversários. Se o governo segue com avaliação desfavorável ou estável no ruim, o segundo turno é plausível para qualquer nome que consolide o campo da centro-direita.
A menção, no texto do portal Abril.com.br, à "percepção sobre os seis candidatos que participaram de entrevistas na TV Globo" reforça outro ponto: o peso da exposição midiática tradicional na formação da opinião do eleitorado. Em 2026, como em 2022, o tempo de televisão no horário gratuito de rádio e TV seguirá como variável decisiva — e nenhum candidato sem aliança ou partido relevante terá tempo mínimo para se apresentar à população.
Por que isso importa
Três consequências práticas merecem destaque:
- Para a centro-direita: a Quaest está, na prática, mapeando o tamanho do problema antes que ele se torne irreversível. Cada cenário Lula x.Cury é também um cenário implícito Lula x.Flávio, Lula x.Caiado, Lula x.Zema — e todos esses confrontos revelam que nenhum adversário isolado chega, hoje, ao segundo turno com a votação consolidada.
- Para o governo: a inclusão de um nome "não-petrista" mas com discurso moderado em cinco cenários diferentes sugere que o Palácio do Planalto e seus aliados já trabalham com a hipótese de um adversário sem o rótulo bolsonarista clássico — o que exige calibrar a estratégia de ataque, hoje desenhada para o campo da extrema-direita.
- Para o eleitor: o eleitor antipetista que rejeita tanto o PT quanto o bolsonarismo encontra em Cury uma possibilidade simbólica, mas não eleitoral concreta. Símbolos não transferem voto: a estrutura para viabilizar uma candidatura em outubro de 2026 exige alianças, tempo de televisão, recursos e capilaridade — coisas que o Avante isoladamente não oferece.
O teste de realidade virá no segundo turno real
Há uma distância enorme entre "venceria Lula no segundo turno, segundo a Quaest" e "venceria Lula no segundo turno de verdade". Pesquisas de cenário hipotético medem intenção, não mobilização. Em 2022, Bolsonaro entrou no segundo turno em desvantagem e quase venceu; em 2018, Haddad entrou em desvantagem menor que a prevista e perdeu por margem maior que a projetada. Cenários hipotéticos servem para mapear vulnerabilidades — e o que o exercício da Quaest revela, com clareza, é que a centro-direita brasileira tem hoje um problema de dispersão, não de falta de opção.
Resolver essa equação é tarefa dos próprios partidos e candidatos. Caberá a eles decidir se 2026 será mais uma eleição em que a direita chega dividida e perde no primeiro turno, ou se haverá coordenação suficiente para transformar o humor antipetista — visível nos números que motivaram o próprio registro da pesquisa — em uma candidatura viável ao segundo turno.
Perguntas frequentes
A Quaest está dizendo que Cury pode ganhar de Lula?
Não. O instituto está testando um cenário — uma hipótese — e medindo a vulnerabilidade do presidente. O resultado numérico, quando divulgado em 7 de setembro, mostrará percentuais; a leitura analítica é que Cury se tornou variável relevante, não favorita.
O que muda com a saída de Pablo Marçal do segundo cenário?
A Quaest quer entender o quanto do apoio de Marçal migraria para Cury, Flávio ou outros nomes do campo. É um teste de transferência de voto, útil para quem estuda o tamanho efetivo da base de cada candidato.
Cury tem estrutura para ser candidato de fato?
Não sozinho. O Avante é uma legenda pequena, com bancada reduzida, sem tempo de televisão relevante e sem capilaridade nacional. Para chegar viável, Cury precisaria de uma aliança com partidos maiores — o que, até agora, não foi costurado.
Por que a divulgação é em 7 de setembro?
A data é simbólica e captura a atenção da imprensa no Dia da Independência. Do ponto de vista editorial, é escolha do instituto para maximizar leitura; do ponto de vista analítico, é um lembrete de que política se comunica também por calendário.
A pesquisa garante alguma coisa nas urnas?
Não. Pesquisas medem intenção declarada em um momento. A decisão do eleitor entre intenção declarada e voto depositado depende de fatores que só se consolidam nos últimos meses de campanha — debate, economia, eventos imprevisíveis e, sobretudo, coordenação do campo adversário.
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