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Renan Santos admite ter convidado equipe que não virá

Candidato à Presidência admite em sabatina ter convidado economistas liberais que não aceitariam cargo, expondo fragilidade eleitoral e disputa pelo centro.

Por Beatriz Andrade Lima · · 7 min de leitura

Renan Santos admite ter convidado equipe que não virá
Renan Santos admite ter convidado equipe que não virá

O candidato que convidou a equipe econômica que não virá

Em sabatina promovida pelo grupo O Globo, Valor Econômico e CBN nesta quinta-feira, 27, o candidato do Missão à Presidência, Renan Santos, fez uma admissão pouco usual em campanha: afirmou ter convidado nomes respeitados do meio econômico liberal — entre eles o economista Marcos Lisboa e Elena Landau — para um eventual governo, ao mesmo tempo em que reconheceu que Lisboa "jamais aceitaria ser ministro" dele. A declaração, mais do que revelar estratégia de composição de equipe, expõe com franqueza desconfortável o estágio político do candidato e o esforço que ele faz para se credenciar junto ao mercado e ao eleitorado de centro e centro-direita.

Do ponto de vista desta análise, o episódio tem leitura dupla: de um lado, mostra um postulante que sabe qual é o repertório valorizado pelo campo liberal; de outro, evidencia que esse mesmo campo, até aqui, não lhe abriu as portas.

Quem são os nomes citados e por que eles importam

Marcos Lisboa é figura conhecida do debate econômico brasileiro, com trajetória associada a leituras ortodoxas sobre regulação, mercado de crédito e política fiscal. Citá-lo publicamente como referência intelectual não é acaso: é uma tentativa de Renan Santos de dizer ao mercado financeiro e ao eleitorado economicamente liberal que conhece e respeita os autores que esses públicos leem.

Elena Landau segue perfil equivalente. Atuou em processos relevantes de reforma regulatória, com destaque para o setor elétrico nos anos 1990, e carrega credenciais reconhecidas nesse campo. A inclusão no mesmo bloco reforça a mensagem: o candidato quer se cercar — ou, ao menos, parecer que se cercaria — de técnicos com lastro junto ao establishment liberal.

O problema é que o próprio candidato admitiu que essa cercania ainda não existe. A frase em que diz esperar que, "crescendo nas pesquisas", essas pessoas o "olhem de uma maneira um pouco mais generosa" é, traduzida, um reconhecimento público de que hoje esses nomes não olham para ele com entusiasmo — e de que o caminho até eles passa pela melhora dos indicadores de intenção de voto.

O que essa confissão revela sobre o estágio da candidatura

Em campanha, candidatos com densidade eleitoral mais consolidada costumam apresentar equipe como conquista, não como convite em aberto. A transparência de Renan Santos pode ser lida como postura honesta — e também, inevitavelmente, como sinal de fragilidade competitiva no campo em que ele pretende competir.

Para esta análise, trata-se de informação relevante: a tentativa de captura do eleitorado de centro passa, em alguma medida, por aqueles que produzem as ideias que esse eleitorado consome. Se esses autores não embarcam, o discurso fica sem chancela técnica visível — e a chancura, em política econômica, vale bastante.

O paradoxo dos subsídios do agronegócio

Na mesma sabatina, o candidato recorreu a um estudo ligado a Marcos Lisboa para defender a manutenção de subsídios ao agronegócio, em meio ao seu argumento mais amplo pelo corte de benefícios fiscais. A defesa tem lastro empírico citado: o agro brasileiro aparece, na literatura especializada, como o setor com maior crescimento de produtividade entre os setores nacionais, em patamar próximo a economias como China e Vale do Silício.

A discussão aqui é de mérito, não de princípio. Um liberal consequencialista — não um liberal de cartilha — avalia cada política pelo custo que impõe ao contribuinte e pelo resultado que entrega. Se há um setor com produtividade comprovadamente excepcional e função socioeconômica relevante (geração de divisas, alimentos, empregos formais em cidades pequenas e médias), é razoável discutir instrumentos setoriais que não seriam justificáveis em outros ramos.

A ressalva, porém, é obrigatória. "Algum tipo de investimento setorial" pode significar quase qualquer coisa — e é justamente nesse ponto que se concentram os principais incentivos perversos do gasto público brasileiro: categorias de subsídio que nascem para corrigir uma falha e, com o tempo, tornam-se direito adquirido, base de lobby permanente e dreno silencioso do Orçamento. A frase precisa virar política concreta antes de ser avaliada, e, no estágio atual, ainda é retórica.

As demais posições da sabatina

Renan Santos aproveitou a sabatina para atacar a "taxa das blusinhas" — mecanismo de equalização tributária sobre compras internacionais de pequeno valor em plataformas de comércio eletrônico — e acusar setores empresariais de olharem "para o próprio rabo". Do ponto de vista liberal, a leitura é coerente: o instrumento tenta corrigir uma assimetria com o varejo nacional por meio de proteção setorial que normalmente onera o consumidor e preserva ineficiências.

Sobre o fim da escala 6x1, o candidato manteve posição contrária e a classificou como "pauta perigosíssima, especially para o Brasil". Para esta análise, é importante registrar que a questão admite argumentos legítimos dos dois lados — uma reforma trabalhista ampla tem custos e benefícios mensuráveis, e a literatura econômica internacional não é unânime sobre o formato ideal. O fato de o presidenciável insistir no tema indica preocupação com impacto sobre produtividade e custo de mão de obra, variável crítica em uma economia que precisa crescer mais e melhor.

Por que isso importa

O episódio da sabatina não é fato isolado: integra o processo maior de formação de palanques e de disputa pelo espaço que vai do centro à centro-direita. Em uma corrida com múltiplos postulantes a esse eleitorado, a capacidade de atrair nomes técnicos respeitados é ativo diferenciador.

Três consequências práticas se desenham a partir do que foi dito na sabatina:

  • Para o mercado financeiro: o nome Marcos Lisboa sendo citado publicamente como referência, mesmo sem adesão efetiva, sinaliza ao mercado que o candidato sabe qual é o repertório que esse público valoriza — o que é diferente de dominar esse repertório.
  • Para o eleitorado de centro: a admissão pública de que os nomes "ainda não olharam com generosidade" redefine a expectativa — o eleitor passa a entender que um eventual governo desse candidato pode começar sem o time completo já desenhado.
  • Para a corrida como um todo: candidatos com baixa densidade eleitoral dependem, em regra, de um evento catalisador (debate decisivo, cenário econômico adverso, fato novo) para alterar a curva de intenção de voto. Sem isso, o convite a nomes do establishment tende a seguir como gesto retórico.

Perguntas frequentes

O que é a "taxa das blusinhas"?

É a alíquota criada para equalizar a tributação de compras internacionais de pequeno valor feitas em plataformas de comércio eletrônico transfronteiriço. Foi instituída no fim de 2024 com o objetivo de reduzir a assimetria com o varejo nacional, mas divide opiniões entre os que defendem isonomia tributária e os que veem nela um instrumento protecionista que onera o consumidor.

O que é a escala 6x1?

É o regime de trabalho em que o empregado folga um dia a cada seis trabalhados. A proposta de "fim da escala 6x1" prevê alteração para cinco dias de trabalho por dois de descanso, ganhou tração política em 2024 via projetos de lei e mobilizações sociais, e permanece em debate no Congresso.

Por que Marcos Lisboa, segundo o próprio candidato, recusaria um cargo nesse eventual governo?

O texto da sabatina, segundo o portal Terra.com.br, não traz os motivos. A leitura plausível, a partir da própria fala do candidato, é que a viabilidade eleitoral ainda é percebida como baixa por nomes técnicos que associam sua reputação a governos com chance real de implementar agenda.

O que significa o candidato dizer que espera um "olhar generoso" das pessoas que quer no governo?

É reconhecimento explícito de que a adesão desses nomes depende, hoje, da melhora do desempenho do candidato nas pesquisas — não apenas do mérito da proposta programática ou do perfil pessoal.

Declarações como essa costumam alterar o desempenho eleitoral?

Depende do contexto. Em campanhas com baixa tração, citações a nomes respeitados podem funcionar como sinal de competência para o eleitorado de centro. Em campanhas com tração consolidada, costumam funcionar como confirmação. No caso descrito, o efeito agregado é incerto e depende de outros movimentos da corrida.

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