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Renan Santos em SC: o cálculo dos 3% e a virada na direita

Por Marina Cordovil · · 7 min de leitura

Renan Santos em SC: o cálculo dos 3% e a virada na direita
Renan Santos em SC: o cálculo dos 3% e a virada na direita

Renan Santos em SC: o cálculo dos 3% e a tentativa de virar o jogo na reta final

A quinze dias da votação, o candidato à Presidência pelo Missão, Renan Santos, transformou Balneário Camboriú no ponto de partida de uma operação explicitamente voltada a "virar votos" no reduto mais bolsonarista de Santa Catarina. Com 3% das intenções de voto na última pesquisa Datafolha, o presidenciável sabe que o caminho para o segundo turno — ou mesmo para sobreviver politicamente após outubro — passa por deslocar apoio de concorrentes que disputam o mesmo campo ideológico. A movimentação importa menos pelo volume eleitoral que ela pode produzir e mais pelo que revela sobre a aritmética do primeiro turno e sobre o uso do discurso antipetismo como instrumento de captura do eleitorado de direita.

O cenário em Santa Catarina

Santa Catarina não é um estado qualquer na equação de outubro. É o segundo maior colégio eleitoral do Sul e historicamente entrega votações expressivas ao campo conservador. Foi em SC que o bolsonarismo construiu algumas de suas bases mais sólidas — não por acaso a família Bolsonaro disputa ali espaço parlamentar, com Carlos Bolsonaro (o "Carluxo") candidato ao Senado e Jair Renan morando e legislando em Balneário Camboriú. Para um candidato que precisa crescer no eleitorado de direita, esse é exatamente o terreno onde o discurso de "virada" faz sentido tático.

O problema, do ponto de vista prático, é que SC é também onde a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) espera ampliar sua vantagem. A estratégia declarada do candidato do PL é sugar votos de Santos, de Ronaldo Caiado (PSD) e de Romeu Zema (NOVO) para tentar resolver a disputa já no primeiro turno. Em outras palavras: cada voto que Renan Santos consegue arrancar do próprio campo é, na prática, um voto que deixa de ser disputa interna para virar consolidação do rival.

O que o discurso de Santos tenta — e o que não consegue

Renan Santos embarcou para SC com uma narrativa de dupla rejeição: ataca o que chama de "ladrões de vermelho" (PT) e "ladrões de verde e amarelo" (o bolsonarismo que, segundo ele, se associou a figuras do primeiro escalão da República). A menção a "bandidos que estão na lista telefônica do Daniel Vorcaro" — referência ao presidente da Febraban — busca inserir o candidato no campo da crítica ao establishment econômico, numa chave que mistura antipetismo com antissistema. É um discurso que ressoa em parcelas do eleitorado insatisfeitas com a polarização estéril, mas que tem dificuldade de se traduzir em propostas concretas de governo.

O candidato mencionou casos como o do governador Carlos Moisés (eleito em SC em 2018 com votação residual no primeiro turno e crescimento explosivo no segundo) e o de Romeu Zema em Minas Gerais como exemplos de "viradas" possíveis. A comparação, porém, é menos generosa do que parece: Moisés e Zema tinham bases locais estruturadas, partidos com tempo de TV e estruturas estaduais. O Missão, com 3% nacional, parte de uma margem de manobra bem mais estreita.

Por que isso importa

O movimento de Santos importa por três razões práticas.

  • Matemática do primeiro turno. Flávio Bolsonaro precisa consolidar o eleitorado de direita para tentar evitar o segundo turno. Qualquer candidato que se mantenha viável até outubro, mesmo com votação pequena, é um fator de dispersão. A sobrevivência de Santos atrapalha a estratégia do PL.
  • Hegemonia do discurso antipetismo. O ataque simultâneo a PT e PL — chamando ambos de "qualitativamente bandidos" — testa os limites do eleitorado conservador disposto a recusar os dois polos. É uma disputa por narrativas dentro de um mesmo campo ideológico.
  • Crítica ao Pacto Federativo. Santos usou um argumento substantivo, ainda que populista na embalagem: o de que Santa Catarina seria tratada como "colônia" política do bolsonarismo, com pautas definidas de fora e pouco retorno em obras, reforma e infraestrutura. É um flanco legítimo de ataque — o federalismo brasileiro efetivamente concentra arrecadação na União e devolve pouco — e que nenhum dos candidatos à Presidência tem interesse em enfrentar de verdade.

Há também um subtexto simbólico que merece leitura fria: a presença de Jair Renan em Balneário Camboriú e a candidatura ao Senado de Carlos Bolsonaro, sem vínculo com o estado, são alvos fáceis. Mas alvos fáceis não substituem programa. Um candidato que se apresenta como antissistema precisa, em algum momento, explicar o que construiria no lugar do sistema que ataca.

Os limites da "operação de guerra"

A retórica de "operação de guerra" e de "multiplicadores de votos" (cada apoiador deveria convencer 30 pessoas) é típica de campanhas com pouca estrutura e muita dependência do voluntarismo. Não há nada de errado, em si, em mobilizar militância — é assim que campanhas competitivas são vencidas em todo o mundo. O problema surge quando a militância substitui o programa: quando o "convencimento" se resume a desqualificar o adversário, sem oferecer ao eleitor uma agenda verificável de governo.

A frase de Santos — segundo a qual as pessoas estariam "sendo levadas a votar de maneira quase estúpida" — é um espelho invertido da mesma lógica que ele critica. Se o adversário manipula, mas a única resposta do candidato é dizer que também manipula, o eleitor fica sem critério objetivo para distinguir as opções. Em termos de política pública, "qualitativamente bandido" não é métrica: corrupção se mede por processos, condenações, transparência e rastreabilidade — não por adesões de camiseta.

O cálculo honesto

Reconhecer o que o discurso de Santos tem de legítimo não significa endossar sua viabilidade. Há, de fato, razões para desconfiar tanto de um campo quanto do outro quando se trata de integridade fiscal, combate à corrupção e respeito ao contribuinte. Mas uma coisa é apontar o problema; outra é apresentar a solução. E é justamente na solução — corte de gastos, reforma administrativa, segurança jurídica, abertura econômica, redução do peso do Estado — que o campo conservador precisa ocupar o centro do debate, em vez de disputar a franja do antipetismo.

A disputa entre Flávio Bolsonaro, Caiado, Zema e Santos pelos 3% a 5% do eleitorado de direita insatisfeito pode, no fim, produzir um efeito perverso: fortalecer o candidato que conseguir falar mais alto contra o próprio campo, em vez daquele que apresentar a agenda mais sólida. Para o eleitor conservador que quer resultado — e não apenas desabafo —, o voto útil entre os concorrentes de direita deveria considerar, com a mesma seriedade, competência gerencial comprovada, história pública e viabilidade executiva.

Perguntas frequentes

Quem é Renan Santos? Candidato à Presidência pelo Missão, aparece com 3% das intenções de voto na última pesquisa Datafolha, segundo o portal InfoMoney. Busca se consolidar como alternativa antipolarização.

Por que Santa Catarina é estratégica nessa reta final? É um dos maiores colégios eleitorais do país e um dos redutos mais sólidos do bolsonarismo, com a família Bolsonaro disputando vagas no estado. Movimentações ali têm peso simbólico e aritmético.

O que Flávio Bolsonaro espera ao tentar puxar votos de Santos, Caiado e Zema? A estratégia declarada é consolidar o eleitorado de direita para tentar vencer a Presidência já no primeiro turno, evitando a exposição de uma nova rodada contra o campo adversário.

A crítica ao Pacto Federativo feita por Santos tem fundamento? Sim, do ponto de vista técnico: a União concentra cerca de 60% da carga tributária e devolve aos estados e municípios uma fração menor, o que mantém uma relação de dependência estrutural. A questão é se os candidatos oferecem saídas concretas ou apenas usam o tema como combustível de campanha.

O que está em jogo para o eleitor conservador nessa disputa interna? Está em jogo a escolha entre candidatos que oferecem apenas rejeição ao adversário e aqueles que apresentam agenda verificável de governo — tema que costuma ser decisivo quando se mede resultado, não intenção.

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