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Sanções de Bessent ao Irã colocam o Brasil no fogo cruzado

Sanções dos EUA ao Irã usam o dólar como arma geopolítica e expõem empresas brasileiras com comércio com Teerã ao risco de perder acesso ao mercado americano.

Por Otávio Salgado · · 6 min de leitura

Sanções de Bessent ao Irã colocam o Brasil no fogo cruzado
Sanções de Bessent ao Irã colocam o Brasil no fogo cruzado

O "tiro de aviso" de Bessent e o que está em jogo para o Brasil

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, anunciou nesta segunda-feira o que ele mesmo chamou de "tiro de aviso" da chamada Operação Exclusão Económica contra o Irão. Em conferência de imprensa, o chefe da política financeira americana apresentou novas sanções contra dezenas de pessoas e entidades ligadas ao regime iraniano, com foco no petróleo — principal fonte de receita de Teerão — e ampliou o alcance das chamadas sanções secundárias para cinco novas frentes: meios digitais, tecnologias, ouro, aviação e transportes.

O movimento não é apenas mais um capítulo da longa guerra económica entre Washington e Teerão. Ele formaliza a volta da doutrina de pressão máxima abandonada pela administração Biden, sinaliza o uso agressivo do dólar como instrumento geopolítico e, para o Brasil, cria um risco concreto: empresas brasileiras que mantêm relações comerciais com o Irã podem ser arrastadas para o fogo cruzado se Washington decidir, como Bessent avisou, punir instituições financeiras estrangeiras ainda esta semana.

Quem é Bessent e por que ele fala agora

Scott Bessent é o secretário do Tesouro da administração Donald Trump — cargo equivalente, em relevância, ao de um superministro da Fazenda com competências que extrapolam a política doméstica. O Tesouro americano é a instância que opera a Office of Foreign Assets Control (OFAC), agência que administra as sanções económicas dos EUA contra regimes, pessoas e empresas considerados ameaça à segurança nacional ou à política externa americana.

Quando Bessent fala em público, fala com autoridade legal para vincular bancos e empresas estrangeiros ao sistema financeiro americano — o que, na prática, equivale a dizer: cumpra as nossas regras ou perca acesso ao dólar. É o poder de quem controla a moeda de reserva global.

Do JCPOA à pressão máxima: a linha do tempo

Para entender o que mudou agora, vale situar o anúncio em três momentos:

  • 2015 — Irã, EUA, China, Rússia, França, Reino Unido e Alemanha assinam o Plano de Ação Conjunto Integral (JCPOA). O Irã limita o programa nuclear em troca de alívio de sanções.
  • 2018 — Donald Trump, em primeiro mandato, retira os EUA do acordo unilateralmente e restabelece sanções severas, com pressão direta sobre compradores de petróleo iraniano.
  • 2021–2024 — A administração Biden tenta renegociar um acordo mais amplo, sem sucesso. Pressão reduzida, mas sanções estruturais mantidas.

O anúncio de Bessent indica que a segunda era Trump abandona qualquer pretensão de reaproximação diplomática e aposta de novo na asfixia económica como método. A novidade está no escopo: sanções secundárias deixam de mirar apenas petróleo e bancos e passam a cobrir cadeias digitais, tecnológicas e logísticas.

O que muda na prática — e o que ainda não mudou

O pacote desta segunda-feira tem três componentes operacionais:

  1. Sanções diretas a pessoas e entidades do ecossistema petrolífero iraniano.
  2. Expansão das sanções secundárias para cinco setores antes não listados como alvo prioritário.
  3. Ameaça explícita de punir países que "facilitarem transações" com Teerã, com a consequência concreta da "expulsão do sistema do dólar".

O que não há, ainda, segundo o próprio Bessent, são sanções nominais a Estados. O secretário falou em "oportunidade de corrigir maus comportamentos" — uma janela diplomática que, na tradução prática, significa: façam o que pedimos ou a próxima rodada vem com nomes de bancos.

Por que isso importa para o Brasil

Embora a manchete seja internacional, as ondas chegam ao litoral brasileiro por três razões.

1. Comércio bilateral relevante. O Irã é um destino tradicional das exportações brasileiras de carne de frango, milho e soja. Em anos de aperto de sanções anteriores, o Brasil chegou a ser um dos maiores fornecedores de alimentos a Teerã. Qualquer aperto na engrenagem financeira iraniana encarece o pagamento e o frete, e abre espaço para que bancos brasileiros recusem operações sob risco de penalidade americana.

2. Soberania monetária versus pragmatismo cambial. Brasília, nos últimos anos, tem flertado com o discurso de desdolarização e com a construção de mecanismos de pagamento alternativos — em parte como gesto político, em parte como hedge. A reação de Bessent ao ser questionado sobre o impacto global do plano ("porque é que eu quereria dar cabo do sistema financeiro global?") é a confirmação, vinda de dentro do Tesouro americano, de que Washington sabe do poder do dólar e pretende usá-lo.

3. Custura diplomática. O Brasil mantém relações diplomáticas com Teerã e vota, em fóruns multilaterais, em linha frequentemente distante da posição americana sobre o Irã. A Operação Exclusão Económica não obriga o Brasil a romper com Teerã — mas aumenta o custo político e económico de manter a relação nos termos atuais.

O argumento contrário, na versão mais forte

Antes de seguir, é preciso registrar o lado da questão que esta análise não endossa, mas reconhece como legítimo:

Sanções unilaterais americanas são, na leitura de internacionalistas e de boa parte do chamado Sul global, um abuso de posição dominante. O Irã é parte do Tratado de Não Proliferação, tem direito a uso pacífico da energia nuclear e foi o próprio EUA que violou o JCPOA em 2018. Pressão económica sobre terceiros países viola a soberania de quem não é parte do conflito bilateral e transforma o sistema financeiro em instrumento de política externa.

É uma posição defensável, e não cabe desqualificá-la como retórica. O ponto de partida desta análise, no entanto, é distinto: o sistema financeiro global foi construído, do pós-guerra para cá, sob hegemonia americana. Quem opera dentro dele assume riscos proporcionais a essa dependência — e empresas que escolhem clientes sob sanção assumem o risco de perder acesso ao mercado que efetivamente financia o comércio mundial. Não há almoço grátis em geopolítica monetária.

O cálculo que empresas brasileiras precisam fazer

Para uma exportadora brasileira com contratos em moeda conversível, a mensagem prática é direta:

  • Verificar se contrapartes iranianas constam de listas OFAC antes de qualquer embarque.
  • Avaliar se bancos de conexão no circuito já foram avisados ou sancionados.
  • Ponderar se o prêmio de risco de continuar operando com Teerã compensa a perda potencial de acesso ao sistema americano.

Bessent foi explícito: "o relógio começou a contar". O prazo para autorregulação é curto — as primeiras sanções a uma instituição financeira estrangeira podem vir ainda nesta semana, segundo o secretário.

Perguntas frequentes

O Brasil pode ser sancionado por manter comércio com o Irã?
Em tese, sim — se empresas sediadas no Brasil forem consideradas parte do "ecossistema" que transforma petróleo iraniano em receita para Teerã. Na prática, sanções a Estados inteiros são instrumento raro e politicamente caro; o caminho usual são sanções pontuais a empresas e bancos específicos.

Quais setores brasileiros estão mais expostos?
Alimentos (especialmente proteína animal), commodities agrícolas e logística de transporte marítimo. Setores digitais e de tecnologia não têm presença significativa no fluxo com Teerã.

Isso afeta o câmbio ou a inflação no Brasil?
Indiretamente. Se o comércio com o Irã for interrompido, exportadoras perdem receita em dólar, e há pressão adicional sobre o real. O efeito imediato tende a ser marginal; o efeito acumulado, em cenário de aperto prolongado, pode ser sentido no preço de fretes e de energia.

Qual a posição histórica do Itamaraty sobre sanções ao Irã?
O Brasil costuma defender solução negociada e critica sanções unilaterais em fóruns multilaterais, mas não rompe relações diplomáticas com Teerã. A Operação Exclusão Económica não altera formalmente esse quadro, mas estreita a margem de manobra.

Por que Bessent falou em "tiro de aviso"?
Porque o objetivo declarado é provocar mudança de comportamento de Teerã — e de países que sustentam economicamente o regime — antes de escalar. É a gramática da dissuasão: o anúncio público das ferramentas de coerção, com prazo, é parte da estratégia.

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