O mercado de fusões e aquisições (M&A) chega ao segundo semestre de 2026 funcionando em modo de seleção. Juros ainda altos, inflação acima do centro da meta, transição da reforma tributária em fase de teste e proximidade das eleições compõem um cenário que leva empresários, fundos e compradores a adiar decisões que, em outro momento, seriam executadas com mais celeridade. Segundo o portal Globo, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic para 13,75% ao ano em setembro de 2026, após corte de 0,25 ponto percentual. O número parece alentador, mas não conta a história inteira.
O que está em jogo não é a fotografia do corte mais recente, e sim o retrato estrutural: um custo de capital que segue comprimindo o investimento privado, em grande medida porque o Estado brasileiro ainda não entregou a âncora fiscal que o mercado pede.
Selic a 13,75%: o que o número diz — e o que esconde
Taxa básica em 13,75% ao ano, mesmo após sequência de cortes, é nível que, em qualquer economia desenvolvida, seria tratado como emergência. No Brasil, virou rotina. Para esta análise, o ponto relevante não é discutir a calibragem técnica do Copom — competência do Banco Central que, por lei, deve perseguir a meta de inflação definida pelo Conselho Monetário Nacional —, mas registrar o que esse patamar revela sobre o piso estrutural de juros no Brasil.
Esse piso é, em larga medida, prêmio de risco fiscal. Investidor internacional e mercado doméstico precificam, na curva de juros, a expectativa sobre trajetória da dívida pública, qualidade do gasto e consistência da política econômica. Quando a percepção é de que o Estado continuará expandindo despesa sem contrapartida de receita ou de reforma estrutural, o piso Selic sobe junto — independentemente de quem comande a autoridade monetária.
Para operações de M&A, a tradução é direta: comprador que depende de alavancagem para fechar uma aquisição volta a calcular com mais rigor preço, geração de caixa, endividamento líquido e capital de giro. Empresas low leverage, com receita recorrente e menor dependência de seus fundadores tendem a se tornar alvo preferencial — exatamente o oposto do que uma economia dinâmica precisaria para expandir base produtiva.
Inflação: o sintoma que ainda não cedeu
Os dados do IBGE, reproduzidos pelo portal Globo, mostram IPCA de 0,07% em julho de 2026, com acumulado de 3,44% no ano e 4,44% em 12 meses. A meta oficial é de 3,0% com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo — o que tecnicamente coloca a inflação dentro do intervalo, mas desconfortavelmente próxima do teto superior.
A leitura editorial deste espaço é direta: inflação persistentemente acima do centro da meta corrói o poder de compra de quem vive de renda fixa, penaliza o setor produtivo que depende de previsibilidade e empurra o Copom a manter cautela na velocidade dos cortes. Apresentado o argumento contrário em sua versão mais forte: parte do mercado avalia que a desinflação em curso é genuína e que o hiato do produto segue negativo, o que justificaria passo mais agressivo. O mérito do argumento é real. O fato, contudo, é que o índice agregado continua pressionado por componentes inercialmente rígidos, e a história recente do Brasil mostra que subestimar pressão inflacionária cobrou caro.
Para quem negocia empresas, a inflação não é abstração. Ela entra em premissas de valuation, em projeções de margem, em cláusulas de reajuste contratual e, sobretudo, na conta de capital de giro. Setores expostos a insumos dolarizados, mão de obra, aluguel ou logística tendem a enfrentar questionamento maior por parte do comprador sobre capacidade de sustentação da margem.
Reforma tributária: o teste de 2026 e o que se joga nele
A transição para o novo modelo de tributação sobre o consumo tem 2026 como ano-teste da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços, de competência federal) e do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços, de competência estadual e municipal). Segundo a Receita Federal, nesse período a CBS será de 0,9% e o IBS de 0,1%, com compensação em relação a PIS e Cofins, conforme as regras da fase de teste.
Para esta análise, a reforma tem o mérito declarado de substituir uma colcha de retalhos de tributos cumulativos — PIS, Cofins, ICMS, ISS, IPI, entre outros — por um modelo dual baseado em IVA. A intenção é simplificar, reduzir cumulatividade e dar segurança de planejamento. Avalia-se, contudo, pelo resultado medido, não pela intenção declarada: se as alíquotas finais forem elevadas, se a transição for longa demais e se a interpretação ficar aberta demais, o setor produtivo trocará uma incerteza por outra.
Apresentado o argumento contrário em sua versão mais forte: defensores da transição gradual sustentam que o período de teste é necessário para evitar ruptura abrupta na arrecadação de estados e municípios, preservar o pacto federativo e calibrar o sistema antes da implementação plena. O argumento é legítimo. O teste de 2026 será, portanto, a primeira medição concreta do que efetivamente se entrega.
Eleições: o componente político do compasso de espera
2026 é ano de eleição presidencial, além de renovação do Congresso Nacional e dos governos estaduais. Para o mercado de M&A, esse calendário não é detalhe: ele significa que variáveis regulatórias, tributárias e até trabalhistas podem mudar de sinal dependendo do resultado das urnas. Em ambiente de indefinição, a decisão racional de muitos agentes é postergar — não por covardia, mas por cálculo.
Aqui cabe separar com nitidez o que é fato do que é avaliação. Fato: toda eleição geral no Brasil gera janela de incerteza institucional. Avaliação deste espaço: investidores e operadores preferem previsibilidade, e governos que entregam regras estáveis, contas públicas críveis e segurança jurídica tendem a ser premiados pelo capital produtivo — e os que não entregam, penalizados.
Por que isso importa
O leitor poderia indagar: o que o compasso de espera do mercado de M&A tem a ver com a vida do contribuinte comum? A resposta é bastante concreta. M&A é mecanismo de reestruturação produtiva: empresas se fundem para ganhar escala, compram concorrentes para ganhar mercado, vendem ativos para focar no core business. Quando esse mecanismo funciona bem, há ganho de produtividade, preservação de postos de trabalho e investimento que se traduz em capacidade instalada.
Quando ele trava — como tende a travar em ambiente de juros estruturalmente altos, inflação instável, transição tributária mal calibrada e calendário eleitoral incerto — o efeito é o oposto: capital fica parado, expansão adiada, e o crescimento econômico fica refém de um Estado que gasta mais do que arrecada e regula mais do que simplifica.
Para esta análise, a consequência prática é a seguinte: enquanto o Brasil não resolver a equação das contas públicas, a Selic continuará funcionando como filtro de seleção de quem pode e quem não pode investir. Enquanto a transição tributária não entregar simplificação mensurável, o setor privado seguirá precificando risco regulatório. E enquanto a regra do jogo oscilar a cada ciclo eleitoral, o capital continuará optando pela espera.
O custo disso não é abstrato. É o custo do emprego que não aparece, do investimento que não chega e da arrecadação que não cresce na velocidade necessária para financiar o que o Estado promete.
Perguntas frequentes
Por que a Selic segue alta mesmo com queda recente?
Porque o piso estrutural da taxa é, em larga medida, reflexo do risco fiscal. Juros altos no Brasil não são escolha do Copom: são resposta do mercado a uma trajetória de dívida pública que segue pressionada e a um histórico de despesa que não cede.
O que muda para o investidor comum com a reforma tributária em teste?
No curto prazo, pouco visível. No longo, o impacto depende da alíquota final e da complexidade residual. Se o novo sistema entregar cumulatividade menor e compliance mais simples, ganha quem produz e quem consome. Se entregar alíquota elevada e interpretação aberta, ganha apenas o advogado tributarista.
Por que eleições geram compasso de espera em M&A?
Porque variáveis regulatórias, tributárias e até trabalhistas podem mudar de direção conforme o resultado das urnas. Em ambiente de indefinição, a decisão economicamente racional de muitos agentes é postergar fechamento de operações.
O mercado de fusões e aquisições está parado?
Não. Está seletivo. Operações continuam acontecendo, mas com perfil mais criterioso, prazos mais longos e exigência maior de qualidade nos ativos — tendência compatível com juros estruturalmente altos e ambiente de maior cautela.
Quando o cenário pode melhorar para o M&A?
Quando três condições se combinarem: ancoragem fiscal crível, transição tributária com resultado mensurável de simplificação e redução do prêmio de risco eleitoral — o que exige consistência de regras, não apenas de discurso.
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