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Sertanejo: morte de Rick reacende debate sobre racismo

Música sertaneja e artistas negros: a morte de Rick reacende o debate sobre memória, visibilidade e escolhas privadas, sem provar uma exclusão deliberada.

Por Marina Cordovil · · 6 min de leitura

Sertanejo: morte de Rick reacende debate sobre racismo
Sertanejo: morte de Rick reacende debate sobre racismo

A morte de Rick, da dupla com Renner, aos 59 anos, reacende uma pergunta sobre a música sertaneja: como um gênero construído também por artistas negros chegou a ter tão poucos representantes negros entre seus nomes de grande alcance? Segundo o portal Terra.com.br, essa trajetória envolve um processo de embranquecimento cultural — uma questão que diz respeito menos a uma decisão de governo específica e mais às escolhas de gravadoras, rádios, plataformas, artistas e público, que definem quem ganha espaço e quem permanece na memória.

O tema importa agora não porque a ausência de artistas negros, por si só, prove uma política deliberada de exclusão, mas porque desafia a narrativa que o próprio sertanejo conta sobre suas origens. Se a história do gênero é apresentada sem parte dos músicos que a construíram, há uma disputa por reconhecimento e por autoridade para definir o que é tradição brasileira.

O que a história do sertanejo revela?

A música sertaneja moderna começou a se consolidar na década de 1920, segundo o texto do Terra, quando Cornélio Pires gravou o que é considerado o primeiro disco do estilo. Nas décadas seguintes, o rádio ampliou o alcance de duplas e artistas que se tornaram referências nacionais. Entre os nomes negros citados pela reportagem estão Tião Carreiro & Pardinho, João Pacífico e Cascatinha & Inhana.

Naquele ambiente, a voz tinha destaque: a música circulava principalmente pelo rádio, e a imagem dos intérpretes não ocupava o mesmo lugar que ocupa em meios audiovisuais atuais. Isso ajuda a explicar por que a composição e a interpretação podiam alcançar o público sem que a identidade racial do artista estivesse igualmente visível. Mas não resolve a questão central: a passagem de um gênero de forte presença negra em suas origens para um cenário atual em que essa presença é rara entre os grandes nomes.

A reportagem também recupera “Preto Inocente”, de Tião Carreiro & Pardinho, lançada em 1963. A canção aborda o racismo e a suspeita dirigida a um homem negro acusado de roubo. O exemplo impede que a história seja reduzida a uma celebração nostálgica: a música sertaneja foi produzida dentro de uma sociedade marcada por desigualdades raciais, e seus artistas também registraram essas tensões.

Quem decide quais artistas chegam ao público?

Não há, no relato apresentado, uma instância estatal que tenha determinado o desaparecimento de artistas negros do gênero. O poder está distribuído por uma cadeia privada e cultural: quem financia gravações, escolhe repertórios, divulga artistas, organiza apresentações e recomenda músicas influencia quais vozes se tornam familiares para o público.

Isso não significa que exista uma única decisão ou um centro de comando. Significa que escolhas sucessivas, tomadas por agentes diferentes, podem produzir um resultado persistente. Se os canais de promoção repetem os mesmos perfis e referências, o público passa a reconhecer aquele padrão como natural; e essa familiaridade, por sua vez, pode orientar novas escolhas de investimento e divulgação.

O argumento mais forte contra uma leitura centrada na discriminação é que a composição do mercado também muda com estilos, repertórios, formatos de divulgação e preferências do público. Além disso, o rádio, em que a voz era central, não organizava a visibilidade da mesma forma que um mercado em que a imagem do artista pode ser parte importante da promoção. Esses fatores precisam ser considerados: a fonte não apresenta dados que permitam atribuir a mudança a uma causa única, nem comprova a intenção de excluir artistas negros.

Mas reconhecer explicações possíveis não encerra a análise. Um resultado pode refletir barreiras acumuladas mesmo sem uma ordem explícita de exclusão. A pergunta relevante, portanto, não é apenas “quem teve intenção de apagar?”, mas também “quais mecanismos de seleção e promoção contribuíram para que certos nomes fossem mais lembrados do que outros?”. Essa distinção preserva o rigor: não transforma uma hipótese em prova, mas tampouco trata o padrão atual como inevitável.

Por que a memória do gênero está em disputa?

A palavra “tradição” costuma funcionar como um selo de autenticidade. Quando a história do sertanejo é contada sem parte de seus artistas negros, o problema não é apenas uma lacuna biográfica. A versão incompleta pode influenciar quem é visto como herdeiro legítimo do gênero, quais referências recebem reconhecimento e quais trajetórias desaparecem das narrativas públicas.

Há também uma consequência comercial. A memória cultural influencia repertórios, homenagens, regravações e a forma como novos artistas são apresentados. Para gravadoras, emissoras, plataformas e produtores, revisitar o passado com mais precisão não precisa ser tratado como uma obrigação ideológica: pode ser uma forma de compreender melhor a diversidade de influências que tornou o gênero relevante para diferentes públicos.

Ao mesmo tempo, a crítica ao apagamento não deve servir de atalho para exigir que o Estado passe a determinar quem pode gravar, tocar ou ser reconhecido como representante de um estilo. A liberdade artística e a autonomia de empresas e ouvintes importam. Políticas de cota ou de controle de repertório, se propostas, exigiriam justificativa clara, avaliação de efeitos e respeito à liberdade de expressão. Não se deve presumir que ampliar a máquina pública seja a solução para uma falha produzida em circuitos culturais privados.

Uma resposta mais proporcional começa por transparência e pesquisa: reconstruir créditos, preservar registros, dar visibilidade a obras e permitir que o público conheça a história completa. Isso não garante sucesso comercial a ninguém, nem deve garantir. Mas melhora a qualidade da informação disponível e permite que artistas, empresas e ouvintes façam escolhas menos dependentes de uma memória estreita.

Por que isso importa

O caso importa porque mostra como a cultura também distribui reconhecimento e influência. A música sertaneja é um gênero de grande presença na vida brasileira, segundo a reportagem, e sua história não pode ser explicada apenas pelo cenário atual de rádio e plataformas. O desaparecimento de referências negras do imaginário popular empobrece a compreensão de suas origens e torna mais difícil perceber como gostos e padrões de visibilidade se formam.

Para o setor privado, a questão é de credibilidade e conhecimento histórico: preservar e apresentar um repertório mais completo pode aproximar a narrativa do gênero de sua trajetória real. Para o público, é uma oportunidade de conhecer artistas e obras que talvez tenham recebido menos atenção. Para os formuladores de políticas, a cautela deve ser dupla: não ignorar barreiras de reconhecimento, mas também não presumir que regulação estatal seja a resposta necessária.

A avaliação editorial é que o debate deve começar pela apuração e pela memória, não por acusações sem evidência nem por uma nova obrigação burocrática. Reconhecer que artistas negros ajudaram a construir o sertanejo é compatível com a liberdade de mercado; exigir que o mercado conte sua história com precisão não equivale a entregar ao governo o poder de escolher seus protagonistas.

Perguntas frequentes

A reportagem prova que houve uma política deliberada para excluir artistas negros?

Não. O texto descreve um processo de embranquecimento e cita artistas negros importantes, mas não apresenta evidência de uma ordem coordenada ou de uma causa única para a mudança.

Quais artistas negros são citados na história do gênero?

A reportagem menciona Tião Carreiro & Pardinho, João Pacífico e Cascatinha & Inhana como nomes que participaram da construção da música sertaneja.

O que muda com a morte de Rick?

Segundo o Terra, Rick era um dos raros representantes negros de grande sucesso no sertanejo atual. Sua morte torna mais visível a escassez apontada pela reportagem, mas não explica, por si só, como ela se formou.

O Estado deve intervir para aumentar a representação no sertanejo?

O material citado não demonstra que uma intervenção estatal seja necessária ou eficaz. Pesquisa, preservação e transparência histórica são caminhos menos intrusivos; qualquer regulação precisaria justificar seus custos e respeitar a liberdade artística e econômica.

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