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STF e Judiciário

STF: 76% veem poder excessivo, 71% o consideram essencial

Pesquisa Datafolha mostra que 76% veem poder excessivo no STF, mas 71% consideram a Corte essencial à democracia, revelando fadiga e queda de confiança.

Por Heitor Vasconcelos · · 7 min de leitura

STF: 76% veem poder excessivo, 71% o consideram essencial
STF: 76% veem poder excessivo, 71% o consideram essencial

O STF (Supremo Tribunal Federal) atravessa, segundo a própria cobertura jornalística que envolve as revelações recentes, a maior crise institucional de sua história — e a sociedade brasileira está registrando isso na ponta da pesquisa. Levantamento do Datafolha divulgado pelo portal Terra.com.br e registrado no TSE sob o número BR-01833/2026 mostra que 76% dos brasileiros consideram que os ministros do Supremo possuem poderes excessivos, enquanto apenas 18% discordam. O dado importa porque combina um julgamento sobre o tamanho do poder da Corte com um indicador curioso: 71% dos ouvidos também dizem que o STF é essencial para a democracia. A história que esses números contam juntos é mais reveladora do que cada um deles isolado.

O que o Datafolha efetivamente mediu

A pesquisa ouviu 2.002 eleitores em 125 cidades entre os dias 8 e 10, em pleno desdobramento do caso envolvendo mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.

Os números centrais são três:

  • 76% avaliam que os ministros do STF têm poderes excessivos (18% discordam, 3% não concordam nem discordam, 4% não souberam responder).
  • 71% consideram o STF essencial para a democracia.
  • 77% dizem acreditar que a população confia menos na Corte hoje do que no passado.

Há ainda um quarto dado, frequentemente ignorado nas leituras apressadas: 85% dos entrevistados afirmaram que as revelações contra Moraes não mudariam o voto presidencial; 7% disseram não ter mudado, mas deixaram dúvida; apenas 4% admitiram mudança de voto, mesma proporção dos que não souberam responder.

O contexto institucional: o que está em jogo

Antes de interpretar percentuais, vale lembrar o desenho institucional. O STF é a corte de cúpula do país, com competência para julgar ações de inconstitucionalidade, definir a interpretação final da Constituição e, no campo penal, processar e julgar autoridades com foro privilegiado. Alexandre de Moraes acumula ainda a presidência do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), instância que organiza as eleições e julga registros de candidatura.

O caso Master, ainda em apuração, e a divulgação de diálogos que supostamente envolveriam o ministro ocorrem, segundo a cobertura, ao lado de decisões monocráticas (individuais) de amplo alcance — entre elas ordens de bloqueio de perfis em redes sociais, conduções coercitivas e medidas cautelares com repercussão direta sobre a liberdade de expressão e o devido processo legal. É justamente sobre essa fronteira entre decisões técnicas e efeitos políticos que cresce a crítica pública.

Não é um debate novo. Desde a redemocratização, o STF convive com a tensão entre duas leituras: de um lado, quem o vê como guardião da Constituição contra maiorias eventuais; de outro, quem teme que se torne um poder político não eleito, sem controle externo proporcional à envergadura das decisões que toma. A pesquisa do Datafolha é um retrato instantâneo dessa disputa — e o retrato saiu inclinado.

O paradoxo dos números: poder demais, mas essencial

O dado mais rico do levantamento, para esta análise, é a convivência entre 76% que reclamam de poder excessivo e 71% que sustentam a essencialidade da Corte. Não há contradição lógica entre as duas afirmações, embora parte da cobertura tenda a apresentá-las como opostas.

O que o eleitor parece estar dizendo é:

  • O STF precisa existir como instância final do sistema.
  • O STF como opera hoje acumula funções que extrapolam o desenho original.
  • A combinação das duas percepções produz uma erosão de confiança (77% veem menos credibilidade do que no passado).

Para esta análise, isso sugere que a crise atual não é um evento passageiro sobre o qual o eleitor "esqueceu" — é um sinal de fadiga institucional. Fadiga, aqui, não é aprovação da extinção da Corte, e sim pressão por reposicionamento de limites.

Como ler isso sem distorcer

Vale apresentar, na versão mais sólida, o argumento oposto: muitos constitucionalistas defenderiam que o que parece "poder excessivo" ao leigo é, na verdade, o exercício normal de competências previstas na Constituição de 1988, frequentemente demandadas pelo próprio Congresso quando este se omite ou quando há vácuo normativo. Críticas a decisões monocráticas, nesse enquadramento, decorreriam menos de abuso e mais de incompreensão sobre como cortes constitucionais funcionam em democracias presidencialistas. Reconhecido esse argumento, o que permanece intacto no Datafolha é o fato empírico: a percepção pública de abuso — que se mede independentemente de ela corresponder, ou não, à realidade jurídica.

E essa percepção conta. Em democracias liberais, a legitimidade de uma Corte depende tanto da correção técnica de suas decisões quanto da aceitabilidade social do seu papel. Quando cai a segunda sem alterar a primeira, instala-se um problema funcional.

Por que isso importa

Três consequências práticas merecem destaque.

Para o Congresso. Uma percepção pública de 76% é matéria-prima para pressão legislativa. Propostas como a que limita decisões monocráticas, a que exige audiências públicas obrigatórias em determinados temas e a que restringe o foro especial tendem a ganhar tração exatamente quando a opinião pública se move nessa direção. Não há, neste texto, juízo sobre se essas propostas são boas ou más — há o registro de que o ambiente favorece quem as defende.

Para o STF. A combinação de 71% de essencialidade com 76% de poder excessivo e 77% de confiança em queda sugere que a Corte tem espaço institucional para se reposicionar, mas também tem urgência em fazê-lo. Em pesquisa qualitativa posterior, será relevante entender de onde vem exatamente a sensação de excesso — se de decisões em casos individuais, de choques com o Legislativo ou da condução de crises específicas.

Para o eleitor e a disputa eleitoral de 2026. O dado de 85% indicando que as revelações não mudarão o voto presidencial é o mais contraintuitivo da pesquisa. Vai na contramão da expectativa de que crises judiciais derrubam candidaturas. Isso não significa que o tema STF não importa na corrida — significa que, para a escolha do voto declarada, ele tem peso secundário até aqui. Isso pode mudar em outubro, na dependência do que ainda vier à tona dos desdobramentos em curso.

Para a economia e a segurança jurídica, há um efeito indireto relevante: mercados e investidores observam a previsibilidade institucional. Decisões judiciais com efeitos retroativos amplos ou com baixa previsibilidade tendem a encarecer o crédito e a alongar prazos de investimento. A pesquisa não mede isso diretamente, mas o sentimento captado é compatível com o diagnóstico.

Perguntas frequentes

O Datafolha perguntou especificamente sobre o STF ou sobre o Judiciário em geral?
A pergunta foi direcionada ao STF e a seus ministros, conforme o texto da reportagem publicado pelo portal Terra.com.br. O resultado reflete avaliação da corte constitucional, não do conjunto do sistema de Justiça.

Esse é o maior percentual de crítica já registrado?
A reportagem consultada não fornece série histórica completa para comparação direta. O que se pode afirmar, com base no texto, é que o levantamento foi realizado em meio à maior crise institucional da história da Corte, segundo a própria cobertura.

Por que o brasileiro critica e ao mesmo tempo diz que o STF é essencial?
Os números mostram que a crítica se dirige ao exercício atual do poder, não à existência da instituição. É a diferença — fundamental — entre questionar limites e questionar a função.

A pesquisa pode ter sido afetada pela cobertura intensiva do caso?
O próprio Datafolha reconhece, implicitamente, que ouviu a população em meio aos desdobramentos. Isso não desqualifica a medição — toda pesquisa é um retrato de momento —, mas exige cautela ao extrapolar os dados para períodos de menor tensão.

O tema STF pesa na eleição presidencial?
Segundo o levantamento divulgado, 85% disseram que as revelações não mudarão seu voto. Mas esse dado convive com forte percepção crítica sobre a Corte, o que sugere que o tema pode operar mais como consolidador de posições prévias do que como virador de intenção de voto.

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