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Vaticano-China: acordo dá a Pequim poder sobre os bispos

O novo bispo de Chongqing evidencia o custo do acordo Vaticano-China de 2018: Pequim filtra os nomes que a Igreja aceita, e a Santa Sé segue assinando.

Por Beatriz Andrade Lima · · 6 min de leitura

Vaticano-China: acordo dá a Pequim poder sobre os bispos
Vaticano-China: acordo dá a Pequim poder sobre os bispos

Ordenação em Chongqing expõe o limite da diplomacia vaticana com Pequim

A ordenação do padre Andrea Ding Yang como arcebispo de Chongqing, nesta terça-feira (8), segundo o portal Terra.com.br, não é um ato isolado — é a aplicação concreta de um acordo provisório assinado em 2018 entre a Santa Sé e a República Popular da China que institucionaliza a consulta bilateral sobre nomeações episcopais. O novo pontífice, Leão XIV, manteve o mecanismo herdado de Francisco, e o caso de Ding Yang é o primeiro teste visível do arranjo sob o novo papado.

O que está em jogo

Não se trata de uma notícia religiosa genérica. Três instituições pesadas estão envolvidas: a Santa Sé, com pretensão universal sobre a Igreja Católica; o Partido Comunista Chinês, com monopólio sobre o exercício de qualquer autoridade em território chinês, incluindo a religiosa; e a estrutura da Igreja "patriótica" chinesa, que historicamente ordenou bispos sem mandato papal e que hoje opera como intermediária do regime.

O acordo de 2018 criou um filtro: candidatos a bispo precisam passar por um processo de consulta entre Roma e Pequim antes da nomeação. Em troca, o Vaticano passou a reconhecer bispos antes não legitimados. Para a Santa Sé, é um instrumento de reunificação de uma comunidade cindida. Para críticos internos e externos, é uma renúncia prática ao direito exclusivo de nomear pastores em parte do rebanho.

Por que este caso importa agora

Ding Yang tem 44 anos, é natural de Chongqing e viveu toda a sua vida eclesiástica na China, com breve passagem por Roma em 2014-2015. Seu perfil não é o de um bispo "exilado" nem o de um crítico do regime. É um clérigo formado dentro do sistema chinês, que chega ao episcopado pelo filtro do acordo. Esse é o ponto: o mecanismo está produzindo o tipo de bispo que Pequim tolera — não o tipo que Pequim combate.

A leitura fria disso, para quem se preocupa com liberdade religiosa, é que o acordo transfere, na prática, poder de veto sobre a sucessão episcopal na China para um Estado que controla religiões por meio da Administração Estatal de Assuntos Religiosos, da Frente Unida e do aparato de segurança interna. A Santa Sé conserva a caneta da nomeação, mas o lápis que desenha a lista de candidatos passa pelo crivo chinês.

A tese da "unidade" e seu custo

A defesa oficial do acordo, sustentada por Roma desde 2018, é que a unidade da Igreja e o diálogo com comunidades católicas chinesas justificam o arranjo. É uma tese pragmática: melhor um bispo negociado do que duas Igrejas paralelas, uma leal a Roma e outra leal a Pequim, em permanente atrito.

O problema é que essa lógica tem um custo institucional que tende a crescer. Quando o Estado que participa da seleção de bispos é o mesmo que prende fiéis, demole igrejas clandestinas e obriga crianças a frequentar cursos de "patriotismo" em vez de catecismo, o "diálogo" começa a se parecer com chancela. O Vaticano não controla o que acontece nas dioceses chinesas depois da ordenação. Controla, no máximo, quem senta na cadeira.

A expansão desse modelo para outros contextos — e a Igreja é uma instituição global — é o que torna a questão relevante fora da China. Toda vez que se normaliza que um governo não democrático participe da escolha de autoridades religiosas, cria-se precedente para que outros governos reivindiquem o mesmo. A Santa Sé precisa estar consciente de que está vendendo acesso, não comprando liberdade.

O pano de fundo diplomático

O rompimento entre Vaticano e Pequim remonta a 1951, quando a Santa Sé reconheceu a República da China (Taiwan). Desde então, a Igreja no continente operou em duas estruturas paralelas: a "oficial", ligada à Associação Patriótica Católica Chinesa, e a "clandestina", fiel a Roma. Famílias, dioceses e religiosos viveram, durante décadas, essa cisão — às vezes com vigilância, prisões e demolições de templos.

O acordo de 2018 não resolveu essa ferida. Apenas a administrou. E foi renovado periodicamente, o que indica que ambas as partes consideram o instrumento útil, mesmo que imperfeito. Para Pequim, é uma forma de obter legitimidade internacional para seu modelo de controle religioso. Para o Vaticano, é a única ponte restante com mais de 12 milhões de católicos chinesos estimados.

O que separa fato de avaliação

Fato apurado: o acordo provisório existe desde 2018, foi assinado no pontificado de Francisco, foi renovado, e prevê consulta sobre nomes. Ding Yang foi nomeado por Leão XIV em 28 de julho e ordenado em 8 de outubro, após aprovação nos termos do tratado, conforme o portal Terra.com.br.

Avaliação editorial: o arranjo, embora defensável do ponto de vista diplomático, produz uma Igreja Católica na China cuja hierarquia precisa ser aceitável ao Partido Comunista. Isso não é, por si só, perseguição — é seleção prévia. E seleção prévia, em matéria de fé, é o oposto do que a Igreja professa sobre liberdade de consciência.

Por que isso importa

Quem acompanha a política brasileira pode perguntar: o que uma ordenação em Chongqing tem a ver com o Brasil? Em termos domésticos, pouco. Em termos de princípios que esta análise considera estruturantes — liberdade religiosa, soberania institucional, transparência de poder, recusa à chancela de regimes que reprimem direitos —, muito.

O Vaticano é uma das poucas instituições globais que ainda reivindica, com alguma autoridade moral, a defesa da dignidade humana universal. Quando essa instituição aceita sentar à mesa de um regime que viola sistematicamente a liberdade religiosa em troca de acesso a fiéis, ela dilui, aos poucos, o capital moral acumulado em séculos. O preço pode não ser visível na próxima ordenação, mas aparece na próxima crise em que a Santa Sé precisar falar em nome dos perseguidos — e perceber que já falou demais com os perseguidores.

Para o leitor brasileiro, a lição é de método, não de tema: instituições sérias resistem a ser cooptadas, não porque o diálogo seja proibido, mas porque o custo de ser cooptado supera, no médio prazo, o benefício de ser ouvido. A Bússola Nacional lembra que esse raciocínio se aplica também a Brasílias, a TJs e a qualquer instância que aceite trocar autonomia por acesso.

Perguntas frequentes

O que é exatamente o acordo entre Vaticano e China?

É um mecanismo provisório assinado em 2018, no pontificado de Francisco, que estabelece consulta bilateral para a nomeação de bispos na China. Foi renovado periodicamente e está em vigor. Detalhes operacionais não são públicos.

Por que a Santa Sé rompeu com Pequim em 1951?

Porque o Vaticano reconheceu Taiwan (República da China) como representante legítimo do povo chinês. Para Pequim, Taiwan é "província rebelde", e o reconhecimento foi considerado interferência em assuntos internos.

O acordo garante liberdade religiosa aos católicos chineses?

Não. Ele disciplina a nomeação de bispos, mas não altera o regime chinês de controle da religião, que segue restritivo. Católicos em comunidades "clandestinas" continuam sem reconhecimento estatal.

O novo papa, Leão XIV, mudou a política para a China?

O caso de Chongqing mostra continuidade com o arranjo herdado de Francisco. Não há, até agora, sinal público de revisão do tratado, embora o novo pontífice tenha liberdade para fazê-lo.

O que diferencia a leitura crítica da leitura oficial do Vaticano?

A leitura oficial sustenta que o acordo preserva a unidade da Igreja e o diálogo. A leitura crítica sustenta que ele institucionaliza a participação de um Estado autoritário na escolha de autoridades religiosas, criando precedente perigoso e diluindo a autoridade moral da Santa Sé.

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